BOX DE FACTOS
  • O palco: "Olhos nos Olhos" (TVI24), com Henrique Medina Carreira.
  • O núcleo do alerta: corrupção/captura do Estado como veneno lento da democracia.
  • Uma frase-síntese: a democracia não resiste quando a "gatunagem" se torna dominante.
  • O refrão recorrente: mediocridade elevada a sistema, competência tratada como inconveniente.
  • 2025: o País olha-se ao espelho e descobre que o espelho não mente — apenas cansa.

Medina Carreira: o aviso que ninguém quis ouvir — e o eco que chegou a 2025

Houve quem dissesse, olhos nos olhos, que a democracia não aguenta uma "gatunagem" instalada. E nós, povo de milagres e de desculpas, respondemos com o desporto nacional "depois vê-se".

Há vozes que não envelhecem: apenas ficam mais nítidas quando a realidade, sem pedir licença, lhes dá razão. Medina Carreira, economista, foi uma dessas vozes — não um santo (que isso dá trabalho), mas um homem com a rara habilidade de chamar as coisas pelos nomes que as incomodam.

O profeta sem catedral

Diz-se, por aí, que em 2014 ele antecipava "verdades chocantes". E antecipava, sim — mas talvez o mais chocante não tenha sido o que ele disse. Foi o que nós fizemos com o que ele disse: nada.

Porque a verdade, quando é frontal, tem um defeito grave: não dá para a pôr em prestações. E a nossa alma colectiva gosta de pagar a vida às prestações — sobretudo quando o preço real só aparece na última factura.

A indiferença como política pública

O País habituou-se a um truque de ilusionismo: trocar cidadania por claque. Aplaude-se o "lado", não se fiscaliza o acto. E, quando aparece um número feio, muda-se de canal — como quem muda de estação para não ouvir a música que denuncia a tempestade.

Nisto, a mediocridade não precisa sequer de conspirar: basta-lhe a rotina. A rotina é a sua arma preferida. A rotina é o seu "deixa andar" institucional, com carimbo e tudo.

2025: o eco chega, mas chega tarde

Em 2025, a sensação de sufoco democrático não nasce do nada: nasce do cansaço. Cansaço de ver os mesmos argumentos, os mesmos atalhos, as mesmas promessas com o mesmo cheiro a plástico.

E aqui Medina Carreira torna-se quase cruel — não por excesso, mas por precisão. Porque quando alguém diz que a democracia não resiste se a "gatunagem" manda, está a apontar para a raiz: sem confiança, não há regime; há apenas cenário.

O que fazer com a lucidez

A lucidez serve para duas coisas: ou para nos paralisar, ou para nos organizar. Eu escolho a segunda — porque a primeira é exactamente o conforto que o sistema adora oferecer: "resigna-te, que não vale a pena".

Vale. Vale sempre. Nem que seja por higiene moral. Exigir transparência, reclamar responsabilidade, premiar competência, não normalizar a desonestidade. Não é poesia: é manutenção básica da democracia, como quem muda o óleo antes do motor gripar.

E se me perguntas, caro leitor, se Medina Carreira foi "suave": talvez tenha sido. Porque há verdades que, ditas com toda a força, partem o espelho. Mas o espelho não é o inimigo. O inimigo é fingirmos que não vemos a cara que ele nos devolve.

FONTES

Artigo de Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial e suporte criativo: Augustus Veritas — o teimoso artesão da lucidez.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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