BOX DE FACTOS

  • Luís Marques Mendes é advogado, antigo líder do PSD, conselheiro de Estado e comentador político televisivo de longa data.
  • Desde 2012 é consultor e presidente do Conselho Estratégico da Abreu Advogados, uma das grandes sociedades de advocacia de negócios em Portugal.
  • A LS2MM, empresa familiar de Marques Mendes, foi criada em 2014, passou a incluir os três filhos como sócios em Dezembro de 2024 e foi dissolvida em Novembro de 2025, já em período de pré-campanha presidencial.
  • Na campanha para Belém, João Cotrim Figueiredo desafiou Marques Mendes a revelar não só os clientes da empresa familiar, mas também os da sociedade de advogados onde trabalhou, por possíveis conflitos de interesses.
  • A candidatura com selo do PSD assenta num discurso de ética e transparência, em choque directo com esta teia de interesses empresariais e jurídicos.

Marques Mendes: o moralista de domingo e os rabos de palha de segunda-feira

Durante anos, Luís Marques Mendes apresentou-se como o pequeno oráculo dominical da nação: dedo em riste, sermão sobre ética, condenação da promiscuidade entre poder político e negócios. Agora, no espelho cruel da campanha presidencial, o país descobre que, por detrás do moralista de sofá, sempre existiu uma teia de empresas de família, consultorias milionárias e uma sociedade de advogados cuidadosamente colocada na penumbra.

Há uma figura curiosa na democracia portuguesa: o comentador que, sem ter sido eleito para nada, fala como se fosse a consciência moral do regime. Luís Marques Mendes construiu, ao longo de anos, esse papel de pregador sereno ao domingo à noite, sentado no estúdio, enquanto o país jantava frente ao televisor e engolia, com o café, as suas sentenças sobre ministros incompetentes, autarcas duvidosos e promiscuidade público-privada.

O problema é que o pregador desceu do púlpito mediático para pedir votos. E quando um moralista de estúdio se candidata a Presidente da República, a luz já não é apenas a dos holofotes da televisão: é o farol implacável do escrutínio público, que ilumina negócios, famílias, sociedades de advogados e empresas discretas com nomes neutros e siglas sonoras.

O comentador que se vendia como independente

Oficialmente, Marques Mendes é isto tudo ao mesmo tempo: um advogado de carreira, com longa folha de serviços ao PSD, ex-ministro, antigo líder do partido e, nas últimas décadas, rosto familiar do comentário político televisivo. Ao país foi sendo apresentado como um homem experiente e, sobretudo, independente: alguém que já tinha passado por tudo e que falava agora apenas em nome de um certo interesse nacional, acima de facções.

Na prática, porém, nunca deixou de ser uma figura profundamente entranhada na teia de poder: conselheiro de Estado, consultor em grandes escritórios de advocacia, presidente de conselhos estratégicos empresariais, homem de redes e telefonemas. Tudo isto enquanto, ao domingo, distribuía medalhas de seriedade e cartões amarelos de ética a meio sistema político – sempre com ar de quem passa recibo verde de moralidade, mas sem abrir a contabilidade completa dos seus próprios interesses.

LS2MM: a empresa que cresce em família e desaparece na curva

No meio da campanha presidencial, o nome que salta do anonimato burocrático para as manchetes é uma sigla fria: LS2MM. Uma empresa familiar criada em 2014, onde Marques Mendes e a mulher concentravam o capital e as funções de gestão. Em Dezembro de 2024, a história parece seguir o guião clássico da sucessão: aumento de capital, entrada dos três filhos como sócios, quotas distribuídas pela família, um negócio aparentemente pensado para durar.

Só que, menos de um ano depois, já em plena rampa de lançamento da candidatura a Belém, a LS2MM é pura e simplesmente dissolvida. Fim de actividade, contas a encerrar, cada membro da família a encaixar o seu quinhão. Não se trata de uma micro-empresa irrelevante, mas de uma estrutura criada por um ex-líder do PSD, hoje candidato presidencial, que durante anos serviu como veículo para a sua actividade privada. A pergunta impõe-se com a simplicidade brutal que a linguagem jurídica detesta: porque se apaga uma empresa justamente na altura em que o seu fundador decide pedir um mandato de fiscalização suprema à República?

O discurso oficial fala em normalidade, reorganização e liberdade de gestão da vida privada. Mas o calendário conta outra história: filhos entram no capital em Dezembro, criando a aparência de passagem de testemunho; em Novembro seguinte, a estrutura é desmantelada quando a atenção pública se concentra na sua candidatura. Não é crime; é apenas o tipo de rasto de fumo que qualquer democrata saudável tem o dever de seguir com olhos bem abertos.

