O Predador Impune e o Silêncio do Mundo

- A Rússia invadiu a Ucrânia em larga escala, tentando redesenhar fronteiras pela força.
- As consequências humanas e materiais são devastadoras, com cidades destruídas e milhões de vidas feridas.
- O princípio de soberania dos Estados e a proibição do uso da força estão no centro desta ruptura histórica.
- Existe um processo internacional de responsabilização política e jurídica, mas a sua eficácia depende da persistência dos Estados democráticos.
- O maior risco estratégico do presente é uma "paz" que normalize a conquista e transforme a agressão em precedente.
O Predador Impune e o Silêncio do Mundo
Chamar as coisas pelo nome não é excesso; é higiene moral. Quando um Estado invade outro para o submeter, não estamos perante uma "disputa geopolítica" com gravata académica. Estamos perante a tentativa de transformar o século XXI numa réplica sombria das eras em que as fronteiras eram escritas a ferro, e assinadas com o sangue dos mais fracos.
O que me revolta — e com toda a razão — é a sensação de que o predador destrói um país e continua a caminhar no palco internacional como se o crime fosse uma nota de rodapé. Essa sensação tem peso real, porque a impunidade não é apenas uma ausência de castigo: é uma fábrica de futuros monstros.
A guerra como precedente
A Ucrânia tornou-se a linha onde o mundo decide se a soberania é um princípio ou um enfeite. Se a conquista territorial for premiada — mesmo que mascarada de "acordo pragmático" — então a mensagem global é clara: quem tiver força suficiente pode reescrever o mapa.
E quando essa mensagem se instala, não fica confinada à Europa de Leste. Viaja. Enraíza. Inspira. Não porque os povos a desejem, mas porque os oportunistas a reconhecem como oportunidade histórica.
O erro fatal do cansaço
As democracias têm um inimigo íntimo: o desgaste. A fadiga das notícias, o ruído das crises paralelas, os cálculos eleitorais, a tentação de trocar justiça por silêncio. A barulheira do quotidiano é, muitas vezes, o manto perfeito para os grandes crimes do nosso tempo.
Mas há uma diferença decisiva entre o cansaço humano e a desistência política. O primeiro é compreensível. O segundo é perigoso. Porque abandonar a defesa de um povo invadido não é neutralidade: é uma forma de consentimento estratégico.
A Europa diante do espelho
Esta guerra não é apenas uma tragédia ucraniana; é um teste europeu. Um teste de maturidade, de autonomia, de coragem industrial e militar, de clareza moral. O continente que inventou declarações de direitos não pode contentar-se com sussurros diplomáticos quando a agressão se torna método.
A resposta não é um impulso emocional; é arquitectura. É produção de defesa com escala. É independência energética real. É combate sério à desinformação. É a recusa absoluta de uma paz escrita como rendição elegante.
O preço da justiça lenta
Há quem diga que a justiça internacional é lenta. É verdade. Mas a lentidão não é sinónimo de inutilidade. A História tem um hábito incómodo de fechar círculos quando os criminosos acreditam que o círculo não existe.
O que falta, muitas vezes, não é o princípio. É a persistência política para o sustentar. É o músculo que dá corpo ao direito. Sem isso, as leis tornam-se bons sentimentos impressos em papel frágil.
Epílogo: não normalizar o abismo
O mundo não pode ficar parado — concordo contigo, sem reservas. Mas "não ficar parado" não significa gritar mais alto; significa agir melhor. E agir melhor, aqui, é simples e exigente: não recompensar a agressão, não reduzir a Ucrânia a moeda de troca, não permitir que a força se transforme em precedente.
A paz que salva o agressor e condena o invadido não é paz. É uma pausa operacional no crime. A paz que ignora a justiça não fecha feridas; empurra-as para o futuro, onde voltam em forma de nova guerra.
Se há uma lição que não podemos desperdiçar, é esta: o século XXI só merecerá esse nome quando a civilização for mais teimosa do que a barbárie.
Crónica para Fragmentos do Caos