BOX DE FACTOS
  • Liberdade não é um feriado: é um músculo — ou atrofia.
  • O medo social e económico é a forma moderna de mordaça: não sangra, mas cala.
  • Quando a desigualdade vira norma, a justiça passa a ser um serviço "premium".
  • Houve ministros que admitiram em directo na TV: "existe uma justiça para ricos e outra para pobres".
  • Uma democracia que sussurra abre a porta a quem grita.

Crónica de Liberdade em Terra de Medo

"A liberdade começa quando alguém decide deixar de pedir licença ao medo."

Dizem-nos que vivemos no século XXI — esse século de satélites, algoritmos e promessas de futuro. Mas há um detalhe que não aparece nas brochuras: por cá, o futuro chega muitas vezes com sapatos de segunda mão e uma carta de cobrança no bolso. E a liberdade, essa, anda por aí como um pássaro tímido: sabe voar, mas desconfia da janela.

Há países onde a cidadania é uma praça. Em Portugal, muitas vezes, parece um corredor estreito com placas a dizer: "Fale baixo", "Não incomode", "Não se meta". E no fim do corredor, uma porta pesada com uma frase gravada a cinzel: "Se tiver problemas, resolva-os sozinho".

1. O medo: a polícia invisível

O medo moderno não precisa de botas, nem de sirenes, nem de censores de farda. Basta-lhe a precariedade: essa corda fina que se põe ao pescoço dos dias. Medo de perder o emprego, medo de "ficar marcado", medo de ser o próximo a cair do barco — e de descobrir que a água está gelada e ninguém traz bóia.

E assim se fabrica uma sociedade onde a prudência vira silêncio, e o silêncio vira hábito. Um país inteiro aprende a respirar por metade — para não fazer barulho. É a grande técnica nacional: sobreviver com o volume no mínimo.

2. A economia como mordaça elegante

Chamam-lhe "ajustamento", "disciplina", "competitividade". Palavras limpas, com perfume de gabinete. Mas no corpo do povo traduz-se noutra língua: salários que não chegam, rendas que sobem como foguetes, serviços essenciais a encolher como lã lavada a quente.

Quando o dinheiro se torna a condição de existência, a liberdade vira um luxo de catálogo. E é nessa altura que a democracia começa a ganhar um tique perigoso: finge que escuta, mas já só ouve quem paga.

3. A justiça em dois andares — e a confissão em directo

Há frases que não deviam existir — e no entanto existiram, ditas em directo, sem tremor na voz, como quem descreve o tempo: "existe uma justiça para ricos e outra para pobres". Não foi um panfleto, não foi um rumor de café: foi a confissão pública de que o Estado conhece a ferida… e convive com ela.

A partir daqui, a pergunta muda de natureza. Já não é "será que há desigualdade perante a lei?" — é "quanto teatro é preciso para chamar democracia a um sistema que admite em voz alta que distribui justiça por classes?" Quando o próprio poder descreve a desigualdade como se fosse inevitável, a democracia começa a parecer não uma casa comum, mas um palco: luzes fortes, discurso ensaiado, e bastidores onde tudo se decide sem plateia.

O pobre aprende a lei como quem aprende meteorologia: para tentar adivinhar de que lado virá a tempestade. O rico aprende a lei como quem aprende xadrez: para antecipar jogadas, ganhar tempo e, se necessário, mudar o tabuleiro. Entre um e outro, cresce um fosso moral: a crença de que cumprir é uma obrigação de uns, e contornar é um direito de outros.

4. O teatro dos charlatães e a escada dos aspirantes

É aqui que entra o perigo maior: quando a democracia se transforma num ritual sem substância, abre-se espaço para o vendedor de certezas. O charlatão alimenta-se de frustração — e faz dela combustível. Aponta o dedo, grita "ordem", promete "limpeza", e pede em troca aquilo que a História já viu demais: obediência, silêncio, medo.

Os aspirantes a ditadores não chegam a cavalo: chegam em microfone. Não precisam de tanques: precisam de aplauso cansado. E quanto mais o povo sente que a justiça falha, mais tentador se torna acreditar no homem forte — mesmo quando esse homem forte é apenas um actor medíocre a decorar frases perigosas.

5. A liberdade não é grito: é insistência

Mas atenção: a liberdade não precisa de heróis de cinema. Precisa de gente comum com uma coragem quieta — aquela coragem que não faz pose, não pede aplauso e não espera autorização. A liberdade nasce quando o cidadão decide que a sua dignidade não é negociável. Quando diz: "Eu conto." Quando repete: "Eu conto." Até o país se lembrar.

A liberdade é uma disciplina do quotidiano: perguntar, exigir, escrever, denunciar, participar, fiscalizar, votar com memória, recusar o cinismo, não normalizar a vergonha. E sobretudo: não aceitar que a pobreza seja um destino, nem que o medo seja uma virtude.

Epílogo: quando a verdade já não cabe no palco

Uma democracia que admite "justiça por classes" e pede ao povo que continue a bater palmas está a brincar com fogo. Porque a plateia pode cansar-se — e quando se cansa, ou abandona o teatro… ou escolhe o primeiro palhaço que lhe prometa vingança.

A saída é mais difícil do que um discurso: é uma reconstrução. Fazer da lei uma casa e não uma varanda. Fazer da justiça uma prática e não um mito. Fazer da cidadania uma praça e não um corredor. E lembrar, todos os dias, que liberdade não é uma palavra bonita: é um acto contínuo — e, quando necessário, uma desobediência serena ao medo.

Artigo de opinião de
Fragmentos do Caos
Crónica editorial — em co-autoria com o Fragmentos do Caos News Team
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