Natal com Treinador Motivacional: a ‘Mentalidade Ronaldo’ e o País que Fica no Banco

- O mote: substituir o "deixa andar" por uma "mentalidade de Cristiano Ronaldo" — "jogar sempre para ganhar".
- O enredo: "crescimento", "estabilidade" e "agenda transformadora", com promessa de elevar salários e reformar o Estado.
- O cenário: um País descrito como referência internacional; a realidade social aparece em modo rodapé: "não estão esquecidos".
- O subtexto: quando a política veste fato de treino, o discurso vira palestra motivacional — e o povo fica a fazer abdominais na sala.
Natal com Treinador Motivacional: a "Mentalidade Ronaldo" e o País que Fica no Banco
A liturgia do "estamos bem" (e a técnica do "vamos ainda melhor")
A mensagem de Natal do primeiro-ministro apareceu com o brilho polido de um vidro limpo: reflecte tudo, mas não deixa tocar em nada. Houve "crescimento", "estabilidade", "agenda transformadora" — e aquela frase que funciona como incenso institucional: "Portugal é hoje uma referência a nível europeu e mundial."
O problema de um discurso assim não é a esperança. É o uso da esperança como maquilhagem: uma camada generosa, aplicada com pincel largo, para que as olheiras colectivas pareçam "só cansaço de trabalhar para vencer".
Quando a política vira ginásio: "mentalidade Ronaldo"
Em 2025, o Estado descobriu uma nova reforma: reformar-nos a nós. Não com habitação, saúde, salários ou serviços públicos a funcionar como relógio — mas com um "mindset" musculado, peito para a frente e fé em proteína. O apelo é simples :deixar a mentalidade do "deixa andar" e adoptar a do "jogar sempre para ganhar".
É aqui que o humor negro entra sem pedir licença: pedir a um povo cansado que "pense como campeão" pode soar a heroísmo; mas também pode soar a um bilhete de autocarro com destino "Autoajuda", pago com impostos e validado com metáfora futebolística. A política, em vez de resolver o campo, pede-nos para aprender a driblar os buracos.
"Não estão esquecidos": a frase-aspirina
Há um momento humano — e necessário — quando se fala dos que passam o Natal sós, dos idosos em solidão, dos que sofrem violência, doença, pobreza. O primeiro-ministro disse-lhes: "não estão esquecidos".
E eu queria acreditar, com a candura de quem ainda salva ficheiros sem fazer backup. Mas "não estão esquecidos" é, muitas vezes, a frase-aspirina: alivia por instantes, não cura a infecção. Porque a grande ausência de muitos discursos não é a compaixão — é a coragem de nomear as falhas, assumir custos, medir prazos e aceitar culpa.
Três anos e meio sem eleições: a tentação do "agora é que vai"
A mensagem traz também um subtexto de calendário: com uma janela política mais estável, a promessa é "elevar a fasquia". O risco é antigo: estabilidade sem execução transforma-se em conforto; conforto vira costume; e o costume é o avô do "deixa andar" — precisamente aquilo que se jurou combater.
E aqui está o paradoxo natalício: pede-se ao cidadão que abandone a preguiça histórica, enquanto o Estado mantém as suas rotinas lentas, os seus labirintos administrativos e a sua vocação para "estudos", "grupos de trabalho" e "linhas estratégicas" que morrem de velhice antes de nascerem.
A oposição chamou-lhe autoajuda. Eu chamo-lhe… país em modo cartaz
Houve quem dissesse que o primeiro-ministro "decidiu ser mentor de autoajuda". Outros falaram num "país das maravilhas". E, com o devido respeito, percebo: quando o discurso pinta o País com rolo largo e a vida das pessoas é pincel fino, a diferença entre narrativa e realidade torna-se ofensiva.
Porque há portugueses que não precisam de metáforas; precisam de consultas, casas, transportes, justiça e salários que não sejam poesia triste. E quando lhes dizem "joguem para ganhar", muitos respondem em silêncio: "Nós já estamos a jogar. O problema é que o árbitro, o relvado e as balizas também pertencem a alguém."
Epílogo: o Natal não pede campeões — pede Estado adulto
A metáfora de Cristiano Ronaldo é sedutora: dá energia, dá orgulho, dá "som de vitória". Mas um país não é um highlight reel. Um país é o que acontece quando a câmara está desligada: quando se espera, quando se falha, quando se paga, quando se desiste.
Se o Governo quer mesmo "jogar para ganhar", que comece por tirar o povo do banco: menos mantra, mais medidas; menos slogan, mais execução; menos "não deixem para amanhã", mais "o Estado fez hoje". E então, talvez, um dia, a esperança deixe de ser propaganda e volte a ser aquilo que devia: um facto.