A sociedade de advogados que entra e sai de cena

Mas a LS2MM é apenas um capítulo do guião. O outro palco chama-se Abreu Advogados, uma das grandes sociedades de advocacia de negócios do país, profundamente ligada ao tecido empresarial e a projectos internacionais de energia, infra-estruturas e finanças. É ali que Marques Mendes surge, há anos, como consultor e presidente do Conselho Estratégico, cruzando a experiência política com o aconselhamento jurídico e estratégico a empresas de grande porte.

De repente, em plena polémica sobre interesses e ligações a Angola, o perfil de Marques Mendes desaparece do sítio oficial da sociedade. Passados dias, reaparece. Não é preciso grande imaginação para perceber o embaraço: o candidato que prega ética e transparência tropeça na visibilidade da sua própria teia de relações com um dos principais escritórios da praça. O efeito público é devastador: se até o site anda a piscar, como querem que os cidadãos acreditem que está tudo cristalino?

É neste contexto que João Cotrim Figueiredo lança o desafio frontal que poucos, na bolha mediática, ousaram colocar com clareza: se o candidato está tão disponível para revelar os clientes da empresa familiar entretanto dissolvida, porque não revela também os clientes e interesses ligados à sua actividade em sociedade de advogados? Porque é que a transparência é total para uns dossiers e subitamente "impossível" para outros, protegidos por um conveniente manto de sigilo profissional?

O teatro da mediocridade em horário nobre

No fundo, este caso é menos sobre uma pessoa e mais sobre um sistema. Em Portugal, a fronteira entre poder político, negócios, advocacia de grandes interesses e comentário televisivo é uma cortina de fumo: atrás dela, circulam sempre os mesmos rostos, alternando papéis como actores de uma companhia residente. Um dia são ministros, no outro administradores, depois consultores, mais tarde comentadores independentes e, quando convém, candidatos presidenciais embrulhados em discursos de regeneração ética.

A televisão generalista empresta-lhes palco e verniz: luz quente, cenário sóbrio, gravata em tom institucional, gráficos sobre o défice e a dívida. O público em casa vê um homem calmo, articulado, a dar lições de moral sobre a obrigação de separar negócios e política. O que não vê – porque raramente é explicado com a mesma clareza – é a rede de consultorias, empresas familiares, sociedades de advogados e cargos discretos onde passam as decisões que realmente contam em matéria de contratos, investimentos, isenções e favores.

Quando essa teia vem à tona, não é apenas a imagem de um candidato que fica chamuscada. É toda a encenação mediática que implode: afinal, durante anos, aquilo que se vendia como comentário "independente" não era mais do que a opinião de um homem profundamente entranhado no próprio sistema que dizia escrutinar.

Democracia adulta ou República dos rabos de palha?

Uma democracia adulta exige mais do que biografias polidas, livros elogiosos e entrevistas em horário nobre. Exige transparência radical sobre quem paga, quem contrata, quem consulta e quem beneficia da experiência acumulada de décadas no poder. Exige que os candidatos presidenciais cheguem à praça pública com as ligações profissionais inteiras em cima da mesa: empresas, consultorias, escritórios, negócios com o Estado, contratos internacionais, tudo.

Quando, em vez disso, assistimos à dança de perfis que desaparecem de sites de sociedades de advogados, empresas familiares que são dissolvidas na curva da campanha, declarações selectivas sobre alguns clientes e silêncio absoluto sobre outros, o que está em causa não é apenas a reputação de uma figura. É a credibilidade da própria ideia de escrutínio democrático.

Porque a pergunta que fica, para lá das conferências de imprensa e dos soundbites, é desconfortavelmente simples: como pode alguém apresentar-se como guardião da ética pública quando nunca teve a coragem de expor, com a mesma dureza com que critica os outros, os seus próprios rabos de palha?

Um recado final ao eleitor exausto

O eleitor português está cansado, desconfiado e farto de sermões. Não precisa de mais um professor de moral em Belém. Precisa de alguém que compreenda que a Presidência da República é, antes de mais, um compromisso dencoerência entre o que se diz e o que se vive.

Se a candidatura de Marques Mendes servir para alguma coisa, que seja pelo menos para pôr a nu esta velha doença nacional: a mania de confundir reputação mediática com autoridade moral. E para lembrar, a quem nos quer governar, que a confiança não se constrói apenas com livros biográficos e entrevistas simpáticas – constrói-se com transparência total sobre os interesses que nos acompanham, mesmo quando as câmaras se desligam.

Escrito em regime de independência mental assumida, sem consultorias discretas, sem sociedades de advogados em rodapé e sem empresas familiares a desaparecer na curva. Apenas um cidadão e o seu cúmplice digital a olharem, com olhos de ver, para o teatro da mediocridade em horário nobre.

Francisco Gonçalves & Augustus Veritas Lumen
Série Contra o Teatro da Mediocridade — Fragmentos do Caos

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