Manual Panglossiano para um País Hipotecado: Como Construir um Futuro Falido com Persistência e Sorriso

- Objectivo nacional: futuro hipotecado, crescimento anémico e povo exausto.
- Método: repetir erros com disciplina, chamar-lhes "reformas", e celebrar "estabilidade".
- Motor ideológico: "sem os ricos o país cai" + "não há alternativa" + "agora não é o momento".
- Patrono espiritual: Pangloss — o optimismo oficial enquanto o telhado arde.
Manual Panglossiano para um País Hipotecado
Há países que constroem futuro como quem constrói pontes: com cálculo, rigor e um respeito quase sagrado pela verdade. E depois há outros — mais artísticos — que constroem ruína como quem faz renda: ponto a ponto, nó a nó, com um talento persistente para transformar o provisório em eterno e a miséria em hábito.
Para esses, deixo aqui um guia prático, em tom de comédia amarga, para garantir um destino limpinho, bem carimbado: falido, pobre e hipotecado. Não é magia. É método. É catecismo. É Pangloss com gravata.
1) Eleja a amnésia como política de Estado
O primeiro passo é simples: não aprender. Quando uma decisão falhar, não a avalie. Rebatize-a. Um desastre chamará "desafio"; uma derrota será "contexto"; uma vergonha, "complexidade". E siga em frente, com a serenidade de quem cai do 3.º andar a dizer: "até aqui, tudo bem".
2) Confunda "governação" com "gestão de avenças"
Um país não se constrói com estratégia: constrói-se com favores. A energia deve ir para a manutenção do ecossistema: cargos, consultorias, comissões, ajustes directos com nome próprio e currículo por amizade. O cidadão? O cidadão é um figurante. Serve para a fotografia e para o imposto.
3) Ensine o povo a ter medo de quem o explora
Aqui entra o grande sermão: "Se tocarmos nos ricos, eles fogem". Repita isto com solenidade religiosa. Faça do poder económico uma espécie de divindade nervosa: ofende-se, vai embora e leva a "confiança" no bolso. Assim, o pobre passa a defender o privilégio como quem defende o telhado do senhorio — mesmo quando está a dormir ao relento.
Quando alguém mencionar Noruega, Suécia, Finlândia, sorria com piedade: "Isso são miragens." Não discuta factos — discuta "realismo". O realismo, neste catecismo, é a arte de aceitar o inaceitável com ar de pessoa adulta.
4) Faça do trabalho um castigo e do mérito uma anedota
Para garantir pobreza persistente, é crucial que trabalhar muito dê pouco. Que estudar dê ansiedade. Que inovar dê burocracia. Que arriscar dê multa. O segredo está em premiar a obediência e punir a competência. Assim, o talento emigra, a coragem desiste, e o país fica com o que sobra: rotina, resignação e uma fila de carimbos.
5) Transforme a justiça num labirinto com saídas VIP
Uma sociedade saudável confia que a lei é uma linha recta. Um país com futuro hipotecado prefere uma lei como corredor de hotel: muitos quartos, muitas chaves, e um elevador exclusivo para quem paga. O cidadão comum fica nas escadas, a suar, enquanto lhe dizem que "é a democracia a funcionar".
6) Substitua a verdade por comunicação
A verdade é perigosa: exige consequência. Por isso, troque-a por narrativa. O importante não é resolver — é anunciar. Não é medir — é prometer. Não é cumprir — é "lançar". Inaugure powerpoints. Corte fitas. Faça eventos. E, se alguém perguntar por resultados, responda com um sorriso Panglossiano: "Estamos no bom caminho."
7) Eleve o "não há alternativa" a hino nacional
Esta é a joia da coroa. Um país falido não se faz apenas com decisões erradas; faz-se com a ideia de que decidir de outra forma é impossível. A impossibilidade, aqui, é um instrumento de governo: serve para domesticar a esperança. E quando a esperança se deita, a mediocridade governa em paz.
Epílogo: Pangloss no púlpito, o país em chamas
No fim, verá como resulta: um povo cansado, uma juventude em fuga, serviços públicos a remendar-se com fios, e um coro oficial a cantar que "isto é o melhor dos mundos possíveis". Pangloss agradece. A canalha aplaude. E o futuro fica ali, empenhado — como um anel de família deixado na casa de penhores, com recibo e sorriso.
Mas há sempre um detalhe que o catecismo não consegue apagar: as pessoas acordam. Às vezes devagar. Às vezes tarde. Mas acordam. E quando acordam, a comédia muda de género.