Democracia dos Canalhas: O Negócio da Representação

- Em Portugal, o conflito de interesses é frequentemente tratado como "detalhe técnico", não como ameaça à democracia.
- Há casos noticiados de titulares de cargos públicos com ligações empresariais e relações contratuais com entidades do Estado.
- A ética pública é muitas vezes reduzida a declarações, formulários e formalidades, em vez de escrutínio real.
- Um povo habituado a engolir sapos aprende a chamar "normal" ao que deveria chamar vergonha.
Democracia dos Canalhas: O Negócio da Representação
Há um truque antigo, muito português, tão nacional como a calçada e a desculpa: chama-se transformar o cargo público em cartão de visita. Não é roubo (dizem). Não é crime (garantem). Não é nada (suspiram). É só "vida". É só "mercado". É só "normalidade". E nós, povo de ombros dobrados, fazemos o favor de acreditar. Porque dá menos trabalho do que indignar-se.
A Arte de Servir o Povo... e Facturar o Estado
A cena repete-se com uma elegância de teatro barato: um representante do povo, com a mão no coração e a outra no microfone, jura servir a nação. Depois, com a mesma naturalidade com que se paga um café, abre-se uma empresa, cria-se uma "consultoria", inventa-se uma "prestação de serviços", e eis que o Estado — esse velho cliente fiel — aparece como comprador recorrente.
Não se chamem nomes: isto não é corrupção (apressam-se). É compatibilidade. É gestão de carreira. É empreendedorismo patriótico. Portugal, afinal, não é um país: é um balcão. E o balcão, como toda a gente sabe, dá para os dois lados.
A Justiça, Esse Santo Incenso de Conveniência
O mais extraordinário não é o acto. É a bênção. A serenidade com que se explica ao cidadão que "não há ilícito", como se a lei fosse um desodorizante moral: borrifa-se e fica tudo fresco.
A justiça olha, mede, calcula, carimba — e, quando convém, fecha a janela. Porque há uma diferença subtil entre o que é legal e o que é decente. E Portugal tem-se especializado em viver nessa fenda, onde a decência cai e ninguém se baixa para a apanhar.
O Povo Amestrado e a Coreografia do "Deixa Andar"
Durante séculos, fomos treinados. Não foi por acaso. Foi método. Treinados a baixar a cabeça. Treinados a respeitar o senhor doutor, o senhor engenheiro, o senhor deputado, como se o título fosse vacina contra a vergonha.
E quando a miséria passeia na rua, nós olhamos de lado, ajustamos o casaco e dizemos: "Isto está mau, mas... enfim." Esse "enfim" é a nossa algema mais antiga. Porque o conformismo, em Portugal, não é defeito: é herança cultural e mecanismo de sobrevivência.
E assim, com um povo domesticado pelo medo, pela fadiga e pela crença de que "não vale a pena", estes artistas do poder driblam com a leveza de um anúncio de televisão: driblam a ética, driblam o pudor, driblam a responsabilidade — e, se preciso, driblam até a verdade, com uma metáfora futebolística e um sorriso de vitrina.
Quando Tudo é Permitido, Nada é Sagrado
Se a representação do povo pode coexistir com negócios do Estado, em "muitos milhares por ano" e sem escândalo consequente, então não estamos perante democracia madura. Estamos perante uma democracia de costumes frouxos, onde a moral é uma cortina e a transparência é um candeeiro desligado.
E sim: há um ponto em que isto deixa de ser "apenas política" e começa a ser traição moral. Não porque alguém tenha de ir preso para se reconhecer a podridão, mas porque um mandato não é licença para converter o Estado em carteira, nem a confiança pública em combustível privado.
Epílogo: Um País Não Se Governa Com Bibelots
Um país não se governa com slogans, nem com metáforas de relvado, nem com a liturgia dos "está tudo dentro da lei". Governa-se com limites, com exemplo, com ética exigente e com uma justiça que não confunda formalismo com virtude.
E talvez o primeiro milagre de que Portugal precisa não seja económico, nem tecnológico, nem europeu. Talvez seja apenas este: um povo que, um dia, olhe para o bibelot do conflito de interesses, pegue nele com calma e o atire — sem drama, sem ódio, sem medo — para o caixote do lixo da história.
Co-autoria editorial: Augustus Veritas (AI Assistant