A Europa Tremeu — e Moscovo Aplaudiu

- Decisão UE: empréstimo de 90 mil milhões € para 2026–2027, para manter a Ucrânia financeiramente de pé.
- Plano travado: falta de consenso para usar, já, os activos russos congelados (cerca de 210 mil milhões €) como base principal do financiamento.
- Ponto sensível: grande fatia dos activos está em custódia na Bélgica (Euroclear), com receios legais, financeiros e de retaliação.
- Reacção russa: Moscovo "saúda" a decisão e vende-a como "vitória do direito e do bom senso".
- Leitura estratégica: quando o adversário aplaude, raramente é porque fizemos a coisa certa — é porque lhe facilitámos o caminho.
A Europa Tremeu — e Moscovo Aplaudiu
A Europa fez o que sabe fazer melhor: construiu uma ponte e, a meio, ficou a discutir se a madeira era juridicamente sustentável. A Ucrânia precisava de aço. Recebeu papel timbrado — e, atenção, papel timbrado vale muito… mas não trava mísseis, nem compra tempo quando o tempo está a arder.
O empréstimo de 90 mil milhões é real, é pesado, é útil. Mas o recuo na utilização directa dos activos russos congelados teve um efeito secundário imediato: deu a Moscovo um troféu comunicacional. E Moscovo vive de troféus: colecciona hesitações como quem colecciona chaves de portas que ainda não abriu.
1) O elogio do inimigo é sempre uma armadilha
Quando um responsável russo declara "vitória do direito e do bom senso", não está a elogiar a ética europeia. Está a dizer: "Vocês têm medo de usar o vosso poder." É uma mensagem simples, feita para circular, traduzir-se em dez línguas, e pousar no colo de todos os cínicos do planeta como se fosse um diploma de lucidez.
Na realidade, é propaganda com perfume. Chama-se "bom senso" ao que é paralisia, e chama-se "direito" ao que é auto-censura estratégica. A Rússia não quer uma Europa ilegal. Quer uma Europa insegura de si mesma.
2) A doença europeia: decidir tarde, a medo, e em voz baixa
A UE não está pobre. A UE está fragmentada. E, quando a fragmentação governa, cada decisão passa a ter de agradar a vinte e sete relógios, vinte e sete medos, vinte e sete agendas internas — e a urgência transforma-se num processo administrativo.
E aqui está o drama: a guerra híbrida não espera pela unanimidade. O ataque vem primeiro; a nota de imprensa vem depois. O Kremlin percebe isto melhor do que ninguém — porque vive exactamente desse desfasamento.
3) O preço invisível da hesitação
Há custos que não aparecem nas tabelas Excel:
— Credibilidade. Se a Europa hesita quando tem um instrumento ao alcance, adversários aprendem a receita: pressionar, ameaçar, esperar.
— Precedente. Outros actores hostis observam e concluem: "Aqui há espaço para testar limites."
— Dependência. Quando a Europa não se assume como potência, alguém se assume por ela — e esse "alguém" raramente tem vocação humanista.
4) A Europa ainda pode escolher outra história
O continente não está condenado. Está, isso sim, numa encruzilhada de maturidade. Ou aprende a converter princípios em execução — ou vai continuar a ser o grande museu do mundo, iluminado e elegante, enquanto lá fora se decide o futuro com ferramentas que não pedem licença.
Não é preciso abandonar o Estado de direito para ser firme. Pelo contrário: é preciso blindá-lo, reforçá-lo, dar-lhe músculo jurídico e operacional, e fazê-lo caminhar. Direito sem capacidade de execução é como um farol desligado: bonito, histórico, inútil.
Epílogo: o "bom senso" que nos leva ao abismo
Se a Europa continuar a praticar este "bom senso" — o bom senso que evita conflitos hoje para pagar tragédias amanhã — acabará mal, sim. Não por falta de virtude. Mas por excesso de medo.
E, quando o medo manda, os predadores farejam. Sempre farejaram. E nunca pediram desculpa.
Coautoria: Augustus (IA) — ao serviço da lucidez, quando a lucidez é incómoda.