A Caridadezinha dos Intocáveis: quando o recibo some e a fotografia aparece

- Fenómeno: quando o dever fiscal vira "opção" e a filantropia vira "marca".
- Truque moral: trocar o colectivo (impostos) pelo espectáculo (doação com fotografia).
- Resultado: o Estado fica subfinanciado, e o povo paga duas vezes: com impostos e com aplausos.
- Gancho mediático: notícias de gestos solidários de figuras muito ricas reforçam a narrativa do "benfeitor".
- Pergunta incómoda: porque é que o "mérito" só aparece em manchete quando é voluntário?
A Caridadezinha dos Intocáveis: quando o recibo some e a fotografia aparece
A arte de fugir ao dever e regressar como santo
É uma coreografia antiga, mas continua a funcionar como relógio suíço (guardado num cofre fora do mapa). Primeiro, os muito poderosos fazem uma descoberta científica: o imposto é um conceito relativo, como a moral em dia de gala. Depois, com o mesmo rigor com que se escolhe um vinho raro, escolhe-se também uma jurisdição simpática, com palmeiras, sigilo e uma burocracia que sorri.
E quando a cidadania começa a perguntar — timidamente, porque em Portugal até as perguntas pedem licença — surge o grande acto final: a caridadezinha. Uma casa aqui, uma ambulância acolá, material hospitalar a brilhar como redenção instantânea. Não é ajuda: é narrativa. A doação não cai do céu — cai para a câmara.
Porque é que isto cola tão bem na alma colectiva?
Porque o imposto é invisível e impopular. É chato. É cinzento. É "papelada". A doação, pelo contrário, é cinema: tem emoção, tem antes-e-depois, tem "obrigado" com lágrimas e um país inteiro a suspirar: "Vês? Há bons ricos." E há. Claro que há. O problema é quando o país inteiro depende da bondade ocasional, como se a justiça social fosse um peditório com hora marcada.
O imposto é a versão adulta da solidariedade: não escolhe destinatários por simpatia, não pede palmas, não exige altar. Serve para financiar escolas, hospitais, justiça, transportes — essas coisas aborrecidas que não cabem num "reels" de 12 segundos.
O truque psicológico: trocar o colectivo pelo voluntário
Há uma diferença brutal entre contribuir e aparecer a contribuir. Quem paga impostos financia o país mesmo quando ninguém vê. Quem faz filantropia mediática pode escolher a vitrina, a data, o ângulo, e — sobretudo — pode escolher não tocar no essencial: a máquina que produz desigualdade, precariedade e dependência.
É aqui que o teatro fica mais perverso: a filantropia pública pode funcionar como um "selo de absolvição". E nós, povo de salários curtos e paciência longa, fazemos o resto: aplaudimos, agradecemos, e seguimos para a fila. Uma fila para o hospital, outra para as Finanças, outra para a vida.
E se a verdadeira caridade fosse… não fugir?
Há uma ideia escandalosa — quase revolucionária — que devia ser dita em voz alta: a maior forma de solidariedade de um ultra-rico não é a doação; é pagar o que deve, onde vive. Porque isso não depende de humor, nem de vaidade, nem de marketing. Depende apenas de uma coisa raríssima: responsabilidade.
A caridade é bonita. Mas não substitui um país funcional. Um país funcional não pede "gestos". Exige regras iguais. E cumpre-as. E quando as cumpre, a solidariedade deixa de ser espectáculo — passa a ser estrutura.
Epílogo: o santo e o contribuinte
No fim, há dois tipos de heróis: o que aparece na notícia com a oferta na mão, e o que aparece na folha de vencimento com a retenção no topo. Um recebe aplausos. O outro recebe silêncio.
E talvez seja por isso que a desigualdade cresce: porque confundimos justiça com bondade ocasional. E a bondade ocasional, por mais comovente que seja, nunca foi capaz de construir um país — apenas de o adiar.
Fontes e Leituras
- Correio da Manhã / CMTV — "O lado solidário do superagente Jorge Mendes" (25/12/2025). ver
- Correio da Manhã — "Jorge Mendes dá casa e ambulância na Beira" (26/04/2018). ler
- IPO Porto — Nota institucional sobre doação de equipamento (15/12/2018). ler
- VM TV (SAPO) — Notícia sobre oferta de equipamento médico a hospitais (22/03/2020). ler
- ECO — Artigo de opinião "A fuga dos impostos" (28/07/2022). ler
Fragmentos do Caos — crónica satírica e cívica
Co-autoria editorial: Augustus Veritas