Co-petion: Como Salvar o Futuro de Um Mundo Governado por Psicopatas Competitivos

BOX DE FACTOS
- Grande parte dos líderes políticos e empresariais mais destrutivos apresenta traços de narcisismo extremo, ausência de empatia e gosto pelo risco — características típicas de perfis psicopáticos.
- A lógica económica dominante assenta na competição predatória: vencer esmagando o outro, mesmo que isso destrua valor colectivo, ambiente e futuro.
- A co-petion (cooperação em contexto competitivo) propõe um modelo alternativo: competir em inovação, mas cooperar em tudo o que é bem comum — clima, paz, direitos humanos, conhecimento científico.
- Num mundo com armas nucleares, inteligência artificial e biotecnologia avançada, entregar o poder a personalidades psicopáticas deixa de ser apenas imoral: é suicidário.
- Testes rigorosos de saúde mental e de empatia para acesso a cargos de alto poder deveriam ser tão óbvios como testes médicos para pilotos de aviões.
Co-petion: Como Salvar o Futuro de Um Mundo Governado por Psicopatas Competitivos
O século XXI ainda governado por cérebros da Idade da Pedra
Vivemos rodeados de tecnologia futurista, mas continuamos politicamente presos à psicologia da caverna. Mísseis hipersónicos, satélites, inteligência artificial, redes globais — tudo isto operado por líderes que funcionam, muitas vezes, com a mesma gramática emocional de tribos rivais à beira do fogo: eu ganho se tu perderes, eu vivo se tu morreres.
Ditadores exibem arsenais, democracias frágeis imitam-lhes a linguagem, empresas gigantes comportam-se como pequenos senhores da guerra económicos, conquistando mercados como quem conquista territórios. A lógica é sempre a mesma: competição até à exaustão, até à ruína, até ao colapso colectivo — e se o planeta arder no processo, paciência, desde que o "nosso lado" ganhe na fotografia final.
A ironia é demolidora: nunca a humanidade teve tanta capacidade de criar prosperidade partilhada e, ainda assim, continua a ser arrastada por minorias com perfis de psicopatia funcional, perfeitamente adaptados ao jogo do poder mas perigosamente desajustados à tarefa de proteger a vida.
Psicopatas de fato e gravata: quando o vazio emocional chega ao topo
Ao contrário do mito popular, a psicopatia não vive apenas em becos escuros. Veste fato caro, ocupa palácios presidenciais, dirige conselhos de administração. São pessoas capazes de encanto superficial, discurso articulado e frieza absoluta. Vêem na empatia uma fraqueza, na compaixão um defeito, na cooperação um sinal de fraqueza estratégica.
Estes perfis florescem em sistemas onde a recompensa está ligada ao curto prazo, ao espectáculo e à ausência de escrutínio. Política mediática feita de slogans, mercados obcecados com o trimestre, redes sociais que premiam o escândalo — é o habitat perfeito para o psicopata sorridente, que sabe dizer o que o público quer ouvir e, ao mesmo tempo, move as peças para concentrar poder, esmagar adversários e blindar-se à responsabilidade.
Confiar a estas personalidades o comando de exércitos, bancos centrais ou gigantes tecnológicos é tão sensato como entregar um avião cheio de passageiros a alguém que acha divertido desligar motores em voo, apenas para "testar a coragem da tripulação".
Testes psicológicos para o poder: se é obrigatório para um motorista, porque não para um chefe de Estado?
Em quase todas as profissões de risco existem filtros mínimos: exames médicos, provas psicotécnicas, avaliações periódicas. Um piloto de avião não pode pilotar alcoolizado nem com perturbações graves não tratadas. Um condutor profissional pode perder carta se se provar incapacidade.
Mas para governar países, comandar arsenais nucleares ou controlar plataformas globais que afectam a saúde mental de milhões… nada. Basta ganhar eleições, organizar um golpe ou comprar a empresa certa. O mundo aceita, resignado, que o destino colectivo esteja nas mãos de pessoas que nunca passaram por uma avaliação séria de empatia, estabilidade emocional, propensão para mentira patológica ou prazer em infligir sofrimento.
