BOX DE FACTOS
  • A radicalização política nos EUA tornou-se um risco estrutural para a qualidade democrática.
  • Movimentos ultra-extremistas funcionam como aceleradores de polarização e normalização da violência simbólica.
  • O perigo maior não é apenas eleitoral: é cultural, institucional e social.
  • Um enfraquecimento interno prolongado dos EUA reduz a capacidade do Ocidente para conter autoritarismos e redes criminosas globais.
  • Quando a potência nuclear mais influente do mundo entra em convulsão interna, o planeta inteiro sente o abalo.

A América em Fissura: Quando a Guerra Interna Enfraquece a Civilização Ocidental

A América não corre apenas o risco de escolher mal. Corre o risco de se habituar ao acto de se dividir até à erosão do próprio chão comum. E quando o centro do Ocidente treme, o resto do edifício não fica intacto.

Há uma tentação moderna de reduzir tudo a ciclos eleitorais, como se a História coubesse numa urnabe o destino democrático fosse uma alternância de governo com colunas de opinião pelo meio. Mas os EUA entraram numa fase em que a política deixou de ser apenas disputa de programas e passou a ser disputa de realidades.

Não é um detalhe. É tectónica. A existência de movimentos ultra-extremistas que gravitam em torno de líderes e slogans, apontando-os como salvadores de uma nação supostamente sequestrada, cria um obstáculo directo à democracia liberal. Porque a democracia vive da legitimidade do adversário. E o ultra-extremismo vive da sua desumanização.

O culto político como arma de ruptura

A frase "make America again", desprendida da sua retórica e analisada como fenómeno, revela um risco que o Ocidente já viu noutros tempos: a nostalgia como combustível de revanche, a identidade como faca, e a promessa de regeneração como licença para atropelar limites.

Quando um líder se transforma em símbolo absoluto, a crítica deixa de ser debate e torna-se traição. A imprensa deixa de ser vigilância e passa a ser inimiga. Os tribunais deixam de ser pilar e passam a ser obstáculo. E o Estado de direito, esse velho edifício de pedra paciente, começa a ser tratado como um estorvo burocrático em vez de ser visto como o que é: a última muralha civilizada contra o abuso.

A violência em estado de incubação

É aqui que o teu alerta ganha densidade. O risco de os EUA deixarem de ser um país plenamente livre não nasce apenas de leis más, mas de uma cultura política que normaliza a intimidação, glorifica a ruptura, e flerta com a ideia de que a força substitui o consenso.

Talvez não estejamos perante a "guerra civil" no molde clássico,bcom linhas contínuas e frentes definidas. Mas estamos perante algo que corrói do mesmo modo: uma atmosfera onde a violência política episódica, a ameaça permanente, e a desconfiança total transformam o quotidiano numa pré-crise prolongada.

O enfraquecimento internacional como consequência inevitável

O segundo plano que referes é a outra lâmina da mesma tesoura. Um país fracturado por dentro perde autoridade por fora. E não é preciso ser antiamericano para reconhecer isto: a credibilidade estratégica nasce da coesão, da previsibilidade institucional, e da confiança nos mecanismos de transição de poder.

Quando o mundo sente que a bússola americana oscila, as alianças tornam-se mais nervosas, os adversários tornam-se mais ousados, e os actores cinzentos — do autoritarismo ao crime organizado — percebem que há espaço para avançar.

O risco civilizacional: a queda do pilar central

O Ocidente não é uma entidade mística. É uma arquitectura histórica feita de valores, instituições e poder material. E os EUA são, goste-se ou não, o grande suporte dessa arquitecturavem matéria de segurança, tecnologia, finanças e dissuasão global.

Se esse suporte entra em crise profunda, a civilização ocidental não cai automaticamente;vmas fica vulnerável a uma sequência de abalos. E esses abalos somam-se a tudo o que já estás a mapear: pressões autoritárias externas, redes fanáticas, cartéis globais, e uma desconfiança crescente nos próprios Estados de direito europeus.

O que a América revela à Europa

Há uma lição indirecta, quase cruel, para o continente europeu. A democracia não morre apenas quando é atacada. Morre quando não se protege a tempo contra a corrosão interna:bcorrupção, captura económica, impunidade funcional, e a cultura de que "nada muda".

O que se passa nos EUA é um espelho ampliado do que pode acontecer quando sociedades inteiras se habituam a viver em modo de ressentimentobe quando cada eleição é tratada como um combate existencial em que o adversário não pode apenas perder — tem de ser eliminado.

Epílogo: a civilização é uma disciplina diária

A ameaça maior, no fim, não é um nome próprio. É a cultura que aceita o culto, que substitui instituições por afectos tribais,be que troca a complexidade da liberdade pela simplicidade intoxicante do "nós contra eles".

Se a América quiser continuar a ser pilar do mundo livre,bterá de recuperar o centro de gravidade democrático: o respeito por regras comuns, a legitimidade do dissenso, e a confiança de que a lei não é inimiga do povo, mas a sua única defesa contra as vertigens do poder.

E se a Europa quiser sobreviver a essa possível oscilação americana, terá de fazer o que tantas vezes adia: construir uma autonomia estratégica real, uma justiça mais célere, e uma cultura política que não confunda indignação com soberania.

Porque a civilização ocidental não será detonada por um só inimigo. Será detonada, se o for, pela soma de fraquezas internas que abrem portas às tempestades externas.

Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial: Augustus
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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