A Democracia da Farsa Representativa: quando o Cidadão só entra se vier com crachá

- O nó central: participação política, na prática, condicionada pelos aparelhos partidários.
- O efeito: o cidadão é chamado a votar… mas raramente a decidir.
- O truque: mecanismos formais existem, porém são estreitos, pesados e facilmente neutralizados.
- O resultado: uma democracia que parece plural… mas funciona muitas vezes como monopólio de acesso.
A Democracia da Farsa Representativa: quando o Cidadão só entra se vier com crachá
O grande problema destas ditas democracias é exactamente esse que disseste, sem rodeios: só há participação política "a sério" quando ela nasce dentro das máquinas partidárias, cresce nas estufas do aparelho e floresce já podada, com as folhas no tamanho regulamentar. Fora daí, o cidadão independente é tratado como um visitante sem convite: pode olhar, pode bater palmas, pode até gritar um bocado — mas não mexe nos interruptores.
A democracia representativa tornou-se, muitas vezes, uma espécie de hotel de luxo: a porta diz "bem-vindo", mas o elevador só sobe com cartão magnético. O cartão chama-se: lista, estrutura, fidelidade, "linha", subserviência, promessa futura. E, claro, a bênção da pequena aristocracia interna que decide quem é "viável" e quem é "excêntrico". É assim que a cidadania se transforma num mero papel de parede.
1) O voto como bilhete, não como volante
O sistema convida-te a votar, não a conduzir. É um bilhete para assistires ao espectáculo da alternância — a ilusão elegante de escolha —enquanto o guião permanece guardado na gaveta do costume. O cidadão é soberano por um dia, e passageiro nos restantes 1460.
E quando alguém tenta sair do corredor e entrar na sala das decisões, encontra o labirinto: requisitos, formalismos, custos, media que exigem "notoriedade", e um coro de especialistas a repetir a palavra assassina: "impraticável". A democracia da farsa vive desta palavra como a ferrugem vive do sal.
2) A iniciativa cidadã existe… mas em modo "travão de mão puxado"
Sim, há mecanismos formais: petições, iniciativas, consultas, espaços locais, momentos de "participação". Mas repara na arquitectura: são canais estreitos, longos, demorados, fáceis de empurrar para a prateleira da burocracia. É como oferecer um copo de água a quem arde — e depois discutir se o copo cumpre a norma europeia do diâmetro.
E, quando a energia cidadã ganha volume e ameaça romper o hábito, a máquina faz o que sabe fazer: absorve ou neutraliza. Absorve com convites, cargos e fotografias; neutraliza com silêncio, rótulos e suspeitas. O objectivo é simples: manter a rebelião no tamanho de um parágrafo.
3) Os aparelhos: a alfândega do poder
Os aparelhos partidários funcionam como uma alfândega: decidem quem entra, o que entra, e em que condições entra. O argumento oficial é a "governabilidade". O argumento real é o controlo. Porque um cidadão independente é perigoso por uma razão brutal: pode não dever favores.
E a máquina detesta gente que não deve favores. Detesta como o vampiro detesta o sol: não por moral, mas por sobrevivência. Por isso a regra implícita é esta: se queres influência, filia-te; se queres decisão, submete-te; se queres ser ouvido, aprende o dialecto do aparelho. A democracia torna-se um clube onde a entrada é "livre" — desde que aceites a coleira.
4) O futuro: ou abrimos as portas, ou a casa apodrece por dentro
Uma democracia que não permite participação independente torna-se um aquário: parece vida, mas é vidro. A longo prazo, o que cresce não é a confiança — é a desistência. E a desistência é a mãe de todos os monstros políticos.
O futuro terá de ser mais largo do que esta sala abafada: mais deliberação real, mais transparência prática, mais possibilidade de cidadania organizada sem pedir licença ao partido do dia. Se a política continuar a ser uma estrada onde só circulam veículos com matrícula partidária, então não é democracia: é concessão.
Epílogo: a máquina é grande, mas o povo é o chão
A máquina pode ser enorme, untada de propaganda e cheia de correias. Mas há uma verdade física, quase poética: toda a máquina precisa de chão. E o chão chama-se povo. Quando o chão se move, o palco treme. E quando o palco treme, até os mestres do enquadramento começam a gaguejar.