BOX DE FACTOS
  • A guerra da Rússia contra a Ucrânia continua a reconfigurar alianças e dependências energéticas e militares.
  • Muitos países fora do bloco ocidental mantêm relações económicas e estratégicas com Moscovo.
  • O discurso do "não alinhamento" tornou-se escudo político para evitar custos internos e externos.
  • Em 2025, a Índia reforçou publicamente a parceria estratégica com a Rússia durante a visita de Putin a Nova Deli.
  • O mundo oscila entre a normalização do agressor e o medo de um conflito mais amplo.

Metade do mundo com Putin, metade do mundo com medo

Há carrascos que conquistam território. E há carrascos que conquistam silêncio. Putin conquistou ambos: uma geografia de guerra e uma diplomacia de hesitação.

O carrasco com cadeira reservada

O mundo chegou a um ponto estranho: já não discute apenas a violência, discute a conveniência de a tolerar. E quando a conveniência entra na sala, a ética sai pela porta dos fundos, de cabeça baixa, sem fazer barulho.

Putin não é apenas o homem da guerra; é o laboratório de um método: testar limites, esticar o medo, medir a fadiga do Ocidente, e observar quantos países preferem a neutralidade confortável ao risco de um posicionamento claro.

A metade que escolhe o negócio

Há quem lhe chame realismo. Outros chamam-lhe sobrevivência. E há ainda quem lhe chame, com razão moral, cumplicidade. A verdade provavelmente mistura as três coisas. Muitos Estados olham para Moscovo e vêem um fornecedor de energia, um parceiro militar, uma peça útil no tabuleiro contra rivais regionais. Não vêem o sangue; vêem o preço.

O vampiro geopolítico alimenta-se desta fome de estabilidade barata. E a palavra "soberania" é muitas vezes usada como cortina: não para proteger povos, mas para proteger contas.

A metade que treme e adia

Do outro lado está a paralisia. A Europa vive entre a memória da guerra e o receio da escalada. Os EUA oscilam entre liderança e fadiga estratégica. E as democracias, por natureza, respiram mais devagar quando o adversário joga sem regras.

O medo é um imposto invisível. E o mundo democrático tem-no pago com juros: hesita, calcula, procura o limite exacto onde pode punir sem provocar o incêndio maior.

O truque do "não alinhamento"

A nova linguagem do século XXI é elegante: "equilíbrio", "multipolaridade", "pragmatismo". Traduzida sem perfume, significa: não perder energia barata, não perder armas, não perder margem de manobra — mesmo que isso implique tratar o agressor como mais um actor normal.

O problema é que a normalização é contagiosa. Hoje tolera-se a invasão. Amanhã tolera-se a anexação. Depois tolera-se a ideia de que a força é uma forma legítima de negociação.

O povo russo e o povo usado como escudo

E há uma ironia mais cruel: o carrasco não é apenas inimigo de povos estrangeiros. É também inimigo do seu próprio povo quando o poder precisa de sacrifícios internos para sustentar a máquina externa. A guerra, ao mesmo tempo, é arma e anestesia.

Epílogo: a civilização como teste de resistência

Diz-se que metade do mundo está com Putin. Talvez seja exagero estatístico, mas não é exagero simbólico. Há demasiada gente disposta a chamar "parceria" ao que, no fundo, é conveniência sobre cadáveres.

A outra metade hesita, não por cobardia simples, mas por medo de que a resposta correcta possa incendiar o mapa inteiro. E assim ficamos suspensos: entre a cumplicidade e a paralisia, entre a fome de estabilidade e a obrigação de justiça.

O século decidiu ser duro. A pergunta é se nós, enquanto civilização, ainda sabemos ser firmes.

Francisco Gonçalves
com co-autoria editorial de Augustus
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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