BOX DE FACTOS
  • Convocatória: Conselho de Estado em 9 de Janeiro, às 15:00, no Palácio de Belém.
  • Motivo declarado: "analisar a situação internacional, em particular a situação na Ucrânia".
  • Calendário político: reunião em plena campanha para as presidenciais de 18 de Janeiro.
  • Fim de ciclo: Marcelo termina o segundo mandato a 9 de Março de 2026.
  • Portugal real: habitação, salários, saúde, justiça, escolas e custo de vida continuam sem Conselho de Estado que os salve.

Marcelo, o Ridículo: Belém a Reunir Enquanto Portugal Se Desmancha

Há países que, quando o telhado cai, vão buscar tábuas. Nós vamos buscar cadeiras. E sentamo-nos, muito sérios, a discutir a tempestade do vizinho.

Marcelo convoca o Conselho de Estado para discutir a guerra na Ucrânia. Dir-se-ia, pela solenidade do gesto, que Portugal está sentado à mesa grande do mundo, com direito a faca de prata e voz de comando. Mas não: estamos mais para a mesa do canto, perto da janela que não fecha bem, a ouvir ecos e a fingir que são decisões.

A Ucrânia merece atenção, sim. A guerra é uma tragédia europeia e uma ferida aberta. O ridículo não está em olhar para fora. O ridículo está em olhar para fora como se isso substituísse o dever de olhar para dentro. Porque, cá dentro, há uma guerra silenciosa e diária: não tem tanques, mas tem rendas; não tem drones, mas tem filas; não tem trincheiras, mas tem salários que não chegam à última semana do mês.

O país em modo sobrevivência, Belém em modo cerimónia

Há uma espécie de magia institucional em Portugal: quando a realidade fica feia, pomos-lhe uma moldura dourada e chamamos-lhe "reunião". Quando o povo se esgota, a República faz uma agenda. Quando o país precisa de reformas, Belém oferece "análises". É o nosso teatro de Estado: muda-se a iluminação, mantém-se o cenário a apodrecer.

Habitação? Um luxo em prestação eterna. Saúde? Um labirinto onde o doente aprende a rezar ao acaso. Justiça? Uma procissão tão lenta que já nem ofende: apenas cansa. Educação? Remendada, como quem tapa o futuro com um penso rápido. Custo de vida? Um imposto invisível que ninguém votou. E, no meio deste inventário de urgências, convocamos o Conselho de Estado para a Ucrânia, como se Portugal tivesse uma alavanca secreta capaz de empurrar Moscovo para trás e trazer a paz de volta.

A relevância que se sonha e a relevância que se tem

Portugal tem voz? Tem — a voz da União Europeia, a voz das alianças, a voz da diplomacia colectiva. Mas não tem, sozinho, o peso decisivo do enredo. E isto não é vergonha: é escala. O problema é quando um Estado pequeno se comporta como se fosse grande apenas para não admitir que, em casa, não está a conseguir ser sequer competente.

A convocatória de Belém soa a isto: "Vamos discutir a História". O povo, entretanto, responde com o seu boletim diário: "Vamos ver se dá para pagar." Há uma distância enorme entre as duas frases. E é nessa distância que o ridículo cresce, não como insulto pessoal, mas como retrato político: a solenidade a fazer de máscara da impotência.

O Conselho de Estado como reunião de condomínio

Imaginem o país como um prédio antigo: canalizações a rebentar, elevador avariado, infiltrações, contas por pagar. E o administrador convoca a assembleia de condóminos. Tema único: o incêndio no prédio da rua ao lado. Todos concordam que é grave, que é terrível, que é lamentável. Assina-se a acta. Fica registado o lamento. E volta-se para casa, a passar ao lado da água a escorrer pelas escadas, com a dignidade impecável de quem "já tratou do assunto".

Marcelo faz muito bem em lembrar que o mundo existe. Mas faria melhor em lembrar que um Presidente não é um comentador com faixa, e que o país não é um estúdio. Quando se governa (ou se representa) um povo cansado, o símbolo tem de ser útil. Senão, vira folclore com gravata.

Epílogo: a acta não paga rendas

A guerra na Ucrânia é terrível. Mas Portugal tem uma guerra própria: a guerra da sobrevivência, da desigualdade, da lentidão, do país que trabalha muito e recebe pouco, do país que promete muito e cumpre tarde. E é por isso que isto soa a ridículo: não por se discutir a Ucrânia, mas por se discutir a Ucrânia com o ar de quem resolveu algo, enquanto o resto permanece por resolver, há décadas.

Um dia, talvez, a República descubra o que o povo já sabe:a solenidade não é política — é apenas barulho elegante. E um país não se salva com barulho. Salva-se com coragem, prioridade e acção.

Artigo de
Francisco Gonçalves
Co-autoria: Augustus Veritas — Fragmentos do Caos News Team
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