BOX DE FACTOS
  • O futebol português exporta anualmente centenas de milhões de euros em jogadores, figurando entre os maiores exportadores mundiais de talento.
  • Em paralelo, os principais clubes acumulam dívidas históricas na ordem de centenas de milhões, frequentemente reestruturadas, adiadas ou parcialmente perdoadas.
  • Uma parte significativa do dinheiro das transferências perde-se em comissões, contratos de imagem e circuitos financeiros opacos.
  • A paixão dos adeptos funciona como aval simbólico: legitima má gestão, suporta aumentos de bilhetes e quotizações, e ajuda a justificar apoios e reestruturações com intervenção do Estado.
  • O futebol espelha vícios estruturais do país: corrupção sussurrada, clientelismo, evasão fiscal e culto de uma "excepção" nacional que encobre a mediocridade noutras áreas.

O País de Duas Bandeiras
Futebol, Dívida e Paixão Cega

Num mesmo sábado, um carrinho de compras conta moedas no supermercado enquanto, noutro écran, um miúdo de 19 anos é vendido por quarenta milhões. Entre a economia real e a ficção financeira do futebol, Portugal aprendeu a viver com duas bandeiras: a nacional, desbotada pela austeridade, e a clubística, sempre a brilhar em alta definição.

I. A máquina de fazer dinheiro (que nunca tem dinheiro)

O paradoxo é absoluto: o futebol português é um gigante financeiro que vive em bancarrota crónica. Um dia ouve-se que batemos recordes de vendas, no outro que o clube não consegue pagar salários. Os números cantam hinos contraditórios. Há épocas em que a exportação de jogadores se aproxima de mil milhões de euros. Somos a feira mundial do talento, o grande mercado onde os grandes da Europa vêm abastecer-se.

Mas quando se abrem os relatórios e contas dos três grandes, o cenário muda: dívidas que se contam às centenas de milhões, sucessivas reestruturações bancárias, prazos empurrados para a frente, juros disfarçados, buracos herdados como se fossem parte do brasão. Uma indústria que gera receitas astronómicas mas vive como um devedor profissional.

Como pode um sector tão rentável ser tão pobre? A resposta mora nos desvãos do sistema. O dinheiro não circula; evapora-se. Dissolve-se em comissões de agentes, em contratos de imagem guardados em offshores, em transferências cruzadas entre clubes irmãos no mesmo universo empresarial. O adepto compra o bilhete, a camisola, o pacote de televisão. O sistema engole o capital e devolve dívida, comunicados e mais uma apresentação de reforços.

II. A paixão como cortina de fumo

Nenhuma outra actividade económica sobreviveria a esta gestão fantasiosa. Imagine-se uma padaria com trezentos milhões de euros de dívida a pedir mais crédito para comprar farinha mais cara. Fecharia em uma semana, entre gargalhadas do gestor de conta. No futebol, pelo contrário, há um mecanismo mágico que tudo suspende: a paixão.

A paixão não se mede em EBITDA, mede-se em gritos nas bancadas, em bandeiras estendidas, em vozes roucas ao domingo à noite. É um aval que nenhum banco reconheceria no papel, mas que toda a gente invoca na praça pública. Quando um clube está à beira da ruptura, não aparecem especialistas a explicar rácios financeiros. Surge o presidente, de cachecol ao pescoço e voz embargada, a falar de "cento e tal anos de história", "milhões de adeptos no mundo", "um património imaterial que não pode falhar".

A emoção salva o que a razão condenaria sem piedade. O adepto, a quem por vezes chamam "ignorante", eu prefiro chamar "generoso": paga as quotas atrasadas, aceita o aumento do bilhete, compra a terceira camisola oficial. E paga também como contribuinte, quando as dívidas se transformam em "reestruturações" com selo estatal, benefícios fiscais ou mãozinha amiga da banca pública.

III. O futebol como espelho (deformado) de Portugal

O mais inquietante é a forma como o futebol reflecte, com brutal fidelidade, os vícios do país. A corrupção, sempre sussurrada, quase nunca levada até às últimas consequências. Processos que se arrastam mais do que uma legislatura, emails que desaparecem, escutas que se perdem, suspeitas eternamente suspensas entre o boato e a absolvição por prazo prescrito.

