Oitante, Fundo de Resolução e o teatro do reembolso: quando 13,1 milhões viram fogos de artifício

- Nova "distribuição": 13,1 M€ (segunda em 2025).
- Total entregue pela Oitante ao FR: 176,2 M€ desde a constituição.
- Ajuda do FR na resolução do Banif: 489 M€; falta ressarcir cerca de 64% (≈313 M€).
- Prejuízo global do caso Banif: 2,9 mil M€ (valor líquido para contribuintes até 2024, segundo referência ao TdC).
- Rombo total com ajudas à banca: 21,3 mil M€; recuperação referida de apenas 3,5%.
Oitante: o "pagamento" que vira propaganda
e o prejuízo que fica a viver connosco
1) A aritmética da cortina de fumo
Treze vírgula um milhões. Lido depressa, soa a vitória. Lido devagar, com a frieza de quem paga contas, é apenas um grão de areia atirado aos olhos do público: um pequeno brilho para esconder um grande buraco.
O Fundo de Resolução anuncia a "nova distribuição", soma 176,2 milhões entregues, e conclui que isso já representa cerca de 36% da verba paga pelo Fundo na resolução do Banif. Tudo certo — mas falta a outra metade do filme: faltam cerca de 313 milhões. E o tempo, esse, não tem piedade nem desconto.
2) O detalhe mais revelador: as "felicitações"
A certa altura, o comunicado não resiste à tentação e escreve a frase típica do regime dos comunicados:felicita a administração e os trabalhadores pelos "resultados consistentes". É aqui que a linguagem se transforma em maquilhagem: quando ainda falta a maioria do reembolso, o texto decide fazer de mestre-de-cerimónias.
Em Portugal, até os prejuízos ganham protocolo. E quando ganham protocolo, ganham também o seu efeito: a opinião pública começa a ouvir "paga" onde devia ouvir "ainda deve".
3) O rombo maior: o Banif como capítulo, não como livro
O caso Banif, por si, já vem com números que doem: referência a 2,9 mil milhões de prejuízo global para os contribuintes. Mas ele não é o livro inteiro: é um capítulo numa biblioteca sombria em que os títulos se repetem — BES/Novo Banco, BPN, e outros nomes que a memória nacional aprende a pronunciar como quem engole vidro.
Quando se fala em 21,3 mil milhões de rombo total e em 3,5% de recuperação, a pergunta deixa de ser "quanto foi pago?" e passa a ser "por que razão isto continua a ser aceitável?". E "aceitável" aqui significa apenas: suficientemente embrulhado para não arder todos os dias nos telejornais.
4) A manipulação: não é mentir — é escolher o foco
A propaganda moderna raramente mente de frente. Ela faz algo mais eficaz: enquadra. Põe a câmara no valor devolvido, e não no valor em falta. Põe o microfone no "trabalho desenvolvido" e cala o ruído do prejuízo que se acumulou como ferrugem no orçamento do País.
E assim se fabrica o "esplendor": uma migalha apresentada como banquete, um reembolso parcial tratado como redenção, e uma fotografia de "boa gestão" colada por cima do que nunca foi resolvido: a responsabilidade real.
Epílogo: o País que paga e o País que aplaude
O contribuinte português é, muitas vezes, a personagem invisível: aparece sempre no fim, para fechar a conta. E quando lhe dizem "recuperámos mais 13,1 milhões", ele devia responder, com serenidade de lâmina: "Óptimo. E quando recuperamos o resto? E quando recuperamos a decência?"
- DN — Oitante paga parte da ajuda, mas ainda falta 64% (19 Dez 2025)
- Fundo de Resolução — Comunicado (PDF), 19 Dez 2025
- ECO — Oitante entrega mais 13,1 milhões ao FR (19 Dez 2025)
- ECO — Balanço das ajudas à banca e referência ao TdC (Out 2025)
- Jornal de Negócios — Distribuição ao FR (Dez 2025)
- RTP — Síntese noticiosa (Dez 2025)
Co-autoria editorial e investigação de Fontes : Fragmentos do Caos News Team
Nota Final
O que a Oitante "recupera" não é prosperidade, nem justiça, nem futuro — é apenas o que ainda se consegue arrancar do casco do Banif: imóveis que se vendem a conta-gotas, créditos malparados que se perseguem em tribunais lentos, garantias que apodrecem em papel e betão. E enquanto se celebra cada punhado de moedas como se fosse redenção, mantém-se ligado o motor caro da máquina — servicers, advogados, peritos, manutenção, estruturas — porque o naufrágio não se desmonta sozinho. No fim, a verdade nua e crua é esta: não estamos a ver um milagre; estamos a pagar o guindaste que puxa os destroços — e ainda aplaudimos quando ele devolve um parafuso.