O Homem do Sistema: Conselheiro de Estado, Consultor Privado, e o País a Pagar a Conta

- Luís Marques Mendes foi eleito para o Conselho de Estado pela Assembleia da República em 5 de Agosto de 2011 (legislatura 2011–2015). Fonte
- Tomou posse como conselheiro designado pelo Presidente da República em 7 de Abril de 2016 (designação presidencial). Fonte
- Foi novamente nomeado pelo Presidente da República como conselheiro de Estado em 9 de Março de 2021. Fonte
- É apresentado publicamente como consultor na Abreu Advogados desde 2012. Fonte
- Em 19 de Dezembro de 2025, divulgou uma lista com 22 clientes da empresa familiar (LS2MM) e afirmou não revelar os clientes ligados à sociedade de advogados por invocar sigilo profissional. Fonte
O Homem do Sistema: Conselheiro de Estado, Consultor Privado, e o País a Pagar a Conta
Há um tipo de personagem que Portugal fabrica com eficiência quase industrial: o homem do sistema. Não é necessariamente o mais brilhante. Nem o mais corajoso. É o mais bem encaixado. O que sabe onde ficam as chaves, quem abre as portas, e qual é o corredor onde as câmaras não apanham o verdadeiro tráfego.
Luís Marques Mendes traz consigo esse currículo de interior: conselheiro de Estado por eleição parlamentar em 2011 e, mais tarde, conselheiro de Estado por designação presidencial, com nova nomeação em 2021. E isto, num país onde o acesso é moeda, e o contexto vale mais do que o ouro: não o ouro dos cofres — o ouro das redes. (AR 2011) (PR 2021)
A democracia das portas giratórias
O drama português raramente vem de um assalto frontal. Vem do desenho. Vem da sobreposição de papéis: aconselhar o Estado, comentar o País, circular nos círculos certos, e, em paralelo, manter actividade privada remunerada, sob a etiqueta elegante de "consultoria". A lei pode tolerar. A ética, essa, fica a olhar — e a engolir seco.
Em biografias públicas, Marques Mendes surge como consultor da Abreu Advogados desde 2012. E aqui nasce a pergunta que deveria ser feita sem medo, sem insulto, sem histeria: como se mede a independência quando a influência é capital e o capital vive de influência? (Abreu Advogados)
Transparência por metades: o truque mais antigo
No dia 19 de Dezembro de 2025, o candidato divulgou 22 clientes da empresa familiar e lançou um desafio aos restantes candidatos: "revelem tudo o que possa constituir conflitos de interesses". Parece virtuoso. Mas há um pormenor que, em democracia, não é pormenor: disse que não divulgaria clientes ligados à sociedade de advogados, invocando sigilo profissional. Ou seja: transparência onde não dói, e opacidade onde o nervo está exposto. (DN/Lusa) (RTP)
E é aqui que o País devia, finalmente, tocar a sineta. Não por vingança. Por higiene. Porque a questão não é uma pessoa. É o modelo. O modelo que transforma o espaço público num mercado de "credibilidade" vendida à hora, e a República numa espécie de sala VIP onde os mesmos entram sempre — e o povo paga sempre.
A imoralidade que não precisa de crime
Há uma perversão muito portuguesa: acreditar que, se não há crime, então há virtude. Não há. Pode não haver crime e haver captura. Pode não haver crime e haver demagogia. Pode não haver crime e haver um resultado político devastador: desconfiança.
Um conselheiro de Estado não é um cidadão qualquer num café. É uma figura com estatuto, proximidade institucional e influência simbólica. Se, ao mesmo tempo, mantém actividade privada de consultoria com rendas elevadas e zonas de sigilo, o País não tem obrigação de "acreditar". O País tem obrigação de exigir claridade.
O País real: quando a moral vira cartaz
Enquanto se discute o detalhe jurídico, a vida real acontece: salários estagnados, impostos que esmagam, serviços públicos a falhar, e uma sensação colectiva de que há cidadãos de primeira e cidadãos de segunda. Os de primeira não precisam de subir escadas: têm elevador. E, muitas vezes, têm também quem carregue a mala.
O problema do "homem do sistema" não é existir. O problema é ser vendido como salvador. A República das bananas não nasce do povo. Nasce do hábito, bem ensaiado, de apresentar a mesma engrenagem como se fosse renovação.
Epilogo: a campainha que ainda não tocou
Se Portugal fosse sério, teria regras simples: incompatibilidades claras, transparência auditável, períodos de nojo, e uma cultura política onde "sigilo" não é biombo para esconder o que interessa ao escrutínio democrático. Não é caça às bruxas. É auto-defesa.
Porque, no fim, a pergunta é só esta: quem serve quem? Se o Estado é servido por consciências livres, ou se é servido por carreiras que aprenderam a converter influência em facturação, com o povo a financiar o palco e a aplaudir por cansaço.
Fontes: DN (05/08/2011) · Presidência da República (09/03/2021) · Abreu Advogados (bio) · DN/Lusa (19/12/2025) · RTP (19/12/2025)