O País Parqueado, a Bola em Movimento: crónica do absurdo — entre offshores e poupanças em risco

- O dado que dói: circula a estimativa de que uma fatia gigantesca da riqueza nacional está "parqueada" em paraísos fiscais — enquanto o país real conta moedas.
- O contraste: o povo aperta o cinto; o capital, esse, muda de fuso horário e dorme em praias com sigilo bancário.
- A nova cantilena europeia: em nome de "fazer render", surge a ideia de canalizar poupanças para produtos de investimento — reconhecendo, sem pudor, que envolvem risco e sem garantia de capital.
- O paradoxo: quando falta coragem para enfrentar os grandes túneis da evasão, propõe-se ao cidadão comum que atravesse a ponte do risco.
O País Parqueado & a Bola em Movimento
Crónica do absurdo — entre offshores e poupanças em risco
Há países que guardam ouro em cofres. Portugal parece preferir guardá-lo em neblinas: uma parte em offshores, outra em promessas, e a restante em silêncios bem penteados. O cidadão, esse, fica com o recibo: renda, luz, gás, supermercado — e a sensação de que vive num teatro onde o palco é dele, mas a bilheteira pertence a outros.
1) A nação "parqueada": quando a riqueza tem morada e o povo tem fila
Diz-se que há uma montanha de dinheiro português estacionada em paraísos fiscais, como se o país tivesse decidido exportar a prosperidade e importar apenas as consequências. É um milagre ao contrário: quanto mais se trabalha, mais se empobrece; quanto mais se fala de "crescimento", mais a vida encurta.
A palavra "parqueado" é uma obra-prima de crueldade linguística. "Parqueado" não é "investido", não é "construído", não é "transformado". É dinheiro a dormir com ar condicionado, enquanto o país acorda com frio.
2) A pedagogia do cinismo: se não se caça o grande, catequiza-se o pequeno
E quando o absurdo já vai em velocidade de cruzeiro, chega a nova liturgia: "vamos pôr as poupanças dos europeus a render mais". O problema é que, na frase seguinte, vem o detalhe que não cabe em cartaz eleitoral: para render mais, tem de arriscar mais. E, com uma candura que roça o insulto, admite-se que não há garantia de capital.
Traduzindo para português corrente (o da cozinha e do autocarro): "o seu dinheiro, que já é curto, pode emagrecer ainda mais — mas é pelo bem da Europa". É uma espécie de evangelho financeiro: "Dai-nos hoje o risco de cada dia".
3) O truque de magia: chamar 'oportunidade' ao que sempre foi 'perigo'
Há aqui uma beleza trágica, quase literária: os mesmos sistemas que toleram túneis por onde passa o grande dinheiro, constroem pontes onde o pequeno é convidado a saltar. O capital pesado atravessa a fronteira em limousine; o cidadão atravessa o futuro numa bicicleta sem travões, com um folheto de literacia na mão.
E repare-se no requinte: primeiro, deixa-se a riqueza escapar; depois, pede-se ao povo que "participe". Participar é uma palavra bonita. Serve para reuniões, workshops, fotografias. Na vida real, participar é pagar — e, se correr mal, aprender "pela experiência".
4) Montenegro e a metáfora perfeita: o país no relvado, ele na bancada
Entretanto, cá no rectângulo doméstico, temos a política como bancada: fatos escuros, sorrisos treinados, e a eterna aula de motivação. "Joguem como o Ronaldo", dizem — como se a técnica resolvesse a falta de botas, a falta de treinador, a falta de campo, a falta de tempo, a falta de salário. A nação é convocada para a selecção… mas sem alimentação, sem recuperação, sem médico, sem massagista — e com uma lesão antiga chamada "desigualdade".
É aqui que o absurdo se torna completo: o povo pede justiça e recebe palestra; pede habitação e recebe metáforas; pede combate à evasão e recebe um convite para "investir melhor". Como se o problema fosse o pobre não saber multiplicar — e não o sistema saber esconder.
5) Epílogo: o risco não é um plano — é um aviso
Um país não se levanta com slogans financeiros. Levanta-se com regras que valem para todos, com fiscalização que não tem medo, com justiça que não faz descontos. Se há dinheiro a mais em paraísos fiscais, o caminho não é empurrar o cidadão comum para o risco: é trazer a riqueza de volta ao lugar onde deve viver — na economia real, com nome, rosto, imposto, responsabilidade e futuro.
Porque quando a política pede ao pobre para "render mais", sem lhe devolver primeiro o que lhe foi roubado em décadas de truques, não está a governar: está a vender bilhetes para um jogo viciado. E, num jogo viciado, até o Ronaldo falha — não por falta de génio, mas por falta de chão.
Fontes & Referências (para colar abaixo do artigo)
- Declarações e contexto sobre "poupanças" e investimento com risco: cobertura Euronews (Junho 2025) e iniciativas da Comissão Europeia sobre União da Poupança e dos Investimentos.
- Contexto institucional: comunicação oficial da Representação da Comissão Europeia em Portugal sobre literacia financeira e oportunidades de investimento.
- Debate público sobre riqueza em offshores: referência ao Observatório Fiscal Europeu / European Tax Observatory e circulação de estimativas em redes sociais (carece de verificação directa no relatório original).
Fragmentos do Caos News Team — crónica editorial
Co-autoria: Augustus Veritas & Francisco Gonçalves (na trincheira das palavras, com o relvado por arranjar).