O Porta-Voz Sem Credencial — e a Mentira em Prime-Time

- Rússia alegou um ataque ucraniano com "91 drones" contra uma residência presidencial; Kiev negou e chamou-lhe "mentira"/pretexto. 0
- Fontes internacionais salientaram a disputa e a ausência de prova pública, independente e verificável que feche o assunto para fora do teatro político. 1
- Em Portugal, o ruído mediático tende a confundir comentário com veredicto — sobretudo quando a frase vem embrulhada em mapas e "imagens de satélite".
O Porta-Voz Sem Credencial — e a Mentira em Prime-Time
Em guerra, a primeira vítima costuma ser a verdade. Em televisão, a segunda vítima é a dúvida — porque dá pouco "share". E é aqui que começa a comédia sombria: a Rússia afirma que a Ucrânia lançou 91 drones contra uma residência presidencial; a Ucrânia nega e chama à história uma fabricação com fins estratégicos. 2
No meio deste nevoeiro, entra o comentador de farda mental: aponta para ecrãs, sacode gráficos, invoca "satélite", e pronuncia a frase fatal — a frase que mata a cidadania: "Foi assim. Está provado."
A "prova" que não se pode auditar
Imagens de satélite podem ser valiosas — mas não são varinhas mágicas. Sem origem clara, sem contexto temporal robusto, sem análise independente, sem cadeia de custódia, uma imagem pode ser apenas isto: um postal. E um postal, não é um processo.
O problema não é haver opinião. O problema é a opinião vestir-se de sentença, entrar pela sala como se fosse tribunal, e pedir ao público que suspenda o cérebro "só hoje". Amanhã pede de novo. E depois é sempre.
Quando a propaganda aprende português de estúdio
Há um fenómeno curioso: certas narrativas chegam de Moscovo com passaporte diplomático e, em poucas horas, já falam com sotaque de painel. Não digo que exista "porta-voz" oficial. Digo algo mais simples e mais perigoso: há eco. E um eco, repetido com gravata e autoridade emprestada, passa a soar a verdade.
Quando alguém afirma "peremptoriamente" aquilo que o próprio campo noticioso internacional descreve como disputado e sem confirmação pública independente, temos um problema de higiene democrática. 3
O que fazer com isto?
Fazer o que os povos livres sempre fizeram: pedir prova, pedir fonte, pedir verificação, pedir contraditório. E, sobretudo, não confundir o brilho do ecrã com a luz da verdade.
Epílogo
A mentira moderna já não precisa de gritar: basta ser repetida com calma, no enquadramento certo, com a legenda certa. E assim, sem nos darmos conta, trocamos a cidadania por plateia.
Nota de co-autoria: texto desenvolvido com Augustus Veritas (AI Assistant), com edição e direcção editorial do autor.