Como as “Democracias” se Tornam Máquinas de Dependência

- Democracia capturada: o cidadão vota, mas a conta chega sempre ao mesmo sítio.
- Bens essenciais (água, energia, habitação) são usados como corredor estreito com portagens.
- A culpa desce: pede-se contenção ao povo, preserva-se o luxo e a impunidade no topo.
- Crise permanente: a emergência deixa de ser excepção e torna-se rotina útil ao poder.
- Saída real: literacia cívica e mediática, transparência verificável e auditoria pública.
Como as "Democracias" se Tornam Máquinas de Dependência
O espectáculo como substituto do serviço público
Uma democracia saudável vive de instituições discretas e eficazes: planeiam, executam, prestam contas, corrigem. Uma democracia capturada faz o contrário: cria ruído, troca resultados por narrativa, e usa a política como palco. O cidadão deixa de ser sujeito e passa a ser audiência.
Quando o poder aprende que a aparência rende mais do que a obra, a obra fica para amanhã. E o amanhã, em Portugal, costuma ser um país inteiro a pagar juros sobre incompetência.
O corredor estreito dos bens essenciais
Água, electricidade, habitação, saúde, educação: são pilares. Mas um sistema predador não gosta de pilares; prefere portagens. Não é preciso destruir o bem essencial. Basta torná-lo condicionado, caro, burocrático, dependente de taxas, de escalões, de "disponibilidades", de fórmulas que ninguém explica sem bocejar.
Assim nasce a dependência: a vida deixa de ser um direito e passa a ser um favor renovável, sempre com um "alerta" a justificar o próximo aumento.
Quando o planeamento falha, fabrica-se a culpa
Falhou o planeamento? Falhou a fiscalização? Falhou o investimento que devia ter sido feito antes do problema? Isso exigiria responsabilidade, nomes e consequências. Em vez disso, faz-se uma operação mais fácil e mais lucrativa: moraliza-se o cidadão.
"Poupe." "Reduza." "Sacrifique-se." A culpa desce sempre a escada. Raramente sobe à varanda do luxo. O resultado é uma pedagogia do pobre: poupar para poder existir, enquanto a estrutura continua a desperdiçar por defeito.
A crise permanente como método de governo
A crise verdadeira é excepção: mobiliza, corrige, resolve. A crise útil ao poder é permanente: mantém-se. Uma população em sobressalto pensa menos, exige menos, organiza-se menos. Reage.
A emergência, repetida até se tornar rotina, vira receita: cada alerta legitima um pacote, cada escassez justifica uma taxa, cada medo dá cobertura à transferência de custos para quem tem menos margem para os suportar.
A literacia como inimiga mortal do teatro
Um povo esclarecido é perigoso porque é imune ao espectáculo. Não porque grite mais, mas porque mede, compara, verifica, pede provas e identifica contradições. A censura moderna não precisa de proibir: basta cansar, distrair e baralhar.
O ruído é a manta térmica do poder: abafa a realidade e impede a febre de ser diagnosticada.
Epílogo: a dignidade não é um desconto
A saída não é um salvador nem um momento de histeria colectiva. A saída é mais simples e mais difícil: lucidez organizada. Transparência em linguagem humana. Auditoria pública. Metas verificáveis. Responsáveis identificados. Consequências reais.
A dignidade não é um desconto na factura. É a certeza de que os bens essenciais não são instrumentos de controlo, nem moedas de troca para manter um povo dependente.