Os Bancos Predadores e Criminosos Que Vão Continuar a Assombrar os Portugueses

- O assombro repete-se: lucro privado em dias bons, "salvação pública" em dias maus é "produto": comissões, spreads, letras miúdas e labirintos de atendimento.
- Risco moral: quando falha quem manda, paga quem trabalha.
- Memória curta institucional: mudam nomes, rebranding e slogans; mantêm-se hábitos.
- Justiça lenta: tempo suficiente para a culpa envelhecer e a indignação se cansar.
Os Bancos Predadores e Criminosos Que Vão Continuar a Assombrar os Portugueses
Os bancos, quando se comportam como instituições de serviço, são uma engrenagem útil: guardam, emprestam, facilitam, ligam o presente ao amanhã. O problema nasce quando deixam de ser ponte e passam a ser armadilha. Aí, o crédito torna-se anzol, a conta torna-se jaula, e o cidadão — esse animal manso e pagador — passa a ser o pasto regular do sistema.
A banca como teatro de sombras
Há um ritual que se repete com a precisão de um relógio suíço… pago a prestações. Em tempos de bonança, a banca celebra lucros com a solenidade de quem descobriu o fogo. Em tempos de crise, descobre subitamente a fragilidade humana — e pede compreensão, ajuda, "estabilidade". Traduzindo: quando corre bem, é mérito; quando corre mal, é "contexto". E o contexto, curiosamente, tem sempre NIF de contribuinte.
O cliente como minério
O português comum entra num balcão como quem entra numa repartição do destino: pede um empréstimo, renegocia uma prestação, tenta entender uma comissão que nasceu do nada — e sai com mais papéis do que respostas. A linguagem é um nevoeiro propositado: "produto", "solução", "campanha", "pack", "vantagem". Em bom português antigo (o da aldeia e o da verdade): pagas e calas.
A socialização do naufrágio
O mais obsceno não é haver falhas — falham pessoas, falham sistemas, falha o mundo. O mais obsceno é a liturgia do perdão selectivo: quando os erros são grandes e vêm de cima, transformam-se em "reestruturações" e "planos de resolução". E assim, o prejuízo muda de casa. Sai do andar de cima e vai morar no rés-do-chão do país inteiro.
A justiça que chega quando o crime já tem barba
Depois, vem a travessia do deserto: processos intermináveis, responsabilidades evaporadas, e aquela sensação de que a verdade, em Portugal, não morre — apenas adormece num arquivo. A justiça, quando tarda, não é neutralidade: é uma forma elegante de permitir que a impunidade se habitue ao sofá.
O assombro vai continuar — se o deixarmos
Sim, estes bancos predadores e criminosos — enquanto lógica, enquanto cultura, enquanto sistema de incentivos — vão continuar a assombrar os portugueses. Não porque sejam invencíveis, mas porque contam com duas forças antigas: o cansaço e o hábito. O povo habitua-se ao abuso como quem se habitua ao frio: vai sobrevivendo, encolhido, até achar normal tremer.
Epílogo: quando a dignidade faz barulho
Um país não se mede apenas pela riqueza — mede-se pela forma como protege quem não tem tempo para advogados, nem paciência para manuais de "produtos financeiros". A banca só deixa de ser assombro quando passa a ter medo de duas coisas: transparência real e cidadania acordada. E uma cidadania acordada, meu caro leitor, não pede licença: acende a luz.
Fragmentos do Caos — crónica de combate, com a elegância possível num país onde até a verdade paga comissões.