A Comédia do Poder Abjecto — Notas sobre um país governado pela mediocridade organizada

- Portugal mantém níveis elevados de pobreza estrutural apesar de décadas de "normalidade democrática".
- O acesso ao poder político e institucional depende mais de lealdade do que de competência.
- A visibilidade substituiu o mérito; a narrativa substituiu a verdade.
- O sistema funciona sem conspiração: basta inércia, medo e interesse.
A Comédia do Poder Abjecto
Portugal não é governado por génios do mal. É governado por algo mais eficaz e mais perigoso: mediocridade organizada. Um poder sem visão, sem coragem e sem cultura profunda — mas extraordinariamente hábil a sobreviver.
Esta é a grande ilusão que ainda entretém muitos: a ideia de "forças secretas", "organizações ocultas", entidades quase míticas que tudo controlam. A verdade é mais banal — e por isso mais aterradora. O sistema não conspira: funciona por rotina.
O poder que não pensa
O poder abjecto não pensa — gere. Não sonha — administra. Não cria — conserva-se. Alimenta-se de formulários, discursos ocos, comunicados bem escritos e estatísticas amputadas.
É um poder que teme o pensamento livre porque o pensamento livre introduz variáveis. Prefere quadros previsíveis, obedientes, formatados, treinados para repetir slogans e nunca para formular perguntas perigosas.
A promoção da incompetência
Num sistema assim, a competência é um risco. Quem sabe demasiado questiona. Quem pensa demasiado incomoda. Quem trabalha bem ameaça expor o vazio dos que mandam.
Por isso, o sistema faz o que sabe fazer melhor: promove os dóceis, os leais, os bem falantes, os especialistas em aparecer. A mediocridade torna-se critério de segurança.
O país-palco
Portugal transformou-se num palco. O poder representa estabilidade. As elites representam competência. As redes sociais representam sucesso. E o cidadão representa gratidão.
Tudo é representação. Pouco é substância. O país vive num permanente ensaio geral, enquanto o futuro fica sempre para a próxima legislatura.
O papel do poder económico
O poder económico não precisa de conspirar. Basta-lhe financiar, patrocinar, influenciar. Portas giratórias, favores discretos, dependência mediática, contratos públicos distribuídos como prémios de fidelidade.
Não há uma mão invisível do mal. Há muitas mãos visíveis que fingem não se tocar.
O povo cansado
E o povo? O povo aguenta. Trabalha. Cala. Emigra. Envelhece.
A maioria não acredita no sistema, mas acredita ainda menos na possibilidade de o mudar. O poder abjecto vive dessa resignação.
Para memória futura
Esta crónica não pretende derrubar ninguém. Pretende apenas deixar registado o óbvio, para que um dia não se diga: "ninguém percebeu".
Percebeu-se. Viu-se. Avisou-se.
O problema nunca foi falta de inteligência. Foi excesso de conveniência.
Um país não cai quando é governado por tiranos. Cai quando é governado por mediocridade suficiente — durante tempo demais.
Fragmentos do Caos
Co-autoria crítica: Augustus