BOX DE FACTOS
  • Maria Luís Albuquerque, comissária europeia dos Serviços Financeiros e da União de Poupança e Investimento, reuniu em Bruxelas com responsáveis de vários grandes bancos europeus.
  • Entre os presentes estiveram Paulo Macedo, CEO da Caixa Geral de Depósitos, e Miguel Bragança, CFO do BCP, em representação da banca portuguesa.
  • Os banqueiros pediram "ambição de todos os lados — decisores políticos, supervisores e bancos" na criação de um Mercado Único "verdadeiramente integrado".
  • Segundo a comissária, os bancos europeus são hoje "fortes, resilientes e rentáveis", mas a fragmentação regulatória continua a limitar a expansão transfronteiriça e a consolidação do sector.
  • Este diálogo alimentará o Relatório sobre a Competitividade Bancária de 2026 e a revisão das regras de supervisão e regulação na União Europeia.

«Os banqueiros unidos jamais serão vencidos»
A nova Internacional da Banca Europeia

Enquanto milhões de europeus apertam o cinto, os donos do sistema financeiro reúnem-se em salões discretos de Bruxelas para pedir "mais ambição". Não falam de salários, nem de serviços públicos: falam de consolidação, de menos fragmentação, de um Mercado Único feito à medida da banca. É a velha canção com letra nova: aliviar quem manda, apertar quem paga.

1. Quando a banca descobre a palavra "ambição"

"Precisamos de ambição de todos os lados — decisores políticos, supervisores e bancos." A frase, saída de um encontro entre os principais banqueiros europeus e a comissária Maria Luís Albuquerque, soa quase a palavra de ordem sindical. Falta apenas o megafone e a faixa: "Os banqueiros unidos jamais serão vencidos."

Mas aqui não há precários nem recibos verdes. Há administradores bem instalados, representantes de grupos financeiros gigantescos, entre eles a nossa CGD e o BCP, a apelarem a uma ambição muito específica: menos fragmentação, menos obstáculos, menos travões à expansão e à concentração do poder bancário à escala europeia.

De repente, a palavra que faltou aos governos quando cortaram salários, pensões e serviços públicos surge em todo o esplendor: ambição. Não para reconstruir o contrato social, mas para reconstruir a rentabilidade estrutural de um sector que nunca perdoou à História o pequeno incómodo da crise de 2008.

2. Um Mercado Único feito à medida dos gigantes

A comissária portuguesa fala de um Mercado Único "verdadeiramente integrado". Em abstrato, parece inatacável: menos barreiras, mais eficiência, menos custo de capital. Na prática, sabemos o que estas palavras costumam significar: abrir caminho a fusões transfronteiriças, à concentração em meia dúzia de bancos sistémicos e à criação de entidades tão grandes que, na próxima crise, serão novamente "too big to fail".

A fragmentação de que se queixam não é a fragmentação dos direitos sociais, nem a desigualdade entre países-centro e países-periferia. É a fragmentação regulatória que ainda impede um banco alemão de comprar um banco português com a mesma facilidade com que se compra uma start-up tecnológica. O Mercado Único, nesta gramática, é o grande condomínio do capital financeiro, com porteiro político à porta e a factura final entregue aos contribuintes.

O discurso é embalado na retórica do progresso: "transformar poupanças em oportunidades de investimento para todos os europeus". Contudo, a experiência das últimas décadas mostra como essas oportunidades se materializam: comissões sobre tudo o que mexe, taxas que crescem quando os salários encolhem, e produtos financeiros tão "inovadores" que ninguém os compreende até ao dia em que rebentam.

3. Bancos "fortes, resilientes e rentáveis" — para quem?

Maria Luís Albuquerque assegura que os "bancos europeus são fortes, resilientes e rentáveis" graças à arquitectura construída na última década. E tem razão — do ponto de vista da banca. Depois de resgates públicos, consolidação forçada e milhões de euros em juros pagos pelos estados endividados, o sistema está hoje mais enxuto, mais concentrado e mais disciplinado… pelos mesmos dogmas que quebraram a espinha às economias mais frágeis.

A pergunta que não entra nos comunicados é outra: fortes e resilientes para quem? Para o cidadão que viu o seu banco ser salvo com o dinheiro dos seus impostos e depois foi brindado com comissões recorde? Para as pequenas empresas que continuam a ser tratadas como risco de segunda enquanto o capital especulativo entra e sai sem grande constrangimento?

A rentabilidade regressou, mas não sob a forma de melhores condições de crédito, de taxas mais justas ou de um sistema verdadeiramente orientado para o investimento produtivo. Regressou sob a forma conhecida: menos trabalhadores, mais automação no front-office, mais pressão comercial para vender tudo o que tenha carimbo de "produto financeiro".

