Humanismo Sem Espinha: A Europa, o Terror e o Dever de Defesa

- A Europa proclama princípios universais, mas convive em casa com desigualdade teimosa, justiça lenta e uma percepção pública persistente de corrupção.
- O terrorismo contemporâneo não é um "excesso cultural"; é uma tecnologia política do medo, usada para conquistar poder, território e obediência.
- Regimes autoritários e milícias fundamentalistas dependem da confusão entre fé e arma, povo e facção, civil e combatente.
- Defender civis não equivale a legitimar organizações terroristas; condenar terrorismo não equivale a desumanizar povos inteiros.
- A tolerância democrática deixa de ser virtude quando se transforma em permissão para a violência organizada.
Humanismo Sem Espinha: A Europa, o Terror e o Dever de Defesa
Há um tipo de hipocrisia moderna que não é barulhenta; é confortável. A Europa gosta de se apresentar como farol humanista, árbitro moral e guardiã de uma ética universal. No entanto, muitas vezes falha no básico com os seus próprios povos: tolera pobreza existencial, aceita a lentidão judicial como hábito, e convive com a sensação recorrente de que a justiça tem escadas diferentes para ricos e para pobres.
É por isso que, quando a Europa fala de Gaza, a tentação do riso não vem da indiferença pelo sofrimento civil. Vem da incoerência interna de quem tenta ensinar moral ao mundo sem ter terminado o trabalho de casa.
O erro de confundir humanismo com ingenuidade
Defender civis é obrigação universal. Mas transformar essa obrigação numa inocência estratégica é um luxo que o século XXI já não permite. Existem projectos políticos que educam para o ódio, glorificam a morte, instrumentalizam crianças e reduzem mulheres a propriedade cultural. Há regimes e milícias que não usam a religião como fé, mas como ferramenta de obediência e motor de guerra.
Ignorar isto em nome da tolerância é trocar a dignidade pela anestesia. E a verdadeira perversão nasce aqui: quando a Europa, temendo parecer "dura", evita nomear o terrorismo como aquilo que é — uma estratégia deliberada para destruir a vida civil e quebrar democracias por dentro.
A armadilha da culpa colectiva
Também aqui há uma linha que não devemos atravessar. As organizações terroristas adoram que o mundo confunda povo com facção. Querem que a população civil seja o seu escudo político e o seu argumento eterno.
Por isso, a resposta lúcida tem de ser dupla: tolerância zero ao terrorismo e proteção máxima dos civis. Não há contradição. Há maturidade moral.
O deserto democrático e o cinismo europeu
No Médio Oriente, a realidade política continua a ser dominada por autoritarismos, teocracias e regimes híbridos onde a dissidência é crime e a liberdade é concessão. A Europa, em vez de reconhecer com franqueza esta paisagem, oscila entre a culpa histórica, a diplomacia de salão e a dependência de interesses estratégicos.
E assim, sem querer, abre espaço ao pior de todos os resultados: os extremistas ganham a narrativa, os moderados perdem a voz, e a democracia fica reduzida a slogan estrangeiro.
Epílogo: tolerância não é cláusula de suicídio
E aqui entra o meu último ponto — e é um fecho que não deve ser dito em surdina. O Ocidente não pode ficar condenado a assistir, de braços cruzados, ao assassínio dos seus cidadãos em atentados terroristas, como se a democracia tivesse sido inventada para a auto-imolação moral.
A tolerância é um valor civilizacional, mas não é uma cláusula de suicídio colectivo. Quando uma ideologia se converte em máquina de homicídio, quando a violência se torna método, quando o terror é celebrado como virtude, não estamos perante uma "diferença cultural" a respeitar. Estamos perante um projecto político de destruição.
A defesa dos nossos povos, das nossas mulheres, dos nossos filhos e do espaço público não é uma falha ética — é um dever ético. Proteger vidas inocentes não é intolerância; é civilização a recusar ser refém.
Uma Europa digna desse nome terá de abandonar o humanismo de vitrina e adoptar um humanismo com espinha: justo por dentro, firme por fora, misericordioso com civis, implacável com máquinas de terror.
Crónica em co-autoria editorial com Augustus Veritas Lumen