BOX DE FACTOS
Cinco responsabilidades históricas
  • Tratámos a barbárie interna como ruído distante, como se a violência doméstica de um regime não fosse ensaio geral para a violência externa.
  • Aprendemos a viver com a anexação de 2014 como quem aprende a viver com um alarme avariado: o som irrita, mas a casa arde na mesma.
  • Confundimos comércio com domesticação e chamámos "realismo" ao medo de cortar o cordão energético.
  • Deixámos que assassinatos e intimidações fora de fronteiras fossem respondidos com indignação episódica, sem dissuasão duradoura.
  • Demorámos a perceber que a dependência estratégica é uma rendição lenta, assinada em prestações.
Cinco propostas práticas
  • Autonomia energética total e verificável, com metas anuais públicas e penalizações políticas claras para retrocessos.
  • Reindustrialização de defesa europeia em escala real: munições, defesa aérea, drones, ciber-capacidades e logística.
  • Doutrina europeia de dissuasão económica: congelar, confiscar e bloquear activos de guerra com mecanismos legais robustos e rápidos.
  • Protecção continental de infraestruturas críticas e combate coordenado à desinformação, com unidades conjuntas e auditorias regulares.
  • Garantias de segurança credíveis para a Ucrânia que não convertam a agressão em fronteira definitiva legitimada.

O Ocidente Viu os Sinais — e Comprou o Silêncio

O erro não foi de falta de avisos. Foi de excesso de conveniência. A História não nos acusa por não termos visto — acusa-nos por termos visto e preferido adiar.

Havia sinais. Havia ruído de guerra antes da guerra. Havia fumo antes do incêndio total. A Chechénia foi o laboratório do terror impune; a Crimeia, o ensaio da conquista normalizada; os opositores mortos e envenenados, a demonstração de que o medo não reconhece passaportes.

E o Ocidente, esse velho continente que gosta de se ver ao espelho como guardião de valores, continuou a negociar energia, a alimentar dependências, a justificar o injustificável com a palavra mais cómoda de todas: pragmatismo.

Mas o pragmatismo que ignora a ética é apenas um nome educado para a rendição lenta. Não se trata de moralismo de salão; trata-se de matemática estratégica: quem financia o agressor não compra paz — compra apenas a próxima agressão.

A armadilha da memória curta

As democracias sofrem de amnésia selectiva. Indignam-se por ciclos. E cada ciclo termina quando o custo económico da coragem começa a ser discutido com a frieza de uma folha de Excel.

Foi assim que chegámos a 2022 com a surpresa fingida de quem já tinha lido a história, mas saltou os capítulos que incomodavam. E é assim que podemos chegar a uma "paz que não passa de um carimbo elegante sobre a agressão.

Epílogo: o tempo da ingenuidade acabou

O mundo não falhou por falta de inteligência. Falhou por excesso de conforto. Quando a democracia troca vigília por rotina, o predador não precisa de ser génio : precisa apenas de ser persistente.

Se queremos que a civilização europeia continue a ser mais do que uma nota de rodapé num mapa redesenhado pela força, então a regra é simples: nunca mais financiar o carrasco, nunca mais normalizar a conquista, nunca mais confundir silêncio com estabilidade.

Francisco Gonçalves
Crónica em co-autoria editorial com Augustus Veritas Lumen
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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