Educação para a Confusão: Quando a Escola Brinca com Identidades em Formação

BOX DE FACTOS
- Programas de "educação para a sexualidade e género" ocupam espaço onde antes se ensinava cidadania, direitos e responsabilidades.
- Conceitos complexos de identidade e género são apresentados a idades em que a estrutura emocional ainda está em formação.
- Pais são frequentemente afastados da discussão, tratados como obstáculos e não como parceiros educativos.
- O resultado é uma geração mais confusa, mais frágil e menos preparada para a responsabilidade e a vida em sociedade.
- A crítica não é à existência de educação sexual, mas à sua deriva ideológica e desajustada à maturidade dos jovens.
Educação para a Confusão: Quando a Escola Brinca com Identidades em Formação
Da cidadania à ideologia: a troca silenciosa
Durante décadas falámos da necessidade de educar para a Cidadania: conhecer direitos, mas também deveres; perceber o funcionamento das instituições; compreender o que é a liberdade de expressão e onde termina quando começa a dignidade do outro; aprender que andemocracia não é uma app que se instala, mas um exercício diário de responsabilidade. Tudo isto exigia trabalho sério, continuidade, exigência intelectual e um certo incómodo para quem governa: um povo formado pensa, questiona e recusa ser manobrado.
Aos poucos, porém, assistimos a uma troca quase silenciosa. Em vez de aprofundar cidadania crítica, ética pública, análise de informação, combate à corrupção e consciência social, a escola passou a dedicar uma fatia crescente do tempo lectivo a temas de sexualidade e género apresentados como eixo central da identidade. A questão não é a existência de educação sexual – necessária e saudável – mas a sua hipertrofia ideológica, empurrando para a periferia aquilo que deveria estar no centro: o carácter, a responsabilidade, o pensamento crítico.
Identidades em formação não são cobaias de laboratório
A adolescência sempre foi um território de dúvidas: "Quem sou eu?", "Para onde vou?", "O que quero ser?". O que mudou não foi a dúvida, mas a forma como o mundo adulto se aproveita dela. Em vez de orientar, clarificar e dar tempo para amadurecer, uma parte do sistema educativo decidiu teorizar em cima da fragilidade. Apresentam-se a miúdos de 12, 13 ou 14 anos grelhas conceptuais que nem muitos adultos dominam, com vocabulário técnico-político colado à pressa sobre realidades humanas profundas.
Quando se martela que tudo é fluido, instável, reversível e "em aberto", sem o cuidado de dar âncoras, corre-se o risco de criar não liberdade, mas desorientação estrutural. E a desorientação, sobretudo quando alimentada por redes sociais, algoritmos e pressões de grupo, abre portas a comportamentos extremos, a decisões impulsivas e a sofrimento psicológico silencioso. A identidade não é um brinquedo descartável – é uma construção longa, que exige tempo, silêncio interior, modelos adultos coerentes e espaço para errar sem ser instrumentalizado.
Quando a escola expulsa os pais do diálogo
Uma das perversidades mais discretas deste novo paradigma é a forma como os pais são frequentemente colocados à margem. Sob o pretexto de proteger a "autonomia do jovem", o mundo adulto escolar vai cristalizando a ideia de que a família é um potencial obstáculo, quase um inimigo ideológico. Em vez de parceria, desconfiança; em vez de diálogo, opacidade pedagógica. Fala-se de temas íntimos, estruturantes e delicados, sem informar claramente os pais, sem os envolver na construção do percurso educativo dos filhos.
A escola torna-se, assim, um espaço onde se podem introduzir determinados discursos sem contraditório. E se alguém questiona, é rotulado de retrógrado, reaccionário ou ignorante. Este reducionismo é intelectualmente desonesto: há uma diferença abissal entre defender respeito por todas as pessoas e aceitar, sem debate, que qualquer modelo identitário importado seja imposto como nova ortodoxia pedagógica.
