A República do Esquecimento: quando 300 mil euros ‘desaparecem’ na névoa da memória

- Manchete do Nascer do SOL: "Empresário não se lembra de pagar 300 mil euros a Marques Mendes".
- O texto de capa refere uma avença alegada de 5.000€/mês durante seis anos e invoca o debate "transparência vs. sigilo".
- Na sequência da polémica, foi divulgada uma lista de 22 clientes da empresa familiar associada ao candidato.
- Paralelamente, discute-se a origem de rendimentos na ordem das centenas de milhares de euros, com invocação de sigilo profissional.
A República do Esquecimento: quando 300 mil euros 'desaparecem' na névoa da memória
A manchete caiu como uma pedrada com luvas de veludo: um empresário "não se lembra" de pagar 300 mil euros a Luís Marques Mendes. Não é apenas uma frase; é um retrato. Um retrato de um país onde o esquecimento se tornou um instrumento político — uma espécie de detergente moral, capaz de lavar o embaraço sem tirar a nódoa.
A amnésia como método
Não se trata de fazer julgamentos sumários: trata-se de pedir o óbvio. Em matéria de pagamentos regulares, avenças e serviços, não é a memória que manda — manda a contabilidade. Há facturas, transferências, recibos, contratos, e há, sobretudo, um princípio simples: quem se propõe a cargos máximos deve suportar o escrutínio máximo.
O "não me lembro" é a versão moderna do "não fui eu": serve para ganhar tempo, para empurrar a conversa para o pântano e para transformar a transparência numa discussão filosófica. Mas, na vida real, o dinheiro não é metafísico: ou existe registo, ou não existe pagamento. E quando a soma é grande, o país tem o direito de exigir clareza sem precisar de pedir licença.
Transparência vs. sigilo: o truque do biombo
Nesta história, há uma palavra que aparece como escudo: sigilo. O sigilo é necessário, sim — mas não pode ser um biombo total quando estão em causa potenciais conflitos de interesses e a credibilidade institucional de quem se oferece ao país como árbitro supremo.
A transparência não exige violar segredos profissionais — exige separar, com nitidez, o que é exercício legítimo de profissão do que é promiscuidade estrutural entre influência, acesso, reputação mediática e facturação privada. E, quando essa fronteira se esbate, a democracia começa a respirar mal, como casa antiga sem ventilação: por fora parece sólida, por dentro acumula mofo.
A lista de clientes: uma resposta que abre mais perguntas
A divulgação de uma lista de clientes pode ser lida como gesto de abertura. Mas o problema não é apenas quem — é também como, quando, porquê e quanto. Porque, num país com tradição de portas giratórias, a pergunta que o cidadão faz não é maldosa: é defensiva. É a pergunta de quem já foi enganado vezes demais.
E aqui reside o ponto central: a política portuguesa habituou-se a confundir legalidade mínima com decência máxima. Há coisas que podem caber no buraco da lei e, ainda assim, ser politicamente intoleráveis. A lei é um chão; a ética é um tecto. Quando o tecto desaparece, a casa não é "moderna": é inabitável.
O país que paga a factura
Enquanto os de cima discutem memórias e sigilos, os de baixo discutem listas de espera, salários curtos e rendas longas. E, no meio disto, o cidadão assiste ao espectáculo como quem vê uma peça repetida: entra o escândalo, sai a explicação, fica tudo na mesma. É o teatro nacional.
Se a democracia quer sobreviver, precisa de um princípio simples e não negociável: quem manda deve explicações a quem paga. E quem se candidata a Presidente não se pode apresentar como figura acima do pó — porque é precisamente do pó, do detalhe, do registo, do recibo e da responsabilidade que se faz a dignidade pública.
Isto não é transparência — é só uma lista
E é aqui que a conversa tem de parar de fingir. Uma lista de "22 clientes" pode ser um gesto político, pode ser uma manobra de contenção de danos, pode até ser um acto de boa fé — mas não é transparência. Transparência não é publicar um rol de nomes como quem encosta um cartaz à porta e declara a casa limpa. Transparência é publicar informação suficiente para que a cidadania possa verificar.
Uma lista sem valores, sem datas, sem duração e sem objecto concreto do serviço é, na prática, um convite à fé — e a democracia não é religião. O país não precisa de crenças: precisa de factos. O escrutínio não se faz com "rubricas" vagas ("consultoria", "conferências", "comentário"), faz-se com respostas simples às quatro perguntas que contam: quanto, quando, em troca de quê e com que salvaguardas.
Epílogo: a memória do povo
O empresário diz que não se lembra. Muito bem. Mas o país lembra-se. Lembra-se do padrão: do "não vi", do "não sabia", do "não me recordo", do "não fui eu", do "isso é baixa política". E lembra-se, sobretudo, da consequência: ninguém é responsável, mas alguém fica sempre mais rico.
A democracia não morre de um tiro. Morre de pequenas desistências — e uma delas é aceitar que 300 mil euros possam evaporar-se numa frase. A memória do povo, essa, não pode ser terceirizada.
Quando estas quatro perguntas ficam por responder, a lista transforma-se apenas num biombo: serve para dizer "divulguei" e, ao mesmo tempo, impedir que se confirme. E é precisamente por isso que esta "transparência" não ilumina — apenas projecta sombra.
Transparência não é publicar uma lista. Transparência é publicar o suficiente para que um cidadão, com o mesmo direito à verdade que um poderoso tem ao sigilo, possa confirmar o que lhe estão a pedir que acredite. Até lá, não temos claridade: temos teatro — e o público, esse, já pagou bilhete demais.
- Capa do Jornal SOL (19 Dezembro 2025) — "Empresário não se lembra de pagar 300 mil euros a Marques Mendes" — consultado em 19/12/2025
- RTP — Marques Mendes divulga 22 clientes e desafia candidatos a revelarem potenciais conflitos de interesses (19 Dezembro 2025) — consultado em 19/12/2025
- SÁBADO — Marques Mendes recusa dizer como ganhou €709 mil nos últimos dois anos (16 Dezembro 2025) — consultado em 19/12/2025
- Jornal Económico — Marques Mendes não revela origem de 709 mil euros e alega sigilo profissional (18 Dezembro 2025) — consultado em 19/12/2025
- Jornal Económico — Dono de construtora não se lembrava que tinha pago 5 mil euros/mês a Marques Mendes durante 5 anos (19 Dezembro 2025) — consultado em 19/12/2025
Co-autoria editorial: Augustus Veritas