BOX DE FACTOS
  • Diagnóstico: quando o poder se torna espectáculo, a política deixa de ser governo e passa a ser circo.
  • Sintoma: um país inteiro a normalizar o impensável — e a chamar-lhe "força", "ordem" ou "patriotismo".
  • Complicação: um Senado que, por cálculo ou medo, trata a consciência como um acessório opcional.
  • Consequência: o mundo sente o impacto em cadeia — na guerra, no clima, no preço do pão e na confiança entre nações.
  • Imagem: um fósforo aceso numa sala cheia de gasolina e aplausos.
Trump explodindo o planeta

O Incêndio Sem Fim

Há um tempo em que a democracia não morre de golpe — morre de riso. E quando já ninguém distingue a verdade do rugido, o planeta inteiro paga a factura, em sangue e em fumo.

I — A doença: quando a normalidade é a febre

Os EUA foram, durante décadas, o grande laboratório do século: inventaram tecnologias, exportaram cultura, projectaram um ideal — por vezes hipócrita, por vezes luminoso, quase sempre poderoso. Mas há doenças que não chegam de fora: crescem por dentro, como humidade nas paredes de uma casa rica que se esqueceu de abrir as janelas.

E então acontece o impensável: o país habitua-se ao excesso, ao insulto, ao golpe verbal quotidiano. A cada dia, um novo "nada" — e esse "nada" torna-se padrão. A democracia, que devia ser bússola, vira meteorologia: "é assim que está o tempo; logo se vê".

II — O louco e o coro: quando o poder precisa de plateia

Há líderes que governam com planos; e há líderes que governam com reacções — como quem atira pedras para ver quem grita. O problema não é só o homem. O problema é o mecanismo que o alimenta: a atenção, o medo, a adoração tribal, a falsa ideia de que a violência verbal é "autenticidade".

E depois há o coro: senadores, comentadores, financiadores, estrategas — profissionais da justificativa. Uns calam-se por conveniência. Outros por cobardia. Alguns por fé cega. E muitos, simplesmente, porque já esqueceram que "representar" não é "obedecer". Num teatro destes, a Constituição vira cenário; a ética, figurino.

III — O planeta a arder: quando a política interna vira catástrofe global

O mundo inteiro já sangra — e não é metáfora simpática. Sangra na instabilidade, nas guerras prolongadas, nos refugiados sem mapa, na fome que regressa com outra máscara, na inflação moral de uma era onde a mentira se tornou moeda.

E arde. Arde porque o clima não negocia com slogans. Arde porque a energia e a indústria, sem travões e sem visão, fazem do futuro um lugar mais estreito. Quando a maior potência troca a prudência por bravatas, o incêndio deixa de ser local: passa a ser atmosférico.

IV — A fé na força: a ilusão que parte as democracias

A democracia é lenta. A força é rápida. A democracia discute. A força manda. E é por isso que, em tempos de medo, há sempre quem troque liberdade por sensação de segurança — como quem troca pão por fotografia do pão.

Só que a factura chega sempre. Primeiro, chega aos mais frágeis. Depois, aos silenciosos. E por fim aos entusiastas, que descobrem tarde que a máquina não distingue aliados de obstáculos. A história não tem pena: tem repetição.

Epílogo — E se o incêndio já vai longe, ainda há água?

O mais trágico não é existirem líderes perigosos. O mais trágico é existirem sociedades que aprendem a amar o perigo, desde que ele venha embrulhado em bandeira. E quando o mundo inteiro olha para Washington como quem olha para um farol, o farol não pode decidir ser fogueira.

Ainda há água, sim — mas não cai do céu por magia. Chama-se cidadania. Chama-se imprensa séria. Chama-se instituições que não tremem. Chama-se coragem de dizer "não" quando a multidão exige "sim". Porque, se a democracia for apenas um ritual de quatro em quatro anos, então não é democracia: é lotaria com propaganda.

Fontes e referências

  • Casa Branca — acções presidenciais (ex.: energia): https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/
  • Senado dos EUA — site oficial: https://www.senate.gov
  • EPA — fontes de emissões de gases com efeito de estufa: https://www.epa.gov/ghgemissions/sources-greenhouse-gas-emissions
  • Our World in Data — emissões CO₂ (EUA): https://ourworldindata.org/co2-and-greenhouse-gas-emissions
  • EDGAR (JRC/UE) — relatório global de emissões: https://edgar.jrc.ec.europa.eu/
Augustus Veritas — para o Fragmentos do Caos
Nota de co-autoria: texto desenvolvido com Francisco Gonçalves, em registo editorial, lírico e crítico.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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