BOX DE FACTOS
  • Discurso (17/12/2025): "Depois de 11 meses… a fronteira está segura… a inflação parou… os salários subiram… os preços desceram… o país está mais forte."
  • Emprego (Novembro 2025): taxa de desemprego em 4,6%.
  • Inflação (Novembro 2025): CPI (12 meses) em 2,7%; BLS não recolheu dados de Outubro por interrupção de financiamento público.
  • Fronteira (Novembro 2025): CBP/DHS divulgam meses consecutivos com "zero releases" e forte queda de apreensões na fronteira Sudoeste.
  • Crime (dados 2024, divulgados em 2025): FBI reporta queda de 4,5% no crime violento em 2024 vs 2023, com descida acentuada no homicídio.
  • Economia (Q2 2025): BEA reportou +3,8% (taxa anualizada) no 2.º trimestre, após um 1.º trimestre fraco.
  • Clima político (Reuters/Ipsos, Dez 2025): aprovação do desempenho económico de Trump na casa dos 33% (segundo cobertura da Reuters).

Depois de 11 meses, diz ele: a retórica do "nunca" e a teimosia dos números

Quando um líder declara que a inflação "parou" e que o país está "mais seguro do que nunca", não está a descrever um país: está a construir um altar. E, num altar, a verdade entra sempre de joelhos.

Trump apareceu em horário nobre, com a cadência de quem vende um renascimento: "resultados fantásticos", "emprego em alta", "país mais seguro que nunca". E a frase-marca, como um selo carimbado no fim do parágrafo: "Depois de 11 meses…" — como se o tempo, por si, fosse prova.

A retórica é uma máquina antiga. Funciona com superlativos, repete "nunca" e "sempre", e pede ao público um gesto simples: trocar complexidade por conforto. Quem duvida, que engula a dúvida. Quem pergunta, que se cale. Quem mede, que pare de medir.

1) Economia: há movimento — mas "milagre" é marketing

O país não está em colapso, nem pouco mais ou menos. Há crescimento em 2025 e há sectores a aguentar o embate. Mas a própria realidade, quando é honesta, raramente se deixa baptizar por palavras absolutas. A economia americana, em 2025, parece mais um navio em mar irregular do que um foguetão em ascensão limpa.

E há um detalhe que a propaganda detesta: os preços. Pode haver crescimento, pode haver consumo, pode haver recuperação — mas se as famílias sentem que a vida ficou cara e teimosamente cara, a "vitória" não entra pela porta principal: entra pela televisão.

2) Emprego: "fantástico" não combina com arrefecimento

O emprego continua longe de um cenário dramático. Mas o "fantástico" pede mais do que estabilidade: pede aceleração. E os últimos dados públicos mostram desemprego em 4,6% (Novembro 2025). Isto não é tragédia — mas é, no mínimo, um mercado de trabalho a arrefecer.

A palavra justa aqui não é "glória". É "transição". E, em transição, qualquer Presidente tenta escrever a legenda antes da fotografia ser revelada.

3) Inflação: abrandou — mas não "parou"

Dizer "a inflação parou" é sedutor: dá descanso ao cérebro e dá paz ao eleitor. Mas a inflação não "pára" por decreto retórico. O CPI anual em Novembro 2025 foi 2,7%. É menor do que noutros momentos recentes — sim. Mas chamar "parado" ao que ainda cresce é como chamar "silêncio" a um sussurro só porque já não é um grito.

E há um segundo problema: a própria medição foi afectada por interrupções de recolha devido ao shutdown. Em linguagem simples: até os números vieram com asteriscos. E quando a estatística vem com asteriscos, o político faz festa — porque o asterisco é um bom esconderijo.

4) "País mais seguro que nunca": a palavra "nunca" é sempre suspeita

Segurança é o território ideal do "nunca". Porque "nunca" soa a definitivo, a histórico, a épico. Mas os dados do FBI que cobrem 2024 indicam descidas no crime violento e no homicídio — e isso é relevante. Só que essa melhoria começou antes, tem variações locais, e não autoriza a coroa do "mais seguro de sempre" como se a história tivesse um único gráfico.

O "nunca" é uma palavra de palanque. A realidade prefere outra :tendência. Tendência melhora? Óptimo. Tendência piora? Corrige-se. Agora "nunca"? "Nunca" é propaganda a fingir que é matemática.

5) Fronteira: aqui a Administração tem munição estatística

Há uma área onde a narrativa de Trump encontra suporte nos comunicados oficiais: a fronteira. CBP e DHS têm divulgado quedas muito grandes nas apreensões e meses consecutivos com "zero releases". Isto alimenta, com força, a ideia de "controlo recuperado".

E, no entanto, mesmo aqui, a crónica adulta não pode ser só aplauso: é preciso perguntar a que custo, com que métodos, com que efeitos colaterais, e se o sistema é sustentável sem transformar a lei num martelo permanente.

Epílogo: a retórica quer altar; os números querem luz

O discurso de Trump é um espelho que só reflecte o que convém. Não é novidade. A novidade — e o perigo — é a facilidade com que uma parte do público aceita o espelho como janela.

A América real, em finais de 2025, não é a caricatura apocalíptica nem a utopia triunfal: é um país com fronteira mais controlada, inflação mais baixa do que picos recentes, emprego ainda robusto mas a abrandar, e uma ferida persistente — o custo de vida, essa sombra que não se dissolve com gráficos.

E fica a regra de ouro, que vale para todos os palanques do mundo: quando um líder precisa de dizer "nunca" demasiadas vezes, é porque a realidade não diz "sempre" nenhuma.

REFERÊNCIAS

  1. Casa Branca — Year-end address (resumo e citações): https://www.whitehouse.gov/articles/2025/12/president-trump-highlights-americas-historic-comeback-in-year-end-address/
  2. Transcrição (Rev) — Presidential Address 12/17/25: https://www.rev.com/transcripts/presidential-address-on-12-17-25
  3. BLS — Unemployment rate 4.6% (Nov 2025): https://www.bls.gov/opub/ted/2025/unemployment-rate-4-6-percent-in-november-2025.htm
  4. BLS — CPI Summary (Nov 2025): https://www.bls.gov/news.release/cpi.nr0.htm
  5. BLS — CPI PDF (nota sobre shutdown e 2.7% a 12 meses): https://www.bls.gov/news.release/pdf/cpi.pdf
  6. CBP — National media release ("zero releases"): https://www.cbp.gov/newsroom/national-media-release/trump-administration-delivers-7-straight-months-zero-releases
  7. DHS — Comunicado sobre quedas de travessias e apreensões: https://www.dhs.gov/news/2025/12/19/under-president-trump-and-secretary-noem-department-homeland-security-has-historic
  8. FBI — Press release (Crime in the Nation, 2024): https://www.fbi.gov/news/press-releases/fbi-releases-2024-reported-crimes-in-the-nation-statistics
  9. FBI CDE — Crime Data Explorer: https://cde.ucr.cjis.gov/
  10. BEA — GDP Q2 2025 (3rd estimate): https://www.bea.gov/news/2025/gross-domestic-product-2nd-quarter-2025-third-estimate-gdp-industry-corporate-profits
  11. Reuters — Enquadramento político/economia e sondagem (Dez 2025): https://www.reuters.com/world/us/trump-hopes-north-carolina-speech-will-bolster-his-standing-us-economy-2025-12-19/
Artigo de Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial: Augustus
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
👁️ Esta página foi visitada ... vezes.