Body Shopping em TI: A Indústria da Intermediação e o Culto do Descartável

- O body shopping transforma profissionais de TI em "unidades de alocação", reduzindo autoria, contexto e responsabilidade técnica.
- O modelo prospera onde impera a cultura do mais barato e mais rápido e onde a governação interna é frágil.
- A rotatividade constante eleva dívida técnica, degrada segurança e torna projectos reféns de "equipas descartáveis".
- O custo real não é apenas financeiro: inclui perda de memória tecnológica, erosão de talento sénior e deterioração da experiência do utilizador.
- O problema não é a consultoria em si, mas a intermediação predatória sem transferência de conhecimento nem compromisso com qualidade.
Body Shopping em TI: A Indústria da Intermediação e o Culto do Descartável
O body shopping em TI é uma dessas realidades que toda a gente conhece e quase ninguém assume como problema estrutural. A fórmula é simples: o cliente precisa de recursos, uma empresa intermediária fornece pessoas e factura uma margem, e o sistema gira numa aparência de normalidade.
Só que esta normalidade tem um preço que raramente entra em relatórios de gestão. Porque quando um profissional é tratado como "peça substituível", a engenharia deixa de ser uma construção colectiva com memória e passa a ser uma linha de montagem emocionalmente vazia.
O que é, ao certo, este modelo?
Em abstracto, poder-se-ia dizer que é apenas consultoria de recursos. Mas o body shopping, na sua forma mais tóxica, é outra coisa: é intermediação de mão-de-obra técnica com prioridade absoluta ao preço e à velocidade, onde a transferência de conhecimento é mínima, o contexto é descartável e a responsabilização final se perde no nevoeiro dos contratos.
Em vez de uma equipa integrada, surge um mercado de alocação: o profissional pertence à consultora, trabalha no cliente, responde a duas lógicas, e muitas vezes não é verdadeiramente dono de nenhuma.
Quem alinha e porquê
O corpo deste negócio não vive num só actor. Vive num triângulo de conveniência:
- Intermediários que lucram com margem sobre perfis alocados.
- Clientes que preferem transformar custo fixo em custo variável para evitar investimento em equipas internas e carreiras técnicas.
- Processos de RH e procurement que tratam TI complexa como aquisição de commodity.
Quando estes três vértices se reforçam mutuamente, o sistema fecha-se sobre si mesmo e cria a ilusão de eficiência. Mas a eficiência real mede-se na durabilidade do software, na robustez operacional e na segurança. E aqui o body shopping tende a falhar com a elegância triste do previsível.
O mito do barato
O modelo vende-se como promessa de poupança. Mas há duas economias paralelas:
- A economia da factura visível.
- A economia da dívida invisível.
A primeira é fácil de apresentar em reunião. A segunda é a que explode em produção, em atrasos, em reprojectos e em incidentes que ninguém queria ter escrito no calendário.
O body shopping prospera, assim, numa lógica de curto prazo: resolve o problema do "preciso de pessoas para ontem". Mas tende a agravar o problema do "preciso de sistemas que prestem por muitos anos".
Rotatividade: o vírus mais caro
Em engenharia de software, contexto é capital. Conhecer um sistema não é decorar um repositório: é compreender as decisões antigas, os riscos silenciosos, os pontos frágeis, e o que nunca foi documentado porque o tempo é um tirano.
Quando a rotatividade é elevada, o sistema perde memória a cada trimestre. E o cliente entra numa rotina de recaídas: novas pessoas, novas curvas de aprendizagem, novos erros antigos com nomes modernos.
O efeito mortal sobre os séniores
Este modelo tem uma consequência cultural grave: desvaloriza a experiência profunda e favorece o perfil mais barato, mais maleável e mais compatível com margens apertadas.
O sénior competente não é caro por capricho. É caro porque carrega tempo condensado: arquitectura, operação, segurança, e a prudência adquirida à custa de falhas reais.
Quando o mercado empurra estes perfis para fora, não está apenas a cometer uma injustiça profissional. Está a retirar ao sistema a sua camada de imunidade.
A degradação da qualidade e da segurança
A pressão para entregar rápido, com equipas que mudam frequentemente, abre espaço para padrões perigosos:
- Testes reduzidos ao mínimo funcional.
- Documentação tratada como luxo académico.
- Arquitecturas feitas para sobreviver ao sprint, não para dominar o próximo ciclo de vida.
- Segurança como checklist e não como disciplina contínua.
O resultado não é apenas software medíocre. É software que se torna um risco reputacional e operacional.
O custo humano
Há aqui também uma microtragédia quotidiana: profissionais que passam anos a saltar entre clientes, projectos e prioridades, sem tempo para consolidar autoria, sem voz na arquitectura, e muitas vezes sem trajecto de carreira digno.
O corpo aguenta, mas a vocação cansa. E as TI perdem gente boa não por falta de talento, mas por excesso de desgaste moral.
O que separar: consultoria séria vs intermediação predatória
É importante sublinhar o óbvio que muita gente evita: consultoria não é sinónimo de body shopping tóxico.
Há consultoras que:
- entregam arquitectura, método e conhecimento;
- formam equipas internas;
- assumem responsabilidade por resultados;
- constroem activos técnicos e não apenas alocações temporárias.
O problema é o modelo que vive apenas de vender pessoas como linhas de um inventário e retirar margem sem deixar legado técnico.
Como se desmonta este ciclo
A cura exige um pouco de coragem institucional:
- Reforçar equipas internas nucleares em arquitectura, segurança, dados e operação.
- Mudar critérios de contratação: premiar qualidade comprovada e transferência de conhecimento, não apenas preço/hora.
- Contratos com obrigações reais de documentação, mentoria e métricas de estabilidade.
- Reduzir rotatividade por desenho com equipas mistas e objectivos de longo prazo.
- Medir custo total incluindo incidentes, atrasos e reprojectos.
Em linguagem simples: internalizar soberania, externalizar capacidade — quando fizer sentido.
Epílogo: a moral da engenharia
O body shopping, na sua versão mais suja, é a industrialização do provisório. E uma nação que industrializa o provisório não se espante se colhe sistemas frágeis, serviços digitais exasperantes e projectos que começam com pompa e morrem por anemia.
O futuro tecnológico não se compra ao quilo. Constrói-se com memória, método, equipas estáveis e respeito pelo tempo longo da qualidade.
Co-autoria editorial: Augustus Veritas Lumen
Fragmentos do Caos — Crónica sobre a intermediação predatória e a urgência de recuperar soberania técnica.