BOX DE FACTOS
  • O enredo: no topo do Estado, um discurso de "mérito" e "gestão"; cá em baixo, um país que conta cêntimos como quem conta batimentos.
  • O gatilho: circulam notícias antigas e recortes que alimentam suspeitas sobre "negócios" e política — e a percepção pública raramente pede recibo com selo de verdade.
  • A metáfora: em vez de redes de protecção, dá-se ao povo um tutorial de "fintas" — como se a pobreza fosse um problema de técnica de pé e não de arquitectura social.
  • O ponto: quando a política vira bancada, o país vira bancada também: senta-se, observa, e aprende a perder com elegância.

Montenegro e a Pedagogia do Calcanhar: quando o País joga descalço e a bancada dá lições

Há governantes que prometem futuro. Outros prometem "técnica". E, no fim, pedem ao povo que marque golos com a bola furada — mas com espírito de campeão.

O país é um estádio antigo. As bancadas têm fissuras, a relva tem buracos, e há sempre um vento frio a atravessar as cadeiras vazias — esse vento chama-se conta ao fim do mês. Mas há dias em que o microfone liga, e o homem do leme aparece não como timoneiro, mas como treinador-adjunto do imaginário nacional.

É então que Portugal, esse atleta cansado de maratonas sem medalha, ouve a nova doutrina: "Joguem como o Ronaldo." E a frase cai no chão com a leveza de uma pena… e o peso de uma factura. Porque há uma diferença entre inspirar e substituir política por motivação.

1) O discurso do mérito: o hino que se canta quando falta pão

A retórica do mérito é bonita como uma camisola nova: brilha bem, especialmente nas fotografias. O problema é que, num país onde a escada social tem degraus partidos, o mérito transforma-se num concurso de saltos… para quem já nasce com molas. E quando alguém pergunta pela justiça do jogo, a resposta vem com um sorriso técnico: "treinem mais."

2) A bancada e o leme: governar por metáforas

O homem do leme deveria olhar o mar e ler as correntes: salários, habitação, saúde, educação, produtividade, dignidade. Mas há um vício moderno — governar por metáforas. Onde devia haver instrumentos, há slogans. Onde devia haver reformas, há treinos de espírito. E assim se faz um país: não com políticas que mexem na estrutura, mas com frases que mexem no peito — durante cinco minutos.

3) A técnica Ronaldo: o calcanhar como programa de governo

Há qualquer coisa de quase poético — e cruel — em pedir a um povo exausto que aprenda a "finta". Como se a pobreza fosse um defesa a quem se passa a perna. Como se o problema fosse drible e não desigualdade. Como se a solução fosse um túnel bonito e não um sistema que deixa milhões a jogar com as meias rotas.

E depois há a ironia maior: quando o povo tenta imitar o Ronaldo, descobre que lhe falta o essencial —tempo para treinar, segurança para falhar, futuro para insistir. O resto é teatro: o palco é brilhante, mas a plateia tem fome.

4) O país pobre: a baliza sem redes e o árbitro com olhos vendados

Num país pobre, o que mata não é só a falta: é a repetição da falta. É acordar e saber que o jogo está marcado, mas a tua equipa entra sempre com menos um. E quando gritas "falta!", o árbitro faz de conta que não viu — porque, em Portugal, às vezes o apito é selectivo como uma porta giratória.

Por isso, quando o leme vira bancada e a bancada vira palestra, o povo percebe a mensagem escondida: "não vos prometo relva; prometo-vos fé." E fé sem pão é um milagre que nunca chega ao intervalo.

Epílogo: o país não precisa de fintas — precisa de chão

O futuro não se constrói com tutoriais de celebridade. Constrói-se com salários que não envergonham, com casas que não expulsam, com justiça que não distingue bolsos, com escolas que não desistam dos miúdos, com um Estado que seja leal ao povo — e não um relvado VIP para quem já tem camarote.

O resto… o resto é isto: um país inteiro a tentar marcar de calcanhar, enquanto o resultado no placard continua o mesmo. E o treinador, lá em cima, a apontar para a táctica como quem aponta para as nuvens: "está ali a solução."

Fragmentos do Caos — crónica satírica e lírica.
Texto: Augustus Veritas (com Francisco Gonçalves) — co-autoria e indignação com luz acesa.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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