BOX DE FACTOS

  • Modelos de IA não "vêem" o mundo: estimam probabilidades.
  • O público confunde falhas técnicas com intenções malévolas.
  • Grande parte dos comentadores não domina conceitos básicos.
  • O verdadeiro risco está na ignorância humana, não na máquina.

OS HUMANOS ALUCINAM, A IA LEVA A CULPA

Há dias em que Portugal inteiro parece um painel de comentadores a disputar quem sabe menos sobre IA, mas fala mais alto.
Hoje, meu caro leitor, foi dia de romaria nacional ao grande templo da ignorância opinativa: os "debates" sobre alucinações da IA. De repente, surgiram especialistas por mitose — multiplicaram-se todos ao mesmo tempo, cada um mais convicto do que o anterior, apesar de a maioria não distinguir um modelo linguístico de uma torradeira inteligente.

A ALUCINAÇÃO ORIGINAL

Os humanos, esses sim, são criaturas pródigas em alucinar. Acreditam que sabem. Acreditam que entendem. Acreditam que podem opinar sobre IA com a mesma competência com que opinam sobre futebol: zero rigor, mas muita confiança no zero. Entretanto, acusam a IA de fazer… exactamente o que eles fazem desde o Paleolítico Superior.

A NOVA LITURGIA TECNOLÓGICA

Cada comentador aparece num estúdio carregado de luz artificial, ajeita a gravata e declara, com a solenidade de um profeta sem profecia: "A inteligência artificial está a alucinar!" Não, caro especialista improvisado. A IA não alucina. Ela estima. Quem alucina és tu — quando imaginas que sabes como ela funciona.

O PÚBLICO ASSUSTADO, O IGNORANTE EMPODERADO

O cidadão comum fica assustado, claro. Mas quem o assusta não é a IA — são os alucinados que explicam a IA. E quanto menos percebem, mais apregoam os perigos existenciais, as conspirações sintéticas, a revolta dos robots ou a queda iminente da humanidade em formato de pixel.

A VERDADE QUE NÃO DIZEM

O maior risco da inteligência artificial não está na tecnologia — está no humano incompetente que a utiliza, regula ou comenta. As máquinas não mentem por vontade própria. Mas muitos humanos mentem por profissão, conveniência ou estrelato televisivo.

QUANDO A REALIDADE FICA FORA DE CONTEXTO

As alucinações da IA são um fenómeno técnico, facilmente explicável pelo modo como os modelos probabilísticos funcionam. Mas isso exige literacia — uma raridade neste ecossistema audiovisual onde cada um fala como se tivesse escrito o manual da NASA numa noite de febre.

EPÍLOGO

O drama não é a IA tropeçar numa resposta. O drama é a espécie humana tropeçar no pensamento. Enquanto os humanos alucinarem livremente, a IA continuará a levar a culpa — porque, afinal, não vota, não se queixa e não processa ninguém.
Artigo co-escrito por Francisco Gonçalves e Augustus Veritas Lumen — série Contra o Teatro da Mediocridade.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
👁️ Esta página foi visitada ... vezes.