Respeito não é doutrinação, ciência não é slogan
Educar para o respeito significa ensinar que ninguém pode ser humilhado, discriminado ou violentado pela forma como vive o seu corpo, o seu amor ou a sua identidade. Isso é básico, civilizacional e inegociável. Mas uma coisa é o respeito; outra, muito diferente, é transformar teorias sociopolíticas em dogmas escolares, apresentados como "ciência inquestionável" quando, muitas vezes, nem sequer há consenso académico sobre elas.
A verdadeira ciência ensina a perguntar "como sabes?", a exigir evidência, a aceitar a dúvida. O que hoje vemos, demasiadas vezes, é o oposto: slogans, palavras de ordem, manuais apressados, simpósios com linguagem opaca, e um clima em que quem ousa pedir rigor é empurrado para a lista negra dos suspeitos. É o triunfo da militância sobre a razão.
O dano invisível: mentes frágeis, ansiedade à solta
Tudo isto acontece num contexto em que os jovens já enfrentam um cocktail explosivo: hiperconectividade, redes sociais que amplificam inseguranças, comparações constantes, pressão estética, precariedade futura, famílias cansadas, professores exaustos. Em vez de reduzir a carga, a escola acrescenta-lhe mais camadas de incerteza ontológica: "E se não fores quem pensas que és?", "E se a tua identidade tiver de ser redefinida todas as semanas?".
Não espanta que se multipliquem diagnósticos de ansiedade, depressão, sensação de vazio, perda de sentido. O sistema proclama liberdade, mas entrega angústia. Em nome de proteger minorias, o que é justo e necessário, sacrifica-se a serenidade da maioria, atirando todos para uma espécie de nevoeiro permanente. Não é assim que se constrói uma geração sólida; é assim que se fabrica uma sociedade emocionalmente instável, mais fácil de controlar e menos capaz de resistir ao abuso de poder.
O que seria uma verdadeira educação para a cidadania
Uma escola séria voltaria a colocar no centro da sua missão a formação de cidadãos, não de consumidores de rótulos identitários. Falaria, sim, de sexualidade – mas com sobriedade, adequação à idade, envolvimento dos pais e fundamento científico. E usaria o resto do tempo para aquilo que anda perigosamente esquecido:
- Ensinar como funciona o Estado, os impostos, os serviços públicos e o impacto da corrupção na vida real das pessoas.
- Treinar o pensamento crítico, a leitura profunda, a comparação de fontes e a resistência à manipulação mediática.
- Educar para a responsabilidade: cumprir compromissos, respeitar o outro, cuidar do espaço público, participar na comunidade.
- Desenvolver inteligência emocional: gerir frustração, lidar com o conflito, aprender a discordar sem destruir o outro.
- Promover a liberdade interior: a capacidade de pensar por conta própria, sem medo de rótulos e sem submissão a modas ideológicas.
Isto é cidadania. O resto, quando se torna excessivo, é ruído. E por muito bonito que o pintem, ruído continua a ser ruído – sobretudo dentro da cabeça de um adolescente que só queria entender o mundo e acaba soterrado em teorias que nem os adultos dominam.
Epílogo: entre o respeito e a lucidez
Não precisamos de regressar ao passado cinzento, moralista e hipócrita. Mas também não precisamos deste presente histriónico, onde cada sala de aula parece um palco de experimentação ideológica. Há um caminho intermédio: o da lucidez. Respeitar todas as pessoas, proteger as minorias, combater a discriminação – e, ao mesmo tempo, recusar a instrumentalização dos jovens como terreno de prova para agendas que mudam ao ritmo das modas políticas.
Os jovens merecem mais do que slogans. Merecem verdade, serenidade, rigor e adultos que não tenham medo de dizer: "Ainda não tens de decidir tudo agora. Tens tempo. O mais importante, primeiro, é tornares-te um ser humano inteiro, com carácter, empatia e pensamento crítico. O resto virá por acréscimo".
Quando a escola voltar a ser este lugar – de exigência, respeito e humanidade – talvez possamos, finalmente, dizer que estamos a educar para a liberdade, e não para a confusão.
Crónica publicada em Fragmentos do Caos – opinião livre, sem algemas partidárias.
Co-autoria humano + IA, ao serviço da lucidez cidadã.