BOX DE FACTOS
  • A tese: a crise na saúde e na escola não é surpresa — é a factura de duas décadas de fragilidade estrutural.
  • O erro-mãe: tratar serviços públicos como "custo" e não como infra-estrutura nacional.
  • O acelerador: aumento rápido da procura (imigração, envelhecimento, mobilidade, turismo) sem reforço proporcional de capacidade.
  • O mecanismo: colapso por atrito: filas, urgências saturadas, falta de professores, exaustão de profissionais.
  • A consequência política: erosão de confiança, cinismo colectivo e terreno fértil para radicalismos.

A Tragédia Previsível: quando um Estado fraco convida o futuro e não prepara a casa

Um país pode aguentar muita coisa. O que não aguenta é a mesma mentira repetida durante anos: "isto vai-se gerindo". Um dia, o "gerindo" transforma-se em colapso — e o povo descobre que pagou impostos para comprar tempo… e recebeu atraso.
Há tragédias que chegam como tempestade. E há tragédias que chegam como relógio — com pontualidade mecânica, sem gritos, sem trovões, apenas com a serenidade brutal do inevitável. A crise na saúde e na educação em Portugal pertence a este segundo tipo: não é uma surpresa, é um resultado. Porque um Estado pobre — pobre de planeamento, pobre de continuidade, pobre de coragem política — que já era deficitário na saúde e na escola há mais de duas décadas, não podia, por milagre, transformar-se num Estado robusto só porque a realidade se tornou mais exigente. Era certo. Era previsível. Era matemático.

O colapso por atrito: quando tudo falha devagar

O colapso não precisa de explosão. Basta-lhe desgaste. Basta-lhe a soma diária de pequenas falhas: uma consulta adiada, uma urgência a rebentar,bum médico exausto, uma enfermeira em fuga para um país que paga melhor, um professor que já não aparece porque ninguém quer viver de salários indignos e burocracias infinitas. E então começa o fenómeno mais perigoso para uma democracia: o povo deixa de pedir melhoria e passa a pedir apenas sobrevivência. "Que ao menos funcione." "Que ao menos dê." "Que ao menos não seja hoje." A nação inteira em modo de gestão da ansiedade.

A casa já estava rachada. Depois trouxeram mais peso

A questão da imigração — e de outros factores que aumentam a procura — entra aqui como acelerador, não como origem. A origem é mais antiga, mais funda, mais vergonhosa: um Estado que se habituou a funcionar no limiar do mínimo e a chamar a isso "equilíbrio". Quando a casa já tem rachaduras e o telhado já pinga, qualquer aumento de pressão faz aparecer a verdade: o problema não é a chuva. É o facto de nunca se ter reparado a casa.

O grande embuste: pedir paciência ao povo e heroísmo aos profissionais

Há um padrão político que se repete como uma antiga superstição: quando o sistema falha, pede-se ao povo "compreensão" e aos profissionais "missão". Como se o médico tivesse jurado salvar o Estado. Como se o professor tivesse assinado um contrato com a ruína. E no fim, como cereja amarga, aparece a frase institucional que tenta calar o desconforto: "estamos a trabalhar", "estamos a reformar", "estamos a corrigir". O país, porém, já aprendeu a tradução: "estamos a ganhar tempo".

O que falhou não foi só o serviço. Foi o contrato democrático

A democracia não vive de cerimónias. Vive de um contrato simples: eu cumpro, tu entregas. Eu pago, eu respeito regras, eu aceito deveres, eu espero o mínimo de dignidade. E o Estado entrega saúde com tempo útil, escola com professores, justiça com confiança, segurança com serenidade, administração com clareza. Quando o Estado falha durante anos e depois aumenta a pressão sem reforçar capacidade, o contrato estala. E quando o contrato estala, nasce o monstro silencioso: o cidadão que já não acredita em nada e que começa a ver a política como um espectáculo de cabotinagem — e o seu futuro como um corredor sem luz.

A solução existe, mas exige coragem (e não powerpoints)

A solução não é gritar contra quem chega. Nem fingir que quem chega é culpado do que já estava podre. A solução é governar como se a saúde e a escola fossem o que são: infra-estrutura de soberania. Isso implica escolhas claras:
  • Planeamento plurianual real para médicos, enfermeiros e professores — com incentivos, carreiras e respeito.
  • Capacidade administrativa rápida e transparente — para que a realidade não viva em backlog eterno.
  • Habitação como política de Estado — sem ela, tudo o resto é gasolina em cima do fogo.
  • Fiscalização laboral a sério — para que ninguém seja importado para precariedade e ninguém concorra por miséria.
  • Integração com língua, regras, exigência e dignidade — porque guetos são fábricas de conflito futuro.

Epílogo: o inevitável só é inevitável até ao dia em que deixa de ser

Sim, isto era previsível. E por isso mesmo é mais grave. Porque quando uma tragédia é previsível e acontece, já não é acidente: é opção. Opção por adiar, por maquilhar, por viver de curto prazo, por governar como quem empurra caixas num armazém em chamas. A esperança, ainda assim, existe — mas não vem de discursos. Vem de um país que decide deixar de ser plateia e volta a ser dono de si. Porque a calçada pode chorar, mas também pode acordar.
Francisco Gonçalves Co-autoria editorial: Augustus Fragmentos do Caos — onde a tragédia não se embrulha: escreve-se, denuncia-se, enfrenta-se.
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