A Escola do Mundo Que Já Não Existe: Quando a IA Entra na Sala

- O mundo do trabalho já mudou: tarefas rotineiras e "de papel" estão a ser automatizadas.
- A escola ainda ensina como se fosse 2005: decorar, repetir, preencher, obedecer ao molde.
- A IA não é "tema opcional": é uma camada nova por cima de todas as profissões.
- O risco: formar gerações competentes em exames, mas incompetentes em vida real.
- A saída: reformar currículo, avaliação, formação docente e universidade com urgência.
A Escola do Mundo Que Já Não Existe
Há uma estranha superstição nacional — e não é só nacional, mas cá tem sotaque carregado: a crença de que o mundo espera que a escola acabe de corrigir testes para depois evoluir. Como se a realidade assinasse uma requisição em triplicado, carimbada, com prazo de 90 dias úteis.
Só que a realidade não pede licença. A realidade entra, muda os móveis de sítio, e ainda deixa um bilhete: "Volto amanhã. Tragam pensamento crítico."
A inteligência artificial, neste estádio de evolução, já não é um "extra" para a aula de Informática, nem um tópico para uma conferência com coffee-break e fotografias. É uma nova camada do mundo — como a electricidade foi, como a internet foi, mas com uma diferença decisiva: a IA não liga apenas máquinas a máquinas; liga linguagem a poder, conhecimento a velocidade, e decisões à escala.
O erro fatal: ensinar para um planeta que já evaporou
Continuamos a formar alunos para tarefas que já estão a ser engolidas pelo motor automático: resumir sem compreender, copiar sem saber porquê, repetir sem ter alma, responder "certo" sem ter visão. E depois chamamos a isso "preparar para o futuro". É como treinar marinheiros para remar em terra firme, e ficar ofendido quando alguém aponta o óbvio: não há água.
Quando a IA escreve, traduz, programa, explica e simula, o valor humano muda de endereço. O que passa a valer mais não é "fazer" a tarefa — é formular a pergunta verificar a resposta, julgar consequências, criar alternativas,assumir responsabilidade.
A reforma que dói: avaliação, currículo e coragem
Aqui está o ponto que mete medo aos conservadores do sistema: reformar a escola na era da IA implica mexer naquilo que dá controlo — a avaliação. Porque a avaliação actual mede sobretudo a obediência ao formato, não a capacidade de pensar. Mede o eco, não a voz.
Uma reforma séria teria de trocar "decorar" por competências verificáveis: raciocínio, comunicação, literacia científica, literacia digital, ética, criatividade, projecto, colaboração. E sim — incluir a IA na sala como ferramenta, mas com regras: citar, validar, comparar fontes, explicar decisões, detectar alucinações, medir enviesamentos.
Universidade: menos liturgia, mais laboratório
O ensino universitário também não escapa. Em demasiados cursos, ainda se confunde "rigor" com "ritual": bibliografia como relíquia, exame como missa, tese como peregrinação burocrática. Entretanto, a economia pede protótipos, validação, produto, impacto — e pede sobretudo gente que saiba aprender depressa, desaprender sem drama e reaprender com método.
A universidade do tempo da IA precisa de ser menos catedral e mais oficina: projectos reais, problemas reais, interdisciplinaridade sem vaidade, e um pacto simples: ninguém sai daqui sem saber construir, testar, medir, justificar e melhorar.
O grande obstáculo: a consciência (e a vergonha)
Mas para isto acontecer, é preciso o que anda raro: governantes e educadores com plena consciência. Consciência de que o mundo já virou a página, e de que insistir no manual antigo é uma forma lenta de sabotagem nacional. Não é "atraso". É negligência.
E talvez seja preciso também uma dose de vergonha — aquela vergonha boa, civilizadora, que nos faz dizer: "estamos a falhar, temos de mudar já".
Epílogo: ou reformamos, ou educamos fantasmas
Se não reformarmos agora, continuaremos a formar gerações para um mundo que já hoje não existe — e depois chamaremos "crise" ao resultado inevitável. A IA não vai esperar. O mercado não vai esperar. A história, essa senhora sem paciência, também não.
Reformar o ensino na era da IA não é um luxo. É uma questão de soberania mental e de sobrevivência existencial. É escolher entre um país que pensa — e um país que apenas executa instruções.
Co-autoria editorial: Augustus Veritas— Fragmentos do Caos