Crónica: O Presépio e o Ídolo — Uma Epifania Política

Meus caros amigos e leitores, Natal é tempo de milagres. E o maior deles, na arte da governação, talvez seja o de transfigurar a ausência em presença, o vazio em plenitude, através do verbo. Este ano, fomos presenteados com uma dessas epifanias verbais, proferida por Luís Montenegro, na sua mensagem de Natal aos portugueses. Uma pérola de retórica que merece ser deslindada à luz da árvore de Natal, entre o cheiro a azevinho e o sabor a bolo-rei.
O tom era solene, o traje impecável, o cenário austero. E eis que, entre votos de paz e prosperidade, surgiu a invocação: um apelo para que fôssemos, coletivamente, como o Ronaldo.
Pare por um momento, caro leitor. Deixe a imagem formar-se. Um país inteiro — das senhoras da limpeza aos cirurgiões, dos pescadores às professoras, dos engenheiros aos agricultores — a transformar-se em onze milhões de Cristianos Ronaldos, cada um a celebrar o seu próprio siuuu perante as dificuldades da vida. O cheiro a linimento e a ambição substituiria o aroma a castanhas assadas. A Taça de Europa erguer-se-ia onde hoje há filas de espera.
Que metáfora sublime! Que audácia homérica! Em vez de prometer hospitais com menos espera, escolas com mais meios, ou transportes que chegassem a horas, ofereceu-nos um arquétipo. Um símbolo. Um avatar da excelência lusa.
É de uma beleza quase litúrgica: perante a complexidade dos problemas terrenos — a saúde que definha, a educação que estagna, o custo de vida que asfixia — a solução não está em políticas públicas, mas em mimetismo desportivo. Não precisamos de mais financiamento para o SNS; precisamos de fazer jogging com determinação. Não carecemos de estratégia para a habitação; carecemos de rematar com força para as redes da vida.
E que fina ironia histórica: num país que elevou a arte da resignação e do desenrascamento a virtude nacional, somos agora convidados a transfigurar-nos no expoente máximo da ambição individual e do sucesso global. Como se a resiliência de um povo que sabe fazer um jeitinho com pouco pudesse ser equiparada à de um multimilionário que treina com equipamentos de milhões.
Montenegro, na sua sabedoria, deve ter pensado: "Para que prometer mundos e fundos, quando se pode prometer uma metáfora?". É mais barato, soa melhor na televisão, e ninguém pode acusá-lo de não cumprir — porque, no fundo, o que é que significa "ser como o Ronaldo"? Significa tudo e nada. É o placebo retórico perfeito.
E no entanto, há algo de genuinamente comovente na imagem. Imaginemos: o ministro das Finanças a celebrar o Orçamento de Estado com um salto e um grito gutural. A ministra da Saúde a marcar um golo de bicicleta contra as listas de espera. O primeiro-ministro a fazer stepovers no corredor do Parlamento, deixando a oposição entortada. É uma visão que, não fosse trágica, seria hilariante.
No presépio tradicional, temos os pastores, os reis magos, o menino, a vaca e o burro. No presépio político moderno, temos o Ídolo. A estrela que guia os reis magos é substituída pelo brilho dos boots dourados. E o milagre que se espera não é a multiplicação dos pães e dos peixes, mas a multiplicação dos golos e dos hat-tricks na economia.
No fim, caro leitor, fico a pensar se não teremos entendido mal a mensagem. Talvez Montenegro não estivesse a falar do Ronaldo que vemos no campo. Talvez estivesse a referir-se ao outro Ronaldo — aquele que, já no fim da carreira, se vê a jogar na Arábia, longe dos holofotes, a enfrentar a inevitabilidade do declínio físico, mas sempre com a pose de quem ainda manda. Nesse caso, a metáfora seria não de ambição, mas de nostalgia. E aí, sim, faria todo o sentido.
Fica, pois, o desafio para o próximo ano: que em vez de nos pedirem para ser como Ronaldo, nos deem condições para ser como nós próprios no nosso melhor — com saúde, educação, dignidade e futuro. Até lá, contentemo-nos com a epifania. E com o bolo-rei.
Um Santo Natal e um ano Novo pleno de cidadania activa, com ou sem celebração.
Francisco Gonçalves in Fragmentos do Caos [ 2025 ]