BOX DE FACTOS
  • Portugal vive cansado de promessas que sobem mais depressa do que a realidade.
  • Os discursos salariais são frequentemente usados como escudo político em momentos de tensão social.
  • Metas sem plano são uma forma elegante de adiar o debate difícil sobre produtividade e modelo económico.
  • A esperança é um recurso nacional — e, por isso mesmo, vulnerável à exploração.

A Crónica do Demagogo — O salário prometido e o país adiado

Há anúncios que não são políticas: são anestesias. E há metas que não são metas: são lanternas mágicas para distrair o cansaço do povo.

O demagogo moderno já não precisa de berrar em praças fumegantes. Basta-lhe um palco, uma frase redonda e a agilidade de mudar o número sem mudar o caminho. Hoje diz 2.500, amanhã diz 3.000. O país, esse, continua a acordar com o mesmo salário e a mesma conta do supermercado.

A demagogia do século XXI é sofisticada: usa a gramática do progresso para evitar o rigor do plano. Fala de salários como quem fala de meteorologia: "vai melhorar", "vai subir", "vai acontecer". E, enquanto a multidão tenta agarrar a promessa com as mãos nuas, a realidade faz o que sempre fez: cobra juros ao optimismo.

A inflação da esperança

Quando um líder aumenta objectivos em dias consecutivos, não está necessariamente a sonhar mais — pode estar a medir a plateia. O demagogo é também um barómetro humano: sente o vento da indignação, detecta o cheiro da greve, e responde com a arma mais antiga da política portuguesa — a promessa de um amanhã onde tudo caberá, até o impossível.

O problema não é desejar salários altos. Isso é civilização, não é utopia. O problema é vender esse desejo como se fosse decreto natural do universo, dispensando o trabalho pesado de explicar como se chega lá.

O país que não cabe no comício

Portugal não é uma frase curta. Portugal é um romance longo com capítulos de produtividade baixa, tecido empresarial frágil e fuga de talento que parece maré. Aumentar salários exige um pacto claro com o futuro: ciência, tecnologia, indústria inteligente, educação exigente, e um Estado que se comporte como arquitecto da modernidade e não como cobrador de portagens da vida alheia.

Sem essa arquitectura, a promessa de salários elevados é um castelo de néon: brilha muito ao longe, mas não abriga ninguém quando chove.

A coreografia do número

O demagogo não mente sempre. Às vezes apenas simplifica até à mentira involuntária. Troca o mapa pelo slogan, a reforma pelo foguetão verbal, e espera que a força do aplauso substitua a força do investimento.

E, no entanto, o povo quer acreditar. Porque acreditar custa menos do que desistir. Porque a dignidade precisa de um horizonte. Porque ninguém aguenta viver só com a contabilidade do desencanto.

O antídoto

Há uma cura simples — e por isso rara. Sempre que alguém anunciar salários mágicos, pede-se três coisas: calendário,medidas e contas. Quando o discurso foge desses três pilares, não estamos perante um projecto de país — estamos perante uma campanha disfarçada de futuro.

Epílogo: a dignidade não é isco

Um país sério não usa o salário mínimo como cenoura retórica. Nem engorda o salário médio com números lançados ao vento como quem atira migalhas douradas a uma multidão faminta de justiça.

Se queremos chegar aos 1.600 e aos 3.000, que se diga o caminho com a mesma coragem com que se diz o número. Caso contrário, o demagogo continuará a reinar nesse território fácil onde a esperança é explorada como recurso natural inesgotável.

Artigo de Francisco Gonçalves
Com co-autoria editorial de Augustus
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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