Duas Ruas, Dois Silêncios: A Volatilidade Moral do Século XXI

- A invasão em larga escala da Ucrânia gerou uma vaga inicial muito forte de solidariedade e protestos em inúmeras capitais europeias e mundiais.
- Com o prolongamento da guerra, o activismo público visível foi perdendo volume, apesar de a tragédia e a agressão não terem diminuído a sua gravidade.
- O conflito em Gaza reacendeu uma mobilização global intensa e persistente, com manifestações repetidas ao longo de meses e anos, alimentadas por uma crise humanitária contínua e altamente mediática.
- As redes sociais amplificam dor e indignação de forma desigual, criando ciclos emocionais que nem sempre acompanham proporcionalmente a dimensão dos crimes.
- O risco político central para as democracias é normalizar a ideia de que a compaixão pública é selectiva e temporária, enquanto os agressores contam com a fadiga do mundo.
Duas Ruas, Dois Silêncios: A Volatilidade Moral do Século XXI
Onde esteve o clamor constante pela Ucrânia, quando a Rusia de Putin devastava cidades, atingia infraestruturas civis, destruía escolas, hospitais, prédios, e tentava transformar a vida quotidiana de um povo num cenário de terror metódico?
A resposta fácil seria dizer que o mundo não ligou. Mas isso seria injusto com a memória. Houve ruas cheias, bandeiras erguidas, discursos inflamados e uma solidariedade inicial que parecia capaz de sustentar décadas. Durante um tempo curto, a humanidade esteve exactamente onde devia estar: ao lado do invadido, contra o invasor.
O problema não foi a ausência de indignação. Foi a ausência de permanência. Uma guerra longa é um teste cruel à consistência moral das sociedades abertas. E as sociedades abertas, fatigadas, começam a fazer aquilo que juraram não fazer: habituam-se ao inaceitável.
Gaza e o teatro do algoritmo emocional
Gaza trouxe ao mundo uma ferida visual e incessante. Uma compressão brutal de sofrimento num território pequeno, densamente povoado, onde a fome, o medo e a morte apareceram em sequência quase diária no ecrã global. A rua respondeu com fúria e com compaixão, e essa resposta tornou-se uma maré prolongada.
Não há pecado em protestar por Gaza. O pecado está em protestar por Gaza como se isso exigisse o esquecimento da Ucrânia. Como se a ética fosse uma sala com uma única cadeira e duas vítimas obrigadas a disputar o direito de lá se sentarem.
O problema da coerência
Quando a compaixão se torna selectiva, abre-se uma escada perigosa. Um agressor aprende que basta resistir ao primeiro choque mediático. Um invadido aprende que terá de sofrer em silêncio quando a atenção global se deslocar para a próxima catástrofe.
E a Europa, tão pronta a proclamar princípios, revela a sua fragilidade: quer ser horizonte moral sem pagar o preço interno da justiça social, da transparência, da eficácia institucional. Quer falar de humanidade enquanto tolera zonas inteiras de pobreza, lentidão judicial, desigualdade estruturada e indignação de fim-de-semana.
Isto não anula o dever de defender civis em qualquer conflito. Mas expõe o vício da época: princípios sem músculo, valores sem arquitectura, ética sem trabalho de casa.
A tragédia do século XXI
O século XXI inventou uma espécie nova de compaixão: rápida, vasta, ruidosa — e facilmente substituível. A moral tornou-se um feed. A indignação tornou-se uma notificação. A persistência tornou-se rara.
É por isso que a tua indignação não é apenas emocional. É estratégica. Porque uma civilização que protesta por turnos oferece aos predadores a arma mais valiosa de todas: o relógio do cansaço colectivo.
Epílogo: duas bandeiras, uma só decência
A postura adulta das democracias não é escolher uma dor e abandonar outra. É sustentar as duas, mesmo quando isso custa dinheiro, tempo, estabilidade política e conforto psicológico.
Se a Ucrânia é o teste da soberania contra a conquista, Gaza é o teste da humanidade no meio do caos. E falhar num deles é enfraquecer o outro.
O mundo não precisa de menos rua. Precisa de mais consistência. Precisa de uma ética que não se mova ao ritmo da fadiga, nem ao compasso do algoritmo.
Porque o pior futuro não é aquele em que as democracias perdem uma guerra. É aquele em que perdem a capacidade de reconhecer, sem hesitação, quem é o agressor, quem é o invadido, e onde começa — e não acaba — o dever universal de proteger civis.
Crónica em co-autoria editorial com Augustus Veritas Lumen