O clientelismo também está lá, de cachecol ao peito. Lugares na administração de clubes atribuídos não pela competência, mas pela lealdade. É o "tacho" em versão desportiva: quem alinhou, quem protegeu, quem se calou, ascende ao camarote e ao cargo. O mérito desportivo interessa, mas desde que não contrarie a coreografia dos bastidores.

A evasão fiscal surge em versão elite. Jogadores que vivem, jogam e enriquecem em Portugal mas declaram residências fiscais em paraísos distantes; empresas de imagem que recebem milhões para aliviar a factura do fisco. Enquanto o cidadão comum paga IRS até ao último cêntimo, as estrelas dançam entre as frestas da lei, muitas vezes com o beneplácito discreto de quem devia controlar.

E há a narrativa da excepção: "somos um país pequeno, mas damos cartas". É verdade — produzimos craques com uma regularidade quase milagrosa. Mas esta narrativa serve também como anestesia. Celebramos a glória no relvado para não olhar de frente o fracasso em tantas outras áreas: produtividade, salários, escola pública, sistema de ciência e tecnologia que nunca chega ao nível do talento que exibimos na bola.

IV. Os dois lados da moeda (de quarenta milhões)

Seria injusto pintar tudo a preto. O futebol também nos deu alguns dos raros momentos de orgulho colectivo recente. O Europeu de 2016, por exemplo, uniu o país inteiro numa mesma respiração. As escolinhas de bairro afastam miúdos de caminhos mais perigosos. O futsal feminino cresce com uma dignidade silenciosa. Há treinadores portugueses espalhados pelo mundo, a mostrar que também sabemos pensar o jogo.

O problema não é o desporto em si; é o sistema que o sequestrou. Quando o negócio passa a mandar mais do que a bola, quando a dívida é herdada como heráldica, quando a paixão é transformada em colete salva-vidas de gestores medíocres, perdemos o rumo. A moeda de quarenta milhões tem sempre duas faces: de um lado, o talento genuíno do jogador; do outro, a engrenagem financeira que transforma pessoas em activos especulativos.

O adepto festeja o golo, o empresário festeja a cláusula. Um joga com o coração, outro com o spread. Entre os dois ergue-se um muro de vidro: vê-se tudo, mas quase ninguém quer ver de facto.

V. Um desejo (possivelmente ingênuo)

Sonho com o dia em que um presidente de clube apresentará as contas com o mesmo orgulho com que apresenta um reforço. Em que um relatório financeiro auditado merecerá tantos aplausos como um hat-trick ao minuto noventa. Em que os adeptos exigirão boas práticas de gestão com a mesma veemência com que protestam contra um central trapalhão.

Sonho com um futebol realmente de todos — não apenas no coração, mas também nos livros de contas. Onde as receitas das transferências milionárias sejam canalizadas para as modalidades amadoras, para a formação, para os sócios que mantêm viva a estrutura nos anos magros. Onde as bancadas sejam espaço de alegria e pertença, não apenas de consumo e endividamento emocional.

Até lá, continuaremos nesta dança esquizofrénica: vibrar com um golo aos noventa minutos enquanto ignoramos os milhões que escorrem pelos ralos do sistema. O futebol português, como o país que o inventou, é génio e oportunista, é paixão e negócio, é orgulho e vergonha em doses iguais.

E ali, no intervalo entre o apito e o golo, entre a dívida e o cheque em branco, entre a ignorância voluntária e a paixão redentora, seguimos nós — portugueses — a torcer não só pela vitória da nossa equipa, mas por um milagre maior: que um dia o futebol seja realmente nosso, e não apenas o dono de tudo aquilo que ainda temos para dar.

Assinado por Francisco Gonçalves & Augustus Veritas Lumen, em homenagem a todos os adeptos que pagam a conta e continuam, mesmo assim, a acreditar.

Co-autoria intelectual integrada no projecto editorial Fragmentos do Caos.

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