A Democracia Capturada e o Capitalismo Sem Vergonha

- Em muitas democracias, a percepção pública é a de uma justiça desigual: uma para ricos e poderosos, outra para o resto da sociedade.
- O poder económico global usa mecanismos legais e fiscais para reduzir impostos ao mínimo, drenando recursos que sustentariam serviços públicos e coesão social.
- A concentração extrema de riqueza transforma-se em poder político: influência sobre campanhas, media, legislação e opinião.
- A corrupção moderna raramente é apenas um envelope: é um ecossistema de favores, consultorias, "portas giratórias" e redes de decisão opacas.
- O resultado social não é só desigualdade material, mas também pobreza existencial: vidas inteiras gastas a sobreviver, sem horizonte de futuro.
A Democracia Capturada e o Capitalismo Sem Vergonha
O maior drama das democracias actuais já não é apenas a falha humana de um político isolado. É o desenho sistémico de um poder que se traveste de normalidade. A injustiça que separa ricos e pobres nos tribunais e na vida não saiu do nada: é a superfície visível de uma arquitectura de captura.
Somos governados, demasiadas vezes, por elites políticas submetidas ao pulso do poder financeiro e das multinacionais predadoras, capazes de circular entre ministérios e conselhos de administração com a mesma naturalidade com que um cidadão comum muda de paragem de autocarro.
E quando o povo pergunta "onde está a democracia?", a resposta vem em linguagem técnica, relatórios adornados e promessas de reforma. Não é que não existam eleições. É que o poder real aprendeu a viver ao lado delas, como um senhor feudal moderno que já não precisa de castelo: precisa apenas de contratos, lobbies e contabilidade criativa.
O apogeu do crime societário
O capitalismo atingiu uma fase perigosa não só pelo que faz, mas pelo que normaliza. Quando poucos acumulam fortunas maiores do que o PIB de países médios, o problema já não é apenas moral: é estrutural. A riqueza torna-se um sistema paralelo de soberania.
Compra-se influência, compra-se silêncio, compra-se tempo de antena, compra-se legislação com efeitos retroactivos para proteger interesses, compra-se o próprio conceito de "realismo". E à porta do supermercado, milhões de pessoas contam tostões, como quem mede a vida a gramas de dignidade.
A pobreza existencial como política não declarada
O mais cruel desta engrenagem não é só a pobreza material. É a forma como ela se infiltra no espírito colectivo: adia filhos, adia vocações, adia a coragem de denunciar, adia a esperança até a esperança parecer um luxo de classe.
E aqui nasce a maior ironia: as democracias que não conseguem proteger economicamente os seus povos tornam-se vulneráveis às narrativas extremistas que prometem justiça imediata, mesmo quando essa promessa é apenas outra forma de manipulação.
Mecanismos de captura (o mapa do truque)
Para não deixarmos a indignação perdida no nevoeiro, vale a pena nomear os mecanismos mais recorrentes desta captura democrática:
- Porta giratória entre reguladores, governos e grandes grupos económicos.
- Optimização fiscal agressiva que transforma lucros globais em impostos mínimos.
- Lobbying opaco e legislação feita com letra técnica para esconder consequências sociais.
- Concentração mediática que molda narrativas e reduz o contraditório real.
- Justiça subfinanciada, lenta e desigual, onde o tempo é uma arma do poderoso.
Cinco rupturas possíveis (sem utopias)
O antídoto não é retórica. É arquitectura política e coragem institucional. Se a Europa quiser merecer a palavra democracia sem a usar como verniz, há cinco passos que seriam uma mudança de era:
- Justiça rápida e tecnicamente reforçada, com meios humanos e digitais, transparência processual e punição exemplar da corrupção de topo.
- Guerra séria à evasão fiscal internacional, em coordenação europeia, para que as multinacionais contribuam onde geram valor.
- Limites duros ao lobbying não transparente e registos públicos obrigatórios de influência legislativa.
- Política de concorrência musculada contra oligopólios que se comportam como governos paralelos.
- Reforço da democracia económica: salários dignos, negociação colectiva moderna, protecção social que não seja esmola tardia.
Epílogo: quando a vergonha se evapora
Há uma frase que se impõe como diagnóstico do nosso tempo: o capitalismo não colapsa quando falha; colapsa quando deixa de ter vergonha. E a democracia não cai apenas quando perde eleições; cai quando o cidadão percebe que o seu voto tem menos peso do que o cheque de um império privado.
A verdadeira pergunta não é se a Europa tem princípios. É se tem coragem para os aplicar contra os seus próprios parasitas internos, aqueles que vivem de Estados fracos, povos cansados e leis desenhadas para serem labirintos.
Se não houver ruptura, o futuro será uma democracia de fachada com uma monarquia económica por trás do pano. E os povos continuarão a viver na beira da pobreza, não por azar histórico, mas por desenho político.
Crónica em co-autoria editorial com Augustus Veritas Lumen
1) Os povos não têm donos. O poder existe para servir, não para possuir.
2) Justiça igual ou não é justiça. A lei não pode ser luxo de classe.
3) Riqueza sem responsabilidade é ameaça pública. Quem ganha no país deve contribuir no país.
4) Transparência não é favor; é obrigação. O poder que foge à luz já escolheu o lado errado.
5) O Estado social não é esmola; é civilização. Sem dignidade material não há liberdade real.
6) O voto tem de ter músculo económico. Democracia sem controlo da captura é teatro.
7) O futuro pertence aos cidadãos inteiros. Não aos súbditos silenciosos do medo e da dívida.