BOX DE FACTOS
  • A propaganda oficial insiste numa Rússia "forte e unida".
  • A guerra prolongada vai deixando marcas: cansaço, medo, silêncios, ausências.
  • Quando as negociações se arrastam, cresce a tensão entre narrativa e vida real.
  • O Estado promete vitória; a sociedade paga o "custo invisível" todos os dias.

A Rússia que se desfaz: quando o Kremlin vende força e entrega fadiga

Há um país que aparece na televisão e outro que acorda de manhã.
O primeiro ganha sempre. O segundo… vai perdendo devagar, como se a derrota fosse um ruído de fundo que ninguém tem autorização para ouvir.

A arte oficial de chamar "unidade" ao silêncio

A Rússia, dizem-nos, está firme. O Kremlin apresenta o país como um bloco de granito: coeso, inevitável, triunfante, destinado a vencer porque… sim. E quando a realidade teima em ter rugas, chama-se "provocação", "influência estrangeira", "traidores", "desinformação". A unidade, nesta liturgia, não é um sentimento: é um regulamento.

E é aqui que a sátira começa a escrever-se sozinha: quando um Governo precisa de repetir a palavra "forte" todos os dias, é porque já ouviu a madeira a estalar por dentro.

O país real: filas, ausências e um cansaço que não cabe nos telejornais

Numa guerra longa, a primeira baixa não é a moral do inimigo — é a normalidade doméstica. A sociedade não "colapsa" num dia; ela descose-se. Um filho que não volta. Um pai que regressa diferente. Um vizinho que desaparece do prédio e ninguém pergunta porquê, porque perguntar também tem preço.

O Estado afirma vitória; as famílias fazem contas ao que sobra: dinheiro, coragem, paciência, futuro. E o mais corrosivo é isto: a guerra torna-se o clima. Já não é notícia; é meteorologia. "Hoje, probabilidade de drones. Máxima de propaganda. Mínima de esperança."

A economia da guerra e a pobreza do espírito

A economia pode até aprender a "funcionar" com a guerra, como certas máquinas antigas que trabalham melhor quando pingam óleo. Mas o espírito social não funciona assim. A guerra exige obediência contínua e oferece, em troca, uma espécie de anestesia moral: "não penses demasiado; confia; consome a versão oficial e volta ao trabalho".

Só que há uma ironia maior do que todas: regimes que se alimentam do medo acabam por temer aquilo que mais tentam fabricar — a própria população. Porque o medo é obediente… até ao dia em que deixa de ser.

A vitória "inevitável" e o relógio que não pára

A propaganda adora a palavra "inevitável". É um truque elegante: dispensa provas, dispensa explicações e dispensa resultados. Se a vitória não chega, a culpa é do tempo. Ou do Ocidente. Ou da meteorologia. Ou de um cartoon.

Mas há um problema que nem o melhor porta-voz consegue abolir: o relógio. E o relógio cobra em moedas muito reais: ansiedade, desconfiança, ruptura, fuga, cinismo, alcoolismo social, medo de falar, medo de não falar, medo de existir.

Epílogo: a força que se exibe e a fragilidade que se herda

Pode-se governar um país pelo medo durante muito tempo. Pode-se até ganhar batalhas. Pode-se até reescrever manchetes. O que não se consegue, por decreto, é impedir uma sociedade de sentir.

Quando a guerra se arrasta, o país oficial insiste em parecer invencível — e o país real começa a parecer… humano. E não há tanque que resolva isso. Só verdade, tempo e reparação. Coisas que a propaganda, por definição, não sabe fabricar.

Francisco Gonçalves
Crónica satírica — com co-autoria e lume crítico do Augustus Veritas.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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