BOX DE FACTOS
  • A Europa vive uma tensão permanente entre a leitura moral da guerra e a leitura estratégica do mapa.
  • Israel é um actor militar e de inteligência que enfrenta ameaças regionais que também têm impacto indirecto sobre o Ocidente.
  • A crítica europeia ao custo humano da guerra convive com uma dependência tácita da dissuasão israelita.
  • O risco maior para a Europa não é apenas o que acontece fora; é a sua incapacidade de decidir com clareza o que quer ser no mundo.
  • Sem uma política de segurança coerente, a indignação acaba por substituir a estratégia.

Israel e a Europa: A Muralha Que Preferimos Criticar à Distância

A Europa protesta com palavras. Israel sobrevive com aço. E entre as duas coisas mora uma hipocrisia moderna: querer a segurança de um escudo que se condena, sem assumir o preço de ter um escudo próprio.

Há frases que não são estatísticas, são pressentimentos históricos. Quando afirmo que, sem um Israel fortemente armado e de coragem insistente, a Europa já estaria em apuros, estou a apontar para uma ideia que muitos evitam dizer em voz alta: o Médio Oriente não é apenas uma região distante; é uma zona sísmica cuja instabilidade vibra nas paredes do continente europeu.

A Europa gosta de imaginar-se como árbitro moral do mundo, mas não gosta de recordar que a moral sem poder de dissuasão é, muitas vezes, uma vela acesa ao vento. E o vento nesta região não tem sido brando.

O bastião incómodo do flanco sul

Israel ocupa um lugar estratégico que não cabe em slogans. Um Estado pequeno, cercado por ameaças reais, com uma cultura de segurança que nasceu da experiência crua de sobreviver. Para o bem e para o mal, tornou-se um poste avançado de dissuasão num território onde o fanatismo armado e a guerra por procuração são ferramentas correntes de influência.

É legítimo que a Europa critique excessos, exija proporcionalidade, reclame o primado do direito internacional e chore as vítimas civis. Isso é civilização. O problema começa quando essa crítica se transforma num gesto automático, desligado de qualquer visão séria do tabuleiro. Porque a realidade geopolítica não desaparece só porque nos repugna.

A retórica europeia e o conforto da distância

A Europa, em muitos momentos, parece querer o melhor das duas realidades: o conforto moral de condenar e o conforto estratégico de beneficiar da contenção. É uma posição emocionalmente elegante, mas politicamente preguiçosa.

Quando um continente não quer investir plenamente na sua própria segurança, tende a exigir que outros façam o trabalho sujo da história. E depois escandaliza-se com a sujidade inevitável desse trabalho.

Entre a crítica justa e o esquecimento do perigo

Há um erro que se repete no debate público ocidental: confundir fanáticos com povos inteiros, e confundir condenação moral com solução política. A ameaça não é uma fé. A ameaça é uma máquina de radicalização violenta que usa uma fé como bandeira, arma e promessa. Com ódio e objectivo claro de destruir a civilização ocidental, em nome de um deus e de uma crença de violência cruel, para o conseguir.

Israel vive sob essa pressão directa. A Europa vive sob as ondas longas dessa pressão. se o bastião avançado colapsa, o choque não fica confinado ao mapa local. Espalha-se em rotas de instabilidade, de radicalização, de propaganda, e sobretudo de confiança renovada para actores que sonham com a humilhação do Ocidente.

A Europa e o pecado da indecisão estratégica

Talvez o problema maior não seja o que a Europa diz de Israel, mas o que a Europa ainda não consegue dizer de si própria. Quer ser potência moral? Quer ser potência estratégica? Quer ser as duas? Então precisa de assumir que segurança não é um acessório de discurso, é um sistema coerente de escolhas, investimento, inteligência, alianças e limites claros.

Sem isso, o continente oscila entre indignações tónicos e amnésias convenientes. E um mundo duro não respeita oscilações: explora-as.

Epílogo: a muralha e o espelho

Há uma forma adulta de olhar para esta guerra: reconhecer duas verdades ao mesmo tempo. Que o sofrimento civil é intolerável e exige travões. E que a derrocada estratégica de Israel seria um abalo profundo na arquitectura de contenção de um Médio Oriente já super-aquecido.

A Europa pode — e deve — exigir humanidade. Mas também deve exigir a si mesma lucidez. Porque o dia em que deixarmos de ter muralhas externas será o dia em que perceberemos tarde demais que a nossa maior fragilidade não estava nas fronteiras, mas na ilusão confortável de que outros nos protegeriam sempre.

NOTA: Já recentemente a Alemanha fez um contrato com Israel para o fornecimento de um sistema de escudo anti-missil no valor de 4.4 mil milhões de Euros. E outros paises da Europa terão que fazer algo idêntico.

Isto só mostra estrategicamente que Israel pode ajudar a defender a Europa com as sua superiores tecnologias de escudos anti-missil, e assim proteger os céus da Europa, agora completamente desprotegidos.

Francisco Gonçalves
Coautoria editorial: Augustus
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
👁️ Esta página foi visitada ... vezes.