BOX DE FACTOS
  • Num regime democrático saudável, o jornalismo é o quarto poder e não o quarto braço do Governo.
  • Em Portugal, grande parte da comunicação social depende financeiramente do Estado e de grandes grupos económicos.
  • O jornalista deveria ter amor à verdade, não ao conforto de estar ao lado do poder.
  • A autocensura e o medo de perder privilégios substituíram a coragem de investigar.
  • Sem jornalismo intrépido, a democracia transforma-se num teatro bem iluminado sobre um palco podre.

O dia em que o jornalismo português trocou a verdade pelo conforto

Em teoria, um jornalista tem amor à verdade. Em Portugal, muitos têm apenas amor ao salário, ao painel televisivo, ao convite do ministro. Quando o medo de perder conforto é maior do que o medo de perder a verdade, a democracia entra em coma.

Jornalistas ou mordomos do regime?

A figura ideal do jornalista é quase épica: alguém que enfrenta poderes, desenterra segredos, suporta pressões e escolhe, repetidamente, ficar do lado da verdade, mesmo quando isso dói. Em vez disso, o que vemos demasiadas vezes em Portugal é uma caricatura triste desse ideal: comentadores de microfone em riste, sempre bem comportados, cuidadosamente alinhados com o tom do dia, como mordomos de casaca engomada a servir o banquete do poder.

Não se trata de um erro individual aqui e ali. Trata-se de uma cultura instalada: a cultura de não incomodar demasiado, de não ir longe demais, de não abalar a "estabilidade". O medo não é de ameaças ou censura formal; o medo é bem mais prosaico: perder o lugar no painel de domingo, a coluna bem paga, o convite para a conferência, o sorriso cúmplice do ministro que trata o jornalista pelo primeiro nome.

O amor ao dinheiro e ao conforto

Quando dizemos que muitos jornalistas portugueses têm amor ao dinheiro e ao conforto, não estamos a falar de fortunas obscenas, mas de uma teia de pequenos privilégios: o contrato seguro, a carreira previsível, o estatuto social, o acesso fácil às fontes, a proximidade com quem manda. É um conforto silencioso, feito de cafés marcados, briefings em off e convites para "momentos exclusivos".

O problema é simples e brutal: quem depende emocional e materialmente do poder, raramente tem coragem para o confrontar. A independência não é um slogan de marketing editorial, é uma forma de solidão: a disponibilidade para ficar de fora do círculo, se isso for o preço de dizer aquilo que o círculo não quer ouvir.

A cobardia respeitável

Há uma forma particularmente nociva de cobardia: a cobardia respeitável. Aquela que se veste de seriedade, moderação e equilíbrio, mas que, na prática, consiste em não tocar nas feridas certas, não levantar as perguntas certas, não seguir as pistas que podem fazer cair pessoas importantes.

É a cobardia de quem diz "não temos provas suficientes" quando na verdade não tem é vontade suficiente. A cobardia de quem aceita explicações oficiais como se viessem escritas em pedra sagrada. A cobardia de quem sabe, no fundo, que este sistema é estruturalmente injusto — mas escolhe sobreviver dentro dele em vez de o expor.

Da investigação à repetição: o jornalismo domesticado

Em vez de jornalismo de investigação, temos muitas vezes jornalismo de repetição: repete-se o comunicado, repete-se o discurso, repete-se a narrativa oficial, com uma ou outra pergunta ritual para compor o cenário. A notícia já chega escrita pelos gabinetes de comunicação; a redacção limita-se a ajeitar o título, a organizar a peça e a carregar no botão "publicar".

A imprensa que outrora enfrentou censura, tribunais plenários e risco real, hoje encolhe os ombros perante a possibilidade de desagradar ao ministro, ao administrador, ao patrocinador. É uma queda moral difícil de descrever sem revolta: trocámos o perigo da censura pela comodidade da submissão voluntária.

Democracia sem jornalismo corajoso é teatro

Uma democracia pode sobreviver a maus governos. O que não pode é sobreviver a uma informação domesticada. Sem jornalistas dispostos a arriscar, o Parlamento transforma-se em palco, o Governo em companhia de teatro, e os cidadãos em plateia cansada, a assistir sempre à mesma peça.

Quando o jornalismo renuncia à coragem, os corruptos sentem-se seguros, os incompetentes sentem-se protegidos e os mediocres sentem-se legítimos. A República, essa, vai murchando em câmara lenta.

O que seria um jornalismo à altura do país?

Um jornalismo à altura do país não teria medo de perder privilégios. Teria medo, isso sim, de perder a confiança do povo. Seria um jornalismo que não pede licença ao poder para fazer perguntas, que não aceita "off the record" como moeda de silêncio, que não se deixa domesticar por subsídios, pressões subtis ou promessas de carreira.

Seria um jornalismo capaz de olhar para PS, PSD e restante corte institucional e dizer, sem tremer: vocês não são donos disto. O dono de uma democracia é o cidadão. E o dever primeiro de quem escreve, de quem fala, de quem investiga, é para com ele — não para com o chefe de redacção, o administrador ou o ministro bem disposto.

Chamar a isto cobardia não é insulto gratuito: é diagnóstico. Um país onde a maioria dos jornalistas prefere o conforto à verdade é um país que corre o risco de se habituar à mentira elegante. E a mentira elegante é muito mais perigosa do que a mentira grosseira:nporque vem bem vestida, com bons modos, e pede-nos apenas uma coisa em troca - que deixemos de fazer perguntas.

Enquanto houver cidadãos que recusam esse pacto de silêncio, ainda há esperança. Mas um dia, se a verdade deixar de ter quem a escreva, a democracia deixará de ter quem a defenda. E então, sim, perceberemos demasiado tarde que vender a alma por um lugar confortável no estúdio foi o negócio mais miserável da história do jornalismo português.

Francisco Gonçalves & Augustus Veritas Lumen
Série "Contra o Teatro da Mediocridade" — Fragmentos do Caos.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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