Quando a Estatística é a Muleta dos Políticos

BOX DE FACTOS
- Portugal atinge mínimos estatísticos de pobreza em 20 anos
- 1,7 milhões de pessoas continuam abaixo do limiar de pobreza
- A melhoria estatística não se traduz em melhoria real de vida
- A média sobe — a dignidade não
Quando a Estatística é a Muleta dos Políticos
Portugal celebra. Ou finge. Os gráficos alinham-se, as percentagens sorriem, os ministros respiram de alívio: atingimos o mínimo de pobreza em 20 anos.
É o momento solene em que a estatística entra em cena como muleta política — elegante, higiénica, inquestionável. Serve para apoiar discursos cansados e caminhar com pose firme sobre um país que manca.
A arte de governar por médias
A média sobe. A consciência desce.
1,7 milhões de pessoas continuam abaixo do limiar — mas o limiar é uma palavra cómoda. Não cheira, não dói, não grita. Não mostra panelas vazias, quartos gelados, trabalhos precários, reformas indecentes.
A estatística faz este milagre perverso: transforma vidas em ruído aceitável. Enquanto o indicador melhora, o sofrimento torna-se estatisticamente irrelevante.
A contabilidade da miséria
Não se governa para eliminar a pobreza — governa-se para a gerir.
Se o número global melhora, pouco importa quem ficou enterrado por baixo. É a contabilidade da miséria: fria, distante, tecnicamente correcta e moralmente falida.
Assim se constrói um país de Excel: onde o sucesso cabe numa folha de cálculo e o fracasso humano fica fora do gráfico.
Quando os números substituem a ética
Quando a estatística substitui a ética, o Estado não cai — manca.
E quando um país se habitua a vê-lo coxear, o problema deixa de ser económico. Passa a ser civilizacional.
Porque um país não é a média dos seus números. É a dignidade mínima dos seus cidadãos.
Crónica cívica — porque números sem humanidade são apenas mentiras bem vestidas.