4. Supervisores chamados a "ter ambição"

Há um detalhe particularmente revelador na mensagem dos banqueiros: a ambição não é pedida apenas aos políticos, mas também aos supervisores. A entidade que deveria ser o travão é convidada a tornar-se acelerador. Ambição, aqui, significa rever regras prudenciais, suavizar exigências de capital, simplificar relatórios, agilizar autorizações.

Em linguagem simples: menos incómodo, mais liberdade para o negócio. Depois, quando algo correr mal — porque mais tarde ou mais cedo corre — a ambição desaparece e regressa a velha frase: "não poderíamos ter previsto". Nessa hora, a factura volta a bater à porta de quem nunca esteve nestas salas de Bruxelas: trabalhadores, reformados, contribuintes anónimos.

A narrativa da competitividade torna-se, assim, o biombo perfeito: quem ousar questionar esta agenda arrisca ser rotulado de inimigo do progresso, do investimento e da Europa. Como se a única Europa possível fosse aquela em que o mapa é desenhado pelos balanços dos bancos.

5. Poupança e investimento: de quem é a União?

O projecto político chama-se "União de Poupança e Investimento". Nome elegante, quase poético. Mas convém perguntar: união de quem com quem? O cidadão comum é convocado apenas enquanto fornecedor de matéria-prima — a sua poupança. O destino dessa poupança será decidido por conselhos de administração, consultores e algoritmos, sob a supervisão de reguladores que se querem agora "ambiciosos".

Uma verdadeira União de Poupança e Investimento deveria colocar no centro o interesse social: financiar transição energética com justiça, apoiar projectos industriais sustentáveis, reforçar infra-estruturas públicas, defender o emprego de qualidade. O que temos, pelo contrário, é a promessa de um grande mercado financeiro integrado em que a prioridade é alavancar margens, consolidar balanços e aumentar o retorno para accionistas.

Entre a poesia dos comunicados e a prosa da realidade, há um abismo: o trabalhador que luta para poupar vinte euros ao fim do mês, a família que hesita entre pagar a renda ou a prestação da casa, o pequeno empresário que precisa de crédito produtivo em vez de "soluções estruturadas" incompreensíveis.

6. De 2008 a 2025: memória curta, lucros longos

Não é preciso recuar muito. Há pouco mais de uma década, a banca europeia ajoelhava perante estados que tiveram de socializar perdas privadas para evitar o colapso do sistema. Em Portugal, bancos caíram, grupos históricos implodiram, e a fatura continua a ser paga na dívida pública e na compressão de serviços essenciais.

Hoje, os mesmos actores regressam, de fato engomado e discurso renovado, a pedir que se remova a "fragmentação" que ainda os incomoda. A memória da crise é tratada como um pequeno contratempo que a História resolverá com uma nota de rodapé. O essencial, garantem, é não perder o comboio da competitividade global.

A verdade é outra: sem mecanismos fortes de regulação, sem limites claros à especulação e sem uma separação efectiva entre banca comercial e banca de investimento, o filme está condenado a repetir-se. Com ou sem Mercado Único integrado, a lógica continua a ser a mesma: privatizar os ganhos, socializar os riscos.

Epílogo: quem canta a última palavra de ordem?

No fim do encontro, ficam as fotografias solenes, os parágrafos diplomáticos e a promessa de um relatório sobre a competitividade bancária em 2026. A vida real, porém, não cabe nesses documentos. Ela escreve-se na diferença entre a taxa que o banco paga pelo nosso depósito e a taxa que nos cobra pelo crédito, na comissão que espreita em cada operação, no balcão que fecha na aldeia porque "não é rentável".

"Os banqueiros unidos jamais serão vencidos" — por enquanto, é verdade. Mas a História tem um humor peculiar: às vezes, basta que os cidadãos descubram que também podem organizar-se, exigir outra arquitectura financeira, recusar a chantagem permanente do "ou aceitam isto ou não há crescimento".

Até lá, entre workshops em Bruxelas e relatórios de competitividade, a Europa continuará a ser construída sobre um paradoxo: pede-se ambição para salvar bancos que já são rentáveis, mas não se encontra coragem para salvar vidas condenadas à precariedade, à pobreza energética, à ansiedade do fim do mês. A Internacional da banca já está afinada; falta saber quando será escrita, finalmente, a Internacional dos cidadãos.

Assinado por Francisco Gonçalves & Augustus Veritas Lumen, na crónica em que a palavra de ordem da banca é passada a limpo à luz de quem paga a conta.

Co-autoria intelectual integrada no projecto editorial Fragmentos do Caos.

Fontes usadas : Com base na notícia do Jornal de Negócios sobre o encontro entre Maria Luís Albuquerque e vários banqueiros europeus, incluindo Paulo Macedo (CGD) e Miguel Bragança (BCP), e nas declarações públicas da comissária sobre a criação de um Mercado Único bancário "verdadeiramente integrado".
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