O fenómeno da imigração e a sua integração na sociedade : Pontes e não muros

- Integração não é apagar identidades: é partilhar regras, língua, civismo e pertença.
- Guetos nascem quando o Estado abandona, quando os discursos inflamam, e quando as comunidades se fecham por medo ou conveniência.
- O histerismo político é um fósforo: acende suspeitas, vende "ordem" barata e compra votos caros.
- A responsabilidade é de todos: governos (regras e meios), comunidades (ponte e abertura), sociedade (justiça e exigência sem ódio).
Guetos: Quando a Casa Não É Habitada — É Apenas Ocupada
Há um equívoco que se espalha como nevoeiro quando a política entra em histeria: confunde-se integração com rendição, diferença com ameaça, festa com afronta, ruído com guerra. E depois, no meio desse nevoeiro, cada um passa a ver o outro como caricatura — e as caricaturas, como se sabe, não conversam; atiram pedras.
O problema não é alguém celebrar, rezar, cozinhar, cantar ou recordar o lugar de onde veio. Isso é humano. O problema começa quando a vida se organiza como se o país onde se vive fosse apenas um cenário alugado — uma estação de passagem onde se ganha dinheiro, se fecha a porta por dentro, e se mantém o coração e a cabeça noutro continente. Aí, em vez de casa, temos "ocupação"; em vez de pertença, temos "presença"; em vez de comunidade, temos "ilha".
A festa como sintoma, não como crime
Perante um clima político nervoso, acusatório, por vezes histérico, convém que a lucidez e uma linha de raciocínio se apresente como guia : quando o ambiente público se torna agressivo, as comunidades tendem a recolher-se. E quando se recolhem, parecem mais estranhas. E quanto mais estranhas parecem, mais agressivo fica o ambiente. O ciclo fecha-se como uma armadilha com sorriso.
Não é "culpa" de um lado só. É um encadeamento. Mas há um ponto onde a responsabilidade deve ser chamada pelo nome: quem lidera — seja no Estado, seja dentro das comunidades — tem o dever de abrir portas, não de reforçar fechaduras.
O dever dos líderes comunitários: pontes, não fortalezas
Se uma comunidade chega e se organiza apenas para sobreviver entre iguais, cria inevitavelmente um "micro-país" dentro do país. Isso pode começar por conforto, acabar por isolamento. E o isolamento, como a ferrugem, come devagar e sem barulho: primeiro isola-se a língua, depois a escola, depois os empregos, depois a vizinhança, e por fim a confiança.
A liderança comunitária séria — a que não vive de slogans nem de vitimismos automáticos — deveria pôr na mesa, com clareza, um pacto simples: aprender português, respeitar regras comuns, participar na vida cívica local, misturar crianças na escola, abrir negócios voltados para todos, não apenas para "os nossos". A integração não se decreta: pratica-se, todos os dias, nos detalhes.
O dever do Estado: regras claras e meios reais
E depois temos o grande incendiário de gravata: um Estado que, com estes nossos políticos, muitas vezes parece existir para lançar gasolina em cima do fogo. Abre portas sem preparar escolas, fecha olhos a abusos, empurra pessoas para precariedade, e quando o conflito ameaça, aparece com discursos musculados — como quem apaga incêndios com megafone.
Não há integração sem contexto. Contexto significa: serviços públicos capazes, políticas de habitação que não criem concentração de miséria, fiscalização do trabalho para evitar exploração, e um caminho de integração com direitos e deveres — explícitos, mensuráveis, acompanhados. O resto é teatro. E no teatro, como sabemos, há sempre um vilão pronto a ser vendido ao público.
O gueto como resultado: quando ninguém puxa pelo comum
Se as comunidades não caminham com nitidez para a integração, e se o Estado não cria condições e regras justas, o desfecho é previsível: guetos tornam-se regra. Não por genética, não por "destino cultural", mas por abandono, por medo, por oportunismo político e por falta de pontes.
E depois, quando a tensão rebenta, todos fingem surpresa: uns dizem "sempre vos dissemos"; outros dizem "nunca nos deixaram"; e os donos disto tudo — esses — fazem a conta aos votos como quem conta moedas numa gaveta secreta.
Aviso à navegação dos donos disto tudo
Aos que governam por reflexo, aos que lucram com a confusão, aos que trocam planeamento por propaganda: cuidado. A integração não falha de repente; apodrece. E quando apodrece, o cheiro chega às ruas antes de chegar aos gabinetes. Se insistirem em transformar pessoas em combustível eleitoral, terão o incêndio que merecem — e nós, o fumo que não pedimos.
Portugal não precisa de culpados em série; precisa de um contrato social com coluna vertebral. Comunidades com abertura e responsabilidade. Estado com regras, meios e seriedade. Sociedade com exigência e justiça — sem ódio, sem paternalismos, sem a cobardia cómoda de deixar tudo para "amanhã".
Porque amanhã, quando os guetos forem mapa, já não adianta discutir se a festa era celebração ou indignação. A festa terá acabado. E sobrará apenas a música triste do que não quisemos construir em comum.
Crónica cívica — com a teimosia de quem ainda prefere pontes a muros.
Co-autoria editorial: Augustus Veritas