O Catecismo das Avenças: desmontagem de um sistema político que se governa a si próprio

- Mantra oficial: "Se apertarmos os ricos, fogem com os capitais."
- Resultado prático: o povo é treinado para ter medo — medo de exigir, medo de perguntar, medo de pensar.
- Truque de ilusionismo: vender a Noruega, a Suécia e a Finlândia como "miragens" para manter Portugal na resignação.
- Motor do sistema: governação por avenças, favores, portas giratórias e uma moral de aluguer.
- Preço colectivo: serviços públicos debilitados, desigualdade crónica, e a democracia reduzida a palco.
O Catecismo das Avenças
Há países onde a política tem o incómodo hábito de servir a comunidade. E há países onde a política tem o confortável hábito de servir-se da comunidade. Em Portugal, a segunda hipótese foi ganhando estatuto de ciência exacta: uma aritmética de avenças, um cálculo de influências, uma engenharia de desculpas.
O medo como ferramenta de governação
O sistema aperfeiçoou uma pedagogia cruel: convencer os cidadãos pobres — e sobretudo os cidadãos exaustos — de que a sua própria sobrevivência depende da protecção dos ricos e dos poderosos. A chantagem vem embrulhada em linguagem de "responsabilidade": "Se os governos apertarem os ricos, eles fogem com os capitais; não há investimento; a economia cai."
Repare-se no requinte do truque: não é apenas um argumento económico; é um mecanismo de obediência. Ensina-se a população a ter medo de pedir justiça, como se justiça fosse um incêndio que destrói o lar. E assim a democracia passa a ser um condomínio: quem paga quotas altas manda; quem não paga fica a olhar, calado, da varanda.
A Noruega como "miragem" e Portugal como "destino"
É aqui que o catecismo revela a sua parte mais ofensiva: insinuar, com ar doutoral, que países como a Noruega, a Suécia ou a Finlândia são quase ficção — uma espécie de postal turístico da moral. Como se a igualdade fosse um mito nórdico; como se a transparência fosse uma superstição de neve; como se a protecção social fosse um delírio de renas.
O objectivo é simples: tornar o possível impossível. Desligar a imaginação cívica. Dizer ao povo: "Não se comparem. Não exijam. Não sonhem." Porque um povo que sonha começa a medir. E um povo que mede começa a ver. E assim se eliminam o sonhos e o futuro de todo um povo.
O catecismo das avenças: uma Bíblia sem Deus e sem vergonha
Esta canalha política — e uso a palavra como diagnóstico, não como adorno — tem um livro sagrado próprio: não é a Bíblia, é o catecismo das avenças. Nele, cada mandamento é uma desculpa; cada salmo é um "parecer"; cada parábola termina com uma nomeação. E a liturgia é repetida com voz grave, como quem lê o destino ao povo: "Não mexam nos poderosos. Não toquem nos intocáveis."
E enquanto o povo é educado a baixar a cabeça, os corredores do poder fazem o contrário: levantam as mãos — não para trabalhar, mas para assinar, distribuir, negociar, recompensar. A democracia, assim, fica reduzida a uma feira: a vontade popular entra com bilhete barato; a influência entra pela porta do artista.
Desmontagem: o que mantém a máquina a funcionar
A máquina não vive de um único escândalo; vive de um ecossistema. Funciona quando:
- o medo substitui o debate;
- o "investimento" é usado como ameaça e não como responsabilidade;
- a indignação é ridicularizada como "populismo", enquanto o privilégio é tratado como "normalidade";
- a cidadania é reduzida a voto — e o voto reduzido a hábito;
- o povo é empurrado para o cansaço, porque um povo cansado aceita quase tudo, até a sua própria invisibilidade.
Epílogo: quando o povo deixa de acreditar no feitiço
Mas há uma falha nesta arquitectura de cinismo: o feitiço exige fé. E a fé política não é eterna. A certa altura, o cidadão olha para o prato vazio e começa a desconfiar da oração. A certa altura, percebe que a ameaça dos capitais é apenas isso — uma ameaça — e que um país não se constrói com medo, constrói-se com regras iguais, justiça aplicada e dignidade sem licença prévia.
Quando esse dia chega, o catecismo das avenças perde a voz. E o palco treme. Porque a democracia não foi feita para ser um teatro de charlatães: foi feita para ser casa — e numa casa, quem manda não é o mais rico; é a lei.
Fragmentos do Caos — com a colaboração editorial de Augustus Veritas