O Hijab Magnético e a Caixa de Pandora: quando o uniforme deixa de ser uniforme

- O que é: um hijab operacional com sistema de libertação rápida por ímanes ("quick-release"), para reduzir risco de estrangulamento em confronto.
- Quem: Leicestershire Police, em parceria com a De Montfort University (Reino Unido).
- Justificação oficial: segurança e manutenção de "modéstia"/apresentação profissional, sem criar um ponto de agarrar perigoso.
- O número que incendiou a discussão: meios noticiosos referem custos na ordem das centenas de milhares de libras (circulam valores perto de £500 mil; em euros, por arredondamento, fala-se em ~600 mil).
- O debate real: não é apenas tecido — é a fronteira entre acomodação e neutralidade, e o precedente para o futuro do uniforme.
O Hijab Magnético e a Caixa de Pandora: quando o uniforme deixa de ser uniforme
1) O argumento "sensato": segurança no terreno
À superfície, a coisa parece lógica. Se uma agente usa headwear, esse headwear não deve ser um laço pronto a ser puxado num confronto. A solução apresentada — um sistema magnético de libertação rápida — tenta resolver um problema objectivo: reduzir risco de estrangulamento e de incapacitação por "puxão" do tecido. E, num mundo onde a violência de rua não pede licença, a engenharia da segurança tem sempre um apelo instintivo: "isto evita lesões".
A própria documentação pública do sector policial no Reino Unido já inclui, há anos, a ideia de "quick-release" em headwear alternativo por motivos religiosos, precisamente por razões de risco e avaliação operacional. Ou seja: o princípio de "poder usar" condicionado à segurança não nasce hoje — só ganhou agora um objecto mediático e um nome que cola: "hijab magnético". 0
2) O problema "grave": neutralidade do Estado e custo para o contribuinte
O meu ponto, é o nó que não se desfaz com ímanes: o uniforme é o símbolo do Estado. E o Estado — num país liberal e plural — deve ser, no espaço do poder coercivo (polícia, tribunais, forças armadas), visivelmente neutro em matéria de fé, de ideologia e de pertença.
E é aqui que a conversa deixa de ser "tecido seguro" e passa a ser "critério público". Porque se o Estado abre a porta a símbolos identitários no uniforme, o que impede o desfile inevitável?Hoje é o hijab com libertação rápida. Amanhã é o crucifixo, a cruz de Cristo, o emblema de uma causa, o símbolo de um clube, a fita de uma campanha, a bandeira de uma militância. E o argumento de igualdade surge como um boomerang: se aceitas um, por que razão rejeitas o outro?
"No Abraão paramos onde?" — pois. Se a regra passa a ser "cada um traz ao uniforme o seu altar", o Estado deixa de falar com uma só voz. E a polícia, que devia ser claramente percebida como força comum a todos, começa a ser lida como um mosaico de pertenças — e num tempo de polarização isso é gasolina, não é água.
E depois há o tema que irrita legitimamente qualquer contribuinte: os custos. A parceria académica-industrial pode ser virtuosa, sim. Mas quando a esfera pública financia desenvolvimento específico de adereços identitários — mesmo sob a bandeira da segurança — cresce a percepção de que o Estado está a patrocinar a diferença em vez de patrocinar o que é comum. Foi isso que, segundo vários relatos mediáticos, tornou o assunto inflamável: a ideia de centenas de milhares de libras para um item desta natureza. 1
3) "O que é então o símbolo hijab?"
A pergunta é directa e deve ser tratada sem neblina: o hijab é um símbolo religioso — não é apenas um cachecol funcional. Pode ser vivido por quem o usa como devoção, como identidade, como tradição, como modéstia, como pertença comunitária; mas, no espaço público, o seu significado é reconhecível: remete para uma fé e para uma norma religiosa. E isso, quando entra no uniforme policial, deixa de ser "uma escolha privada" e passa a ser "um sinal visível no corpo do Estado".
Se o Estado é laico, a fronteira saudável costuma ser esta: o cidadão pode exprimir — e deve poder; o Estado, quando exerce autoridade coerciva, deve conter-se — para ser de todos. Caso contrário, o Estado perde a sua máscara de neutralidade e ganha uma face com etiqueta.
4) Há uma saída civilizada (sem histeria e sem rendição)
O dilema não precisa de ser "proibir tudo" ou "abrir a feira". Há um meio-termo rigoroso, típico de sociedades maduras:
- Regra-mãe: o uniforme é uniforme — aparência comum, neutralidade visível.
- Excepções raras e justificadas: apenas quando exista motivo operacional/segurança e não exista alternativa equivalente.
- Critério universal: qualquer excepção deve ser tratada por uma matriz única (risco, função, custo, impacto na percepção pública), não por simpatias culturais.
- Sem subsidiação simbólica: se houver alternativa técnica neutra para todos (ex.: capuz/forro operacional padrão com quick-release), prefere-se a solução comum.
- Transparência: custos, testes, auditorias e motivos devem ser públicos — para não se transformar em folclore pago a ouro.
Porque, no fim, o que está em jogo não é a dignidade de uma agente — essa é inegociável. O que está em jogo é a dignidade do próprio Estado: ser de todos sem pertencer a um altar.
Epílogo: o íman não puxa só tecido — puxa o futuro
O detalhe técnico (libertação magnética) é interessante. Mas a pergunta que fica é outra: quando a autoridade se fragmenta em sinais, quem fica inteiro? Um dia, talvez, a civilização ocidental não caia por uma guerra — mas por mil pequenas concessões incoerentes, cada uma "razoável", até ao momento em que já não há regra comum para defender.
Co-autoria editorial: Augustus Veritas