Falar de testes rigorosos para afastar psicopatas do poder não é fantasia autoritária; é higiene civilizacional. Os critérios seriam públicos, discutidos, auditáveis, assegurando que não se usam diagnósticos como armas políticas, mas como barreira mínima contra a insanidade moral. Se exigimos exames médicos a quem conduz um autocarro escolar, por que não aos que conduzem a Humanidade inteira?
Da competição predatória à co-petion
Mas não basta filtrar psicopatas. É preciso mudar o próprio jogo. A competição cega, erigida a religião económica, produz vencedores momentâneos e perdedores permanentes — e, no limite, destrói o tabuleiro onde todos jogam. Quando a lógica é "ou eu, ou tu", o resultado final é "ninguém".
A co-petion — essa mistura de cooperação com competição — propõe uma alternativa: continuamos a competir em criatividade, em eficiência, em beleza das soluções, mas cooperamos incondicionalmente em tudo o que é bem comum. Países podem disputar quem tem as melhores escolas, mas cooperar na ciência. Empresas podem competir em produtos, mas cooperar para descarbonizar cadeias de produção e proteger dados pessoais. Cidades podem rivalizar em qualidade de vida, mas cooperar em políticas de acolhimento, de saúde, de combate à pobreza.
A co-petion não é ingenuidade hippie; é pragmatismo evolutivo. Num planeta finito, com riscos existenciais globais, qualquer modelo baseado apenas em "ganhar sozinho" é, na prática, um projecto de derrota colectiva.
Empresas: menos gladiadores, mais guardiões
O mundo empresarial tem sido treinado para pensar-se como arena de gladiadores: mata ou morre, adquire ou é adquirido, corta ou é cortado. O resultado é um campo de batalha onde trabalhadores são descartáveis, ecossistemas destruídos e comunidades tratadas como dano colateral aceitável.
A co-petion empresarial significa outra coisa: concorrentes que cooperam em normas éticas, em padrões ambientais, em plataformas comuns abertas, em inovação partilhada para resolver desafios globais. Continuam a disputar clientes, claro, mas aceitam limites: não se destrói o planeta, não se compra poder político à socapa, não se usa manipulação psicológica em massa como estratégia legítima de negócio.
Quando empresas e Estados cooperarem como adultos, reduz-se o espaço para psicopatas brilharem: o jogo deixa de ser palco para egos inflamados e passa a ser campo de construção paciente, onde o brilho vem da capacidade de cuidar, não apenas de vencer.
Um futuro menos espectacular, mas infinitamente mais humano
Talvez o mundo que precisamos seja, à superfície, menos espectacular: menos discursos inflamados, menos cimeiras coreografadas, menos "líderes fortes" em pose de salvadores. Em vez disso, instituições mais sólidas, lideranças mais serenas, decisões mais entediantes — e, por isso mesmo, mais responsáveis.
A história está cansada de psicopatas brilhantes a incendiar continentes. O que nos falta não é mais carisma histérico; é um aborrecido senso de cuidado, uma ética de cooperação lúcida, uma cultura que valorize quem evita catástrofes em vez de quem promete vitórias épicas.
Um dia, talvez, olhar-se-á para o século XXI inicial como hoje olhamos para a Idade Média: tempo de senhores da guerra, de fanáticos e de cortes enlouquecidas. E talvez alguém, num futuro mais lúcido, se pergunte: como foi possível terem demorado tanto a exigir testes psicológicos a quem segurava o botão das guerras, a chave dos cofres e as alavancas das redes globais?
Até lá, resta-nos insinuar o futuro no presente: defender sem medo a ideia de que poder sem empatia é risco intolerável; e repetir, contra o coro dos cínicos, que competir só faz sentido quando a meta é uma humanidade inteira — não meia dúzia de vencedores cercados de ruínas.
"A humanidade sempre progrediu mais quando em cooperação, partilha, e princípios de abertura e liberdade. A tragedia dos povos ocorre sempre que há isolamento, ódio ao outro e quando só acredita, em vez de duvidar em consciência." - Francisco Gonçalves
Leitura aconselhada : O livro Código Aberto, Mundo Aberto"O que nasceu como software livre revelou-se filosofia, ética e esperança. E no coração do código, batia já o sonho de um mundo liberto — onde a informação não é poder para poucos, mas luz para todos."