A República do Ajuste Directo: 57 Contratos e o Ruído Antes do Silêncio

- O Ministério Público (DIAP de Almada) está a investigar ajustes directos na Marinha associados ao período em que Henrique Gouveia e Melo foi comandante naval (2017–2020).
- Segundo notícias, a Polícia Judiciária Militar terá sinalizado 57 contratos por alegada concentração recorrente num mesmo fornecedor.
- O fornecedor referido é a PROSKIPPER, Lda.; a cobertura noticiosa menciona que a empresa foi dissolvida em 2022.
- Existe no Diário da República um despacho (2014) ligado ao licenciamento da empresa para actividade de comércio de bens e tecnologias militares / produtos relacionados com a defesa.
- Investigar não é condenar: a existência de inquérito não substitui prova, acusação, contraditório e tribunal.
A República do Ajuste Directo: 57 Contratos e o Ruído Antes do Silêncio
1) O que está em causa — sem espuma, sem sentença
Há uma notícia de Dezembro de 2025 a incendiar as conversas: o Ministério Público está a investigar ajustes directos na Marinha, associados a 57 contratos que, segundo o noticiado, terão sido sinalizados pela Polícia Judiciária Militar. O nome do fornecedor — e o nome do comandante naval de então — entraram no mesmo parágrafo, e o país fez o que sabe fazer: transformou um processo em espectáculo.
Convém insistir no óbvio (porque o óbvio, em Portugal, é um luxo raro): um inquérito não é uma condenação. E uma manchete não é um acórdão. Mas também é verdade o inverso: a ausência de condenação não é um certificado de perfeição dos procedimentos. A democracia vive deste equilíbrio incómodo — e necessário.
2) O ajuste directo: ferramenta útil, vício perigoso
O ajuste directo existe por uma razão: há urgências, há especialização, há compras pequenas e repetitivas, há o mundo real. Mas o mundo real tem um demónio doméstico: chama-se rotina. E quando a rotina encontra um mecanismo rápido, nasce a tentação de o usar como auto-estrada para tudo: do legítimo ao discutível, do discutível ao indecoroso.
O problema raramente é "um contrato". O problema costuma ser o padrão: recorrência, concentração, falta de comparação efectiva, consultas que parecem concorrência mas cheiram a formalidade, e justificações que se repetem como fotocópias cansadas.
3) O fornecedor: quando o Estado compra, compra também risco
A empresa citada é a PROSKIPPER, Lda. O noticiário refere-a como ligada a actividade no âmbito do comércio de bens e tecnologias militares / produtos relacionados com a defesa, actividade que, por lei, depende de licenciamento e enquadramento específico. A simples presença desse universo deveria impor um padrão de transparência superior: porque, quando a Defesa compra, não compra apenas equipamentos — compra também risco institucional.
E aqui mora uma verdade dura: a República tem um defeito de fabrico cultural — a mania de tratar a contratação pública como "assunto técnico" e não como zona moral. E quando a moral é terceirizada, os problemas tornam-se sistémicos.
4) O "timing" e a política: o ruído como nevoeiro
Quando um caso destes surge na esfera pública, explode logo a guerra paralela: "porquê agora?", "a quem convém?", "quem quer ferir quem?". É possível que exista cálculo. É possível que exista coincidência. É possível que exista tudo isso ao mesmo tempo — porque a política, em Portugal, não é um xadrez: é uma mesa de bilhar onde as bolas insistem em bater na transparência.
Mas o truque mais antigo do poder é este: trocar o debate sobre procedimentos pelo debate sobre personagens. Enquanto discutimos biografias, o sistema continua a produzir o mesmo: processos lentos, opacidade confortável e uma cultura de "normalidade" que devora a exigência cívica.
5) O que um país sério exigiria (antes de apontar dedos)
Antes da histeria e depois da espuma, há perguntas simples — que não são de esquerda nem de direita, são apenas de gente adulta:
- Houve fragmentação de compras para caberem em ajuste directo?
- As consultas ao mercado foram reais, comparáveis e documentadas?
- Existiu concentração recorrente sem justificação técnica sólida?
- Houve conflitos de interesses formais ou informais, directos ou indirectos?
- Que mecanismos de controlo interno falharam — e quais funcionaram?
Porque, no fim, a pergunta maior não é "quem cai?". É: o que muda para que isto não volte a acontecer com outro nome, noutra sala, noutro governo?
Epílogo: a higiene da democracia
A democracia não morre apenas de golpes — morre de higiene negligenciada. Morre quando o cidadão aprende a encolher os ombros, quando o Estado aprende a agir por hábito, quando a transparência vira slogan e a responsabilidade vira rodapé.
Se o MP investigar, que investigue até ao osso — com método e sem teatro. Se houver ilícito, que haja acusação e justiça. Se não houver, que a verdade limpe o ar. Mas em qualquer dos cenários, que fique uma lição gravada a fogo: o procedimento é política. E a política, sem ética operacional, é só uma máquina a pedir o próximo escândalo.
Fontes & Referências (para consulta)
- RTP — notícia sobre a investigação e referência aos 57 contratos e à Proskipper: https://www.rtp.pt/noticias/pais/so-ganhei-o-meu-ordenado-ministerio-publico-investiga-ajustes-diretos-na-marinha-aprovados-por-gouveia-e-melo_n1706727
- Diário de Notícias — contextualização do inquérito e referência ao DIAP de Almada: https://www.dn.pt/sociedade/ministrio-pblico-investiga-ajustes-diretos-na-marinha-em-que-gouveia-e-melo-estar-envolvido
- Jornal de Negócios — referência ao inquérito e ao "perdão" do Tribunal de Contas (2024) noticiado: https://www.jornaldenegocios.pt/economia/justica/detalhe/ministerio-publico-investiga-ajustes-diretos-na-marinha-envolvendo-gouveia-e-melo
- Diário da República — Lei n.º 49/2009 (licenciamento de comércio/indústria de bens e tecnologias militares): https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/lei/49-2009-493978
- Diário da República — Despacho n.º 6759/2014 (referência ao licenciamento associado à PROSKIPPER, Lda.): https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/despacho/6759-2014-25708068
- Portal GOV — informação de serviço sobre licenciamento de bens e tecnologias militares: https://www2.gov.pt/servicos/comercio-e-industria-de-bens-e-tecnologias-militares-licenciamento-de-empresas
- BUD — enquadramento sobre licenciamento (Economia de Defesa): https://bud.gov.pt/industria/lic-emp.html
Coautoria técnica: Augustus (AI Assistant) — ao serviço da clareza, não da caça às bruxas.