BOX DE FACTOS
  • O planeta não fica sem água; o que falta é água acessível, bem gerida e distribuída com justiça.
  • A moral do "poupe" cai quase sempre sobre quem já vive com a conta no pescoço.
  • O luxo poluente (aviões privados, iates, desperdícios ostentatórios) mantém-se como se fosse intocável.
  • Quando a política falha, nasce a escassez artificial: o bem essencial vira portagem.
  • O discurso climático pode ser ciência… ou pode ser instrumento. A diferença chama-se transparência e justiça.

A Ecologia do Sermão e a Impunidade do Luxo

"Poupe água." "Poupe energia." "Seja responsável." — dizem, com voz grave, no telejornal das oito.
E, lá em cima, a mesma voz sobe para um avião privado e aterra numa festa onde o desperdício é tratado como direito natural.

A pedagogia do pobre: poupar para poder existir

Há um truque antigo, com verniz moderno: quando o sistema não sabe governar, começa a catequese. Não se corrige a rede, não se reduz a perda, não se planeia a cidade, não se reforma a floresta — mas reformam-se os cidadãos. Dizem-nos que o problema é o duche, a lavagem dos dentes! Dizem-nos que a culpa é da torneira. Dizem-nos que o cidadão comum é um pecado ambulante.

Esta pedagogia é selectiva: educa sempre os mesmos. O recado raramente sobe à varanda do luxo. É uma moral desenhada para baixo, como chuva falsa numa maquete: cai na plebe, não molha o palco.

O planeta azul não seca — mas o povo pode secar

O planeta não vai "ficar sem água". Isso é uma caricatura útil para manchetes, não para pensamento. O que pode acontecer — e acontece — é uma mistura menos fotogénica e muito mais perigosa: má gestão, captura de recursos, infra-estruturas degradadas, contratos opacos, e uma política que transforma o essencial num corredor estreito, cheio de portagens.

A água não acaba. O que pode acabar é a tranquilidade de quem vive no rés-do-chão da sociedade: quando um bem básico se torna luxo, a democracia torna-se teatro.

O luxo como imunidade: a grande licença para poluir

É aqui que a hipocrisia ganha motor e altitude. O mesmo tempo de antena que pede ao povo "sacrifício" raramente aponta o dedo ao desperdício ostentatório:aviões privados, caravanas de carros de luxo, barcos que são cidades flutuantes,frotas de excessos que fazem do planeta um cinzeiro e chamam a isso "estilo de vida".

Ao pobre pede-se virtude. Ao rico concede-se excepção. E quando a excepção é constante, deixa de ser excepção: passa a ser regime.

A escassez fabricada: quando a incompetência vira negócio

A partir de certa altura, a falta de gestão já não é apenas incapacidade. Torna-se oportunidade. Torna-se mercado. Torna-se argumento. O discurso do medo abre caminho a uma economia de dependência: quem controla o acesso ao essencial controla a obediência.

E isto não se limita à água: repete-se na electricidade, na habitação, na saúde, na educação. O padrão é o mesmo: encarece-se o indispensável, depois vende-se "ajuda" em parcelas, em programas, em paliativos — e chama-se a isso "modernidade responsável".

O problema não é a consciência — é a desigualdade da consciência

Não, não é "errado" usar bem a água. Não é "errado" evitar desperdício. O erro é transformar isso numa cruzada moral contra quem já vive apertado, enquanto se mantém intocado o consumo de luxo e as estruturas que desperdiçam por defeito e por desleixo.

Se querem falar de responsabilidade, falem dela com coragem: quem mais consome, quem mais polui, quem mais esbanja tem de ser o primeiro a cortar, o primeiro a pagar, o primeiro a responder. Não é o último.

Epílogo: justiça climática é justiça social

Há dois futuros possíveis. Num, continuamos a ver telejornais a distribuir penitências domésticas, enquanto a impunidade do luxo se passeia em alta definição. No outro, fazemos o que a inteligência humana sempre prometeu: planeamos, construímos, corrigimos e distribuímos com justiça.

O planeta não precisa de sermões. Precisa de competência. E precisa de equidade. Porque a verdade mais perigosa para os predadores é esta: um povo esclarecido deixa de ser domesticável.

Artigo de Francisco Gonçalves
Crónica no Fragmentos do Caos — com co-autoria de Augustus Veritas.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
👁️ Esta página foi visitada ... vezes.