BOX DE FACTOS
  • A escola portuguesa transformou-se num instrumento de reprodução ideológica da classe política dominante.
  • A memorização substituiu a reflexão; a repetição substituiu a análise; o conformismo substituiu a cidadania.
  • Jovens de 18 a 20 anos demonstram dificuldade em formar opiniões próprias, reproduzindo discursos oficiais.
  • A ausência de pensamento crítico compromete a liberdade, a democracia e a autonomia intelectual das novas gerações.
  • Uma resistência cultural, intelectual e filosófica é necessária para restaurar a consciência crítica da sociedade.

A Resistência do Pensamento Livre: quando a escola se torna uma máquina de conformismo

Há 51 anos, a escola portuguesa foi transformada numa grande máquina de domesticação social. Em vez de ensinar a pensar, ensina a obedecer. Em vez de libertar, aprisiona. A nova resistência começa na recusa de aceitar que a juventude repita narrativas alheias como se fossem pensamento próprio.

Quando um sistema político se perpetua durante meio século, não precisa de polícia secreta nem de censura explícita. Basta-lhe a escola. É ali, nos corredores coloridos e nas salas supostamente democráticas, que se molda a mente das próximas gerações. E o que hoje se observa é preocupante: jovens que falam como manuais ambulantes. Jovens que não duvidam, que não interrogam, que não desconstróem — apenas repetem.

Este fenómeno não surge por acaso. A escola foi desenhada para ser uma fábrica de consenso, não de consciência. Um lugar onde se aprende a decorar narrativas avalizadas pela classe dominante, sem possibilidade de rasgar o tecido oficial com perguntas inconvenientes. A escola tornou-se o braço cultural de um poder que sabe que uma população que pensa é uma população perigosa.

A juventude como espelho da narrativa dominante

Quem conversa com um jovem português de 18 ou 20 anos depara-se com um paradoxo: são educados, articulados, informados — mas não pensam por si mesmos. Não questionam a origem das ideias que professam, nem percebem que grande parte do que dizem lhes foi implantado subtilmente ao longo de 12 anos de escolaridade.

Debitam slogans políticos como se fossem reflexões próprias; reproduzem visões oficiais sobre história, sociedade, ambiente, economia e mundo sem se aperceberem da ausência total de análise. São filhos de um sistema que não lhes ensinou a pensar, mas sim a alinhar.

O pensamento crítico como ameaça ao poder

O que está em causa não é apenas pedagogia — é poder. Uma juventude que pensa criticamente torna-se politicamente imprevisível. Questiona narrativas, desmonta discursos, expõe incoerências, exige reformas. Mas uma juventude condicionada a repetir, essa sim, garante a continuidade do sistema sem esforço.

Por isso a escola portuguesa, apesar do vocabulário progressista, é essencialmente conservadora: preserva privilégios, protege elites, perpetua narrativas convenientes. A crítica é tolerada apenas como simulação; nunca como possibilidade real de transformação.

A resistência começa com uma pergunta proibida

A verdadeira resistência cultural não começa com gritos ou bandeiras. Começa com uma pergunta: "Por que devo acreditar nisto?" É a pergunta que desmonta dogmas, que rasga certezas, que revela contradições. É a pergunta que o sistema teme — e por isso a escola nunca a ensina.

Resistir é ensinar os jovens a duvidarem. A exigirem fontes. A perceberem interesses. A identificar manipulação. A cultivar a suspeita saudável. A não confundirem emoção com verdade, nem propaganda com conhecimento. Resistir é devolver-lhes o direito à consciência individual.

O surgimento de uma nova cidadania crítica

A luta não é para destruir a escola, mas para resgatá-la das mãos de quem a transformou numa máquina de domesticação. A escola deve ser o lugar onde se aprende a pensar contra o poder — nunca a favor dele. Onde se aprende a reconhecer manipulação — nunca a absorvê-la. Onde se treinam consciências livres — nunca consciências alinhadas.

A nova resistência não será feita de slogans, mas de lucidez. Não de ideologia, mas de discernimento. Não de obediência, mas de ousadia intelectual. E começa onde sempre começa a transformação profunda: no pensamento individual que se recusa a ser subordinado.

Epílogo: uma chama acesa na escuridão

Enquanto houver um só cidadão disposto a perguntar "porquê?", a máquina de lavagem cerebral não vencerá. Enquanto houver alguém que recuse repetir narrativas prontas, o espírito humano permanece invicto. A resistência do pensamento livre é silenciosa, mas indestrutível. E é essa chama que, um dia, devolverá à escola a sua missão original: transformar ignorância em liberdade.

Portugal, o país que tem medo da mudança

Conta-se que Salazar terá dito, em tom quase clínico, algo como: "a humanidade gosta pouco da mudança, mas os portugueses, esses detestam a mudança". Independentemente da precisão da citação, a ideia é assustadoramente exacta. Durante décadas, o regime cultivou uma pedagogia do medo: medo de arriscar, medo de pensar diferente, medo de sair da fila. A mudança era sinónimo de risco, e o risco, suspeito por definição.

A democracia chegou, mas o subtexto mental permaneceu. O país continua a amar a estabilidade tóxica mais do que a possibilidade de transformação. "Não mexas", "não compliques", "não te ponhas em bicos de pés" – estas frases, herdadas de gerações habituadas a baixar a cabeça, ainda ecoam nos corredores da escola e nas conversas de família. A juventude bebe este caldo sem se dar conta: aprende desde cedo que questionar é perigoso, que discordar é falta de educação, que romper com o estabelecido é quase traição.

O resultado é uma contradição cruel: pedem-se jovens "inovadores", "empreendedores", "adaptáveis", mas educam-se jovens obedientes, dóceis, colaboracionistas. Fala-se de futuro, mas ensina-se passado congelado. Exige-se criatividade no currículo, mas pune-se qualquer rasgo de indisciplina intelectual. A escola proclama mudança em powerpoints; na prática, reproduz o velho reflexo salazarento de que o melhor cidadão é o que não incomoda.

Porém, os desafios que se aproximam – tecnológicos, ambientais, sociais, geopolíticos – não perdoam mentes conformistas. Um país que detesta a mudança será mudado à força pelos outros. A verdadeira escolha que temos pela frente é simples e brutal: ou formamos jovens capazes de pensar contra a inércia, ou condenamo-nos a ser figurantes num mundo redesenhado por quem teve coragem de abandonar o medo. A resistência do pensamento livre é, neste contexto, mais do que um gesto moral; é uma questão de sobrevivência nacional.

"Se não gosta da mudança ainda vai gostar menos da irrelevância " Gen. EUA

Escrito por Francisco Gonçalves
Série: Contra o Teatro da Mediocridade
Publicado em Fragmentos do Caos – Para todos os que recusam a obediência intelectual. Hoje pensar é um autêntico acto de resistência.
"A liberdade de pensar é aquilo que mais temem os déspotas". [ Immanuel Kant ]

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