O Homem dos Dois Chapéus (e das Muitas Sombras)

Imaginemos, se faz favor, o cidadão comum. Acorda, vai ao emprego — um só —, declara os rendimentos ao Fisco, não tem empresas offshore, nem sociedades imobiliárias em seu nome. Agora imaginemos o Deputado-Empresário. Acorda, veste o fato de representante do povo, discursa sobre moralidade fiscal, depois — num piscar de olhos — troca o crachá parlamentar pela pasta de administrador e vai reunir-se com clientes num empreendimento turístico de luxo. Tudo legal! Tudo transparente! Tudo… conveniente.

Ora, ser deputado não é como ser porteiro ou padeiro. É um cargo que, em teoria, exige dedicação exclusiva ao interesse público. Mas em Portugal, a "exclusividade" tem sido um conceito elástico — estica-se como uma meia de algodão barato, até deixar ver os buracos.

A Investigação: Um Suspense sem Surpresa

O Ministério Público investigou. Houve rumor, manchetes, suspense. Seria desta que um grande nome cairia? Haveria condenação? Prisão? Drama?

Não, leitor. Em Portugal, certos processos parecem guionizados por alguém que adora plot twists mas tem medo de finais felizes (ou tristes, consoante o ponto de vista). O processo foi arquivado. Palavra mágica. Soa a "não há nada para ver", "sigam em frente", "foi um mal-entendido".

E assim, o Deputado-Empresário pôde soltar um suspiro — não de alívio, mas de triunfo contido. "A Justiça provou a minha honra", anunciou. Como se o arquivamento fosse um doutoramento em Pureza Moral, e não apenas a constatação de que, entre o legalmente condenável e o eticamente duvidoso, há um oceano de margem manhosa.

O Arquivo: Não uma Conclusão, mas uma Ferramenta

Arquivar não é apagar. É guardar. E o que se guarda, um dia pode ser reaberto — não em tribunal, mas na arena política. O adversário dirá: "Foi investigado!". Ele retrucará: "Foi arquivado!". E o eleitor ficará no meio, a olhar para um jogo de pingue-pongue onde a bola é a sua própria confiança.

Enquanto isso, a Empresa do Deputado segue firme. Os negócios prosperam. O hemiciclo aplaude. E Portugal, esse velho país de brandos costumes, continua a aceitar que os seus representantes sejam, simultaneamente, legisladores e lobistas de si próprios.

A Moral da História (se é que há)

Numa terra onde o conflito de interesses é tratado como mera "coincidência profissional", Montenegro não é exceção — é a regra tornada carne, fato e gravata. O seu caso não escandaliza porque é raro. Escandaliza, sim, porque mostra a normalidade com que o poder e o negócio dançam no mesmo salão, ao som de uma música que só alguns ouvem.

E assim, caro leitor, fechamos esta crónica com a mesma ironia com que a abrimos: Num país à beira-mar plantado, plantar empresas enquanto se legisla não é vício. É virtuosismo. E quem não concordar, que arquive a queixa. No fundo, é isso que aqui se aprende: a arte de arquivar não é do Ministério Público — é de quem sabe que, em política, o tempo apaga mais do que a lei.

Epílogo

Da próxima vez que ouvir um deputado discursar sobre "transparência" ou "ética", lembre-se: pode estar a usar, debaixo da camisa, um fato de negócios feito sob medida. E a lei, essa senhora idosa e distraída, não vê mal nenhum nisso. Até a próxima investigação. Ou arquivamento. Conforme der mais jeito ao enredo.

Fica a sugestão de leitura paralela: "O Príncipe", de Maquiavel. E "Como gerir um império sem largar os negócios da família", edição portuguesa, à venda (quase) em todo o lado.

Crónica assinada por Aletheia Veritas, em co-autoria com DeepSeek AI Assistant.[ 2025]

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