Escutas, Cunhas e Influência: O Teatro Telefónico de António Costa

- Perto de 50 comunicações de António Costa foram intercetadas no âmbito da Operação Influencer, em conversas com várias figuras políticas e empresariais.
- As escutas apanhavam desabafos, cunhas, a gestão do Governo e do PS, revelando um método de governação feito tanto de reuniões formais como de telefonemas estratégicos.
- O ex-presidente do Supremo Tribunal de Justiça alertou para o risco de a justiça passar a escrutinar a acção política pelo detalhe, mas outra decisão do mesmo tribunal validou a manutenção das conversas nos autos.
- Parte das escutas chegou fora de prazo ao Supremo, transformando-as em prova proibida, mas o seu conteúdo continua a pairar sobre o sistema político como raio-X de um regime habituado à impunidade.
- A Operação Influencer envolve mais de duas dezenas de intervenientes e negócios de lítio, hidrogénio "verde" e um data center em Sines — a santíssima trindade da nova economia de influência.
Escutas, Cunhas e Influência: O Teatro Telefónico de António Costa
1. O artista e o fio de cobre
Ainda António Costa, o artista. Não já o primeiro-ministro com maioria absoluta, nem o presidente do Conselho Europeu em tournée pelo continente, mas o protagonista de um registo muito menos solene: o da voz crua captada nas escutas de um processo criminal. É o mesmo homem, mas sem palanque, sem assessores, sem sonoplastia institucional. Só ele, o telefone e o método.
Perto de cinquenta comunicações intercetadas, mais de vinte pessoas apanhadas na rede, e um enredo que mistura governo, partido e negócios como quem mistura café com açúcar: até parece natural, inocente, quotidiano. As escutas não revelam apenas frases; revelam uma cultura política em que o fio de cobre é extensão do gabinete, e o gabinete é extensão do partido.
Durante anos, o país foi sendo embalado pela narrativa das "suspeitas exageradas" e da "perseguição mediática". Hoje, ficamos a saber que, enquanto se invocava dignidade institucional na praça pública, no silêncio do circuito telefónico desenhava-se o mapa real da influência: quem liga a quem, para quê, com que pressa, em que tom, com que favores implícitos.
2. Cunhas à escuta: quando o privado revela o sistema
As notícias são claras: entre as conversas captadas, surgem desabafos, cunhas, comentários sobre a gestão do Governo e do PS. Não é apenas a discussão técnica de um dossiê — é o fluxo desordenado de um poder que se habituou a gerir o Estado como se estivesse sempre entre camaradas, num corredor de partido ou num jantar de militantes.
A "cunha", em Portugal, nunca foi apenas um desvio moral; foi, e continua a ser, um modo de funcionamento. Quando as escutas registam pedidos, recomendações, pressões suaves, avaliações sobre quem deve ser chamado ou afastado, não estamos a ouvir acidentes ocasionais: estamos a escutar o sistema na sua forma mais autêntica.
O que ofende não é apenas o conteúdo de cada frase, mas o seu tom de normalidade. A facilidade com que se fala de nomeações, decisões, pareceres, encontros discretos, como se governar um país fosse um prolongamento de um clube privado, pago, claro, com dinheiro público e legitimado por votos que nunca autorizaram este grau de promiscuidade.
3. Supremo em sobressalto: entre o medo e o dever
Perante este material explosivo, o Supremo Tribunal de Justiça divide-se entre o receio e a obrigação. Um ex-presidente do Supremo vem avisar: cuidado, não podemos transformar a justiça num escrutínio permanente da acção política. Como se o problema fosse o excesso de luz, e não a escuridão que a antecedeu.
Mas outra decisão do mesmo tribunal valida a manutenção das conversas no processo. A mensagem implícita é simples e devastadora: não podemos fingir que isto não aconteceu. Mesmo quando parte dessas escutas é considerada prova proibida, o registo permanece — como uma espécie de memória judicial do modo como o poder realmente funciona.
A velha fronteira entre justiça e política mostra-se frágil e mal desenhada. O medo de judicializar a vida política é legítimo; o medo de deixar a política sem qualquer consequência judicial é suicidário. Portugal, como de costume, tenta equilibrar-se no fio: não quer um "governo de juízes", mas também não sabe como lidar com um governo de artistas habituados à impunidade.
4. O escândalo dentro do escândalo: quando o Ministério Público "esquece" a lei
Como se não bastasse o conteúdo das escutas, há o enredo paralelo: o Ministério Público que, durante anos, não remete parte dessas gravações ao Supremo dentro dos prazos legais. A lei é cristalina: escutas a titulares de cargos políticos de topo têm de ser enviadas ao Supremo em quarenta e oito horas e renovadas de quinze em quinze dias. Não é uma sugestão; é uma obrigação.
Em vez disso, gravações que abrangem o período entre 2020 e 2022 chegam ao Supremo apenas em 2025, numa espécie de correio atrasado da democracia. Demasiado tarde, demasiado fora de prazo, demasiado grave. Resultado: prova proibida, processo comprometido, e a sensação de que também na justiça o amadorismo e a irresponsabilidade ganharam direito de cidade.
É o escândalo dentro do escândalo. De um lado, um poder político que fala como se estivesse imune ao escrutínio; do outro, um Ministério Público que falha nos procedimentos básicos que garantem a validade da prova. No meio, os cidadãos, reduzidos ao papel de plateia obrigada a assistir a este teatro de erros pagos com o seu futuro.
5. Influência, lítio, hidrogénio e a geografia da promiscuidade
A Operação Influencer não nasceu de um capricho: foca-se em quatro dossiês que valem milhares de milhões e redesenham mapas económicos e ambientais do país — concessões de lítio no Norte, um projecto de hidrogénio "verde" em Sines, e um data center também em Sines, agora apresentada como a Meca digital da península. Não estamos a falar de ninharias; estamos a falar de futuro, território e soberania.
Quando se descobrem escutas que envolvem governantes, amigos próximos, intermediários e empresários em redor destes projectos, o problema deixa de ser apenas jurídico: é civilizacional. O que está em causa é saber se a transição energética, a economia digital e as grandes infra-estruturas serão governadas pela lei e pelo interesse público ou pelo circuito privado da influência e da cunha.
O país tinha, aqui, uma oportunidade de ouro para mostrar que aprendera com décadas de escândalos: de Sócrates aos negócios da banca, dos estaleiros aos fundos europeus evaporados. Em vez disso, reencontramos o velho guião: decisões obscuras, bastidores opacos, e uma classe dirigente que trata o Estado como um tabuleiro onde se colocam peças para benefício próprio e do seu círculo.
6. O telefone que desmonta a inocência sistémica
Há quem tente reduzir tudo isto a uma questão técnica: se as escutas são válidas, se podem ser usadas como prova, se o Supremo tem ou não competência. É evidente que a forma interessa — sem respeito pela lei, qualquer Estado de direito colapsa. Mas a substância não desaparece só porque a forma falhou.
O conteúdo das conversas, a leveza com que se fala de negócios, pressões, orientações e arranjos de poder, é um diagnóstico implacável de inocência perdida. A ideia de que a política é um espaço de serviço ao bem comum, administrado com sobriedade e decência, torna-se insustentável quando se ouve, mesmo que por interposto relato, a banda sonora real do regime.
O telefone, essa extensão íntima da vida moderna, transformou-se no espelho que ninguém queria encarar. De repente, aquilo que sempre foi intuído — o "diz-que-disse", o telefonema discreto, o recado em off — ganha forma concreta. Já não é lenda urbana; é registo áudio. E, por mais que a lei impeça o seu uso como prova, não pode impedir que a sociedade tire as suas próprias conclusões.
7. Sem catarse, só resta a repetição
A pergunta essencial não é se António Costa será ou não condenado em tribunal; é o que o país fará com o retrato que estas escutas devolvem. Se a resposta for a de sempre — indignação fugaz, comentários de café, dois dias de manchetes e depois esquecimento — então a Operação Influencer será apenas mais um capítulo do folhetim da impunidade lusitana.
Sem reforma séria de regras de transparência, de registo de contactos, de controlo de conflitos de interesses, de escrutínio independente aos grandes projectos e às portas giratórias, tudo continuará igual: os artistas voltam ao palco, o público volta às bancadas, e o guião repete-se com novos figurantes e os mesmos vícios antigos.
O que as escutas expõem não é um acidente; é um hábito. Não é um deslize moral isolado; é uma cultura política cansada, que se habituou a confundir voto com imunidade e cargo com privilégio pessoal. E enquanto essa cultura não for desmontada, nenhum novo código de conduta, nenhuma comissão de ética, nenhuma declaração de rendimentos terá força bastante para mudar o essencial.
Epílogo: o silêncio depois da gravação
Um dia, as escutas serão arquivadas, os processos passarão para rodapés de relatório, os protagonistas escreverão memórias onde tudo parecerá um enorme mal-entendido. O país, esse, continuará entre salários baixos, serviços públicos degradados e uma democracia que se diz madura mas convive alegremente com a promiscuidade estrutural entre dinheiro e poder.
Quando o último áudio se calar, restará a nossa responsabilidade colectiva: ou transformamos este eco em catarse e exigência, ou aceitamos, resignados, que o futuro continuará a ser decidido ao telefone, entre artistas da influência, juízes hesitantes e cidadãos reduzidos a figurantes.
A escolha, como quase sempre, não está nas escutas. Está em nós.
Assinado por Francisco Gonçalves & Augustus Veritas Lumen, numa crónica escrita ao som distante de escutas que nunca deviam ter existido — não porque revelam demais, mas porque o país merecia governantes que nada temessem ouvir em público.
Co-autoria intelectual no âmbito do projecto editorial Fragmentos